e meu encontro com antônio nóbrega rendeu dois frilas. o da revista brasileiros de maio, que já postei aqui, e esse para o site revista de dança, das colegas flávia fontes e marcela benvegnu (agradecimentos também a alexandre staut que editou o texto). o texto que segue vai mais fundo nas questões que antônio nóbrega vem pensando e trabalhando no universo da dança.
CONSTRUINDO UMA DANÇA BRASILEIRA
Antônio Nóbrega está prestes a dar um passo e tanto. Em momento particularmente especial em sua vida - no qual comemora 60 anos de vida, 40 de carreira e 20 de seu Teatro e Instituto Brincante -, o multiartista olha para o quintal de sua casa em São Paulo e orgulhoso revela que um de seus muitos projetos para 2012 é a criação da Companhia Antônio Nóbrega de Dança. “Vai ficar esse nome mesmo”, e ri ligeiramente acabrunhado da, digamos assim, pouca originalidade do nome da companhia.
Pela primeira vez o pernambucano não dançará sozinho ou com alguém da família (a mulher e parceira Rosane Almeida ou a filha Maria Eugênia), e sim com outros dez homens e mulheres. “Estou agora ampliando a formação desses bailarinos no universo popular brasileiro e isso me cobra uma pedagogia, um método para codificar uma linguagem”, explica. Será, finalmente, o seu mais completo laboratório para a criação de uma Dança Brasileira, com letra maiúscula mesmo, junto de um espetáculo inédito com estreia prevista para meados de 2013.
Apesar de ter ficado conhecido como instrumentista, nos tempos do Quinteto Armorial na década de 1970, e depois também como ator e cantor, foi na dança que Nóbrega mergulhou mais profundamente no decorrer dos anos. “Só conheci e passei a me interessar pelo universo da cultura popular quando o Ariano Suassuna me chamou para fazer parte do Quinteto. Curiosamente comecei a me entender, a me deixar seduzir também pelo universo da dança do frevo, do caboclinho. Esse processo todo nasceu de um encantamento.”
Desde seus primeiros espetáculos solo - Figural e Brincante, ambos do início da década de 1990 -, a dança tem um papel fundamental na costura entre as manifestações culturais celebradas por Nóbrega. Mas foi a partir de meados dos anos 2000, principalmente com a série Danças Brasileiras (feita para a TV Futura) e o show Nove de Frevereiro, que o pernambucano colocou-a no centro de seu palco, o que culminou em 2009 no espetáculo Naturalmente – Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira. Disso para a vontade (necessidade?) de uma companhia de dança para poder experimentar à vontade foi um pulo.
Só que Antônio Nóbrega é o tipo de artista que pensa bastante sobre o próprio ofício e para ajudar-lhe nessa tarefa conta com uma vasta biblioteca com tudo que alguém possa imaginar sobre a formação do Brasil. “A dança de nossos palcos ainda é de extração ocidental. Você não vê alguma coisa que traga uma representação simbólica do Brasil e quando traz é de uma maneira muito frágil. Não é assim com a música de Villa-Lobos ou a literatura de Guimarães Rosa, por exemplo. Além d’eu ter me sentido chamado corporalmente pela dança também me senti compelido a fazer essa reflexão, talvez até por conta dessa ausência.”
E desanda a falar sobre dança clássica e seu eterno viés academicista, tudo que foi norma no mundo até o fim do século 19. Sua cabeça não para. “O que não fazia parte desse universo a dança não acolhia. Em termos práticos, se a dança promove movimentos retilíneos... o que é curvo ou grotesco fica de fora. Mas isso é humano! O humano comporta um e outro. Mas isso era solapado por essa visão ocidental, cartesiana, tecnicista, cerebral.” Então faz uma pausa dramática no raciocínio, tambores invisíveis rufam ao longe e completa que “por isso no século 20 vem o rock, a dança moderna, a contemporânea, e tudo com muita força, a força do recalque. Os roqueiros são os bárbaros que não tiveram vez na cultura europeia.”
Cita alguns roqueiros bárbaros da dança, gente como Isadora Duncan (1877-1927), Marta Graham (1894-1991), Maurice Bejárt (1927-2007) e Pina Bausch (1940-2009), artistas que admira profundamente, mas que por serem norte-americanos ou europeus não enfiaram totalmente o pé no recalque (ou popular, torto, grotesco, subalternizado pela cultura hegemônica, etc.) “Existem pessoas tentando isso, procurando no Oriente e na África, mas acho que nós – e aí vai meu elogio ao nosso país – e as nações jovens do mundo temos as melhores oportunidades porque isso está entranhado na gente.”
Claro que essa imagem “roqueira” é muito distante do discreto, austero e ágil pernambuco-paulistano pai de dois adultos (Gabriel tem 28, Maria Eugênia 25) e também avô. “Não estou dizendo com isso que sou melhor que os outros porque não sei se vou conseguir, não sei se tenho capacidade pra isso. Mas com essa Companhia de Dança espero trazer notícias. Pode ser uma doidice minha, mas também pode ser uma reflexão sensata.” Pausa para respirar.
É um passo e tanto esse da busca pela criação de uma linguagem (brasileira) na dança. Qualquer outra pessoa estaria em pânico. Mas o sereno e metódico Antônio Nóbrega ainda este ano protagoniza um show em homenagem a Luiz Gonzaga e um longa inspirado no espetáculo Brincante (em sua quarta colaboração com o cineasta Walter Carvalho), além de uma série de eventos em seu teatro na Vila Madalena paulistana.
“Sou otimista e acho que a gente tem que ser assim. Porque, como ser humano, já temos de saída elementos pra gente ser pessimista: a morte, o corpo que é frágil, uma psique cada vez mais atormentada. Pra encarar tudo isso é preciso ser conscientemente otimista e acreditar que essa experiência pode até se acabar, mas que pelo menos tem que ser produtiva no seu dia a dia. Sou um otimista por compulsão”, e pede licença para ver quem está tocando a campainha. Ainda não é o terapeuta corporal que está esperando para uma aula logo mais.
“Não sei se a minha prolixidade vai te confundir”, confessa ao voltar. Digo para não se preocupar e ouço atentamente enquanto mais uma vez retorna ao passado para falar que durante os três primeiros séculos do “fazimento” do Brasil as heranças negras, indígenas e ibéricas se miscigenaram livremente pelas ruas, senzalas e arraiais do país. E que esses encontros ganharam um novo impulso com a chegada da Família Real (a cultura hegemônica) em 1808. Porém, segundo ele, “até hoje esses encontros são inferiores às suas potencialidades.” Em outras palavras, a cultura mestiça da rua pode e deve invadir ainda mais esse universo branco ocidental.
“Agora, das duas uma, ou não há um dimensionamento hiperlativo dessa cultura ou eu a dimensiono hiperlativamente”, e solta uma gargalhada daquelas sinceras. De repente, o rosto volta a ficar sério como se um pensamento muito importante estivesse sendo formulado naquele exato momento. Na mosca. “A arte não vai mudar a ordem das coisas, mas tem o papel de ajudar a gente a ter uma consciência um pouco mais completa das coisas para fazer a mudança”, diz Nóbrega, muito certo de seus próprios passos.
caramba, o festival sónar são paulo já aconteceu tem duas semanas! foi correria boa, muitos shows, várias coisas interessantes e nenhum grande problema (fora o som aqui e ali). e ainda encontrei amigos (oga mendonça, dudu tsuda, igor fediczko e o pessoal da gang do eletro) e pessoas que só conhecia virtualmente (chico dub, pedro pinhel, lauro mesquita, bruno yutaka saito, lorena calábria e felipe cordeiro). essa cobertura nada objetiva foi dividida em duas partes/dias no yahoo, mas aqui seguem juntas e com alguns videos oficiais do festival (o da gang do eletro já coloquei no post "eletro sónar") e fotos que tirei. o texto mais recente no ultrapop é "a hora e a vez do rap nordestino", sobre as novas rimas e sons da bahia (oquadro) e ceará (don l).
O primeiro dia
Festival criado em Barcelona lá pelos idos de 1994 unindo
“música avançada” e tecnologia, o Sónar começou a se espalhar pelo mundo a
partir dos anos 2000 e inevitavelmente chegou ao Brasil, mais precisamente São
Paulo. A edição 2012 no país teve ontem seu primeiro dia (noite) e foi bastante
movimentado. Com dezenas de atrações divididas em três palcos espalhados pelo
Parque Anhembi, o Sónar São Paulo
começou pontualmente às 20h com apresentações do duo catalão Za! e discotecagem do músico
Maurício Fleury nos palcos Sónar Hall e Sónar Village, respectivamente.
Enquanto os primeiros criaram uma atmosfera barulhenta e pretensamente
engraçada (vocais esganiçados, por exemplo), Fleury, que é da banda Bixiga 70 e toca com músicos como Lucas
Santtana e Pipo Pegoraro, soltou um setlist delicioso e totalmente
afrolatinofunkbrasileiro. Pena que no início da noite só alguns gatos pingados
tiveram a sorte de ouvi-lo.
Após o Za! foi a vez do brasileiro Ricardo Donoso no Sónar Hall – nada
menos que o célebre palco do Anhembi que recebeu shows históricos de Elis Regina,
Doces Bárbaros e o festival Phono
73 – e a situação não melhorou muito pelas bandas de lá. Etéreo e vazio
poderiam definir o show, mas como geralmente tenho preguiça de música
eletrônica ao vivo não sou uma fonte confiável. No mais, era tempo de ver a
primeira apresentação do principal palco do festival, o grande Sónar Club. Quem
abriu os serviços foi o elogiado músico e produtor inglês James Blake, mas nessa primeira noite
usando a capa de DJ (ele se apresenta com banda no segundo dia). Não funcionou.
Arrastado, o setlist de Blake foi um enfileiramento de dubsteps tanga frouxa e
sua cara de paisagem não ajudou muito a esquentar a entrada para uma das
grandes atrações da noite, os alemães do Kraftwerk.
Enquanto isso no Sónar Hall, a veterana pianista Clara Sverner lutava ao lado do filho,
o designer gráfico Muti Randolph, contra problemas de som e barulhos externos.
O repertório erudito-popular de Clara foi sendo paulatinamente soterrado por
essas questões e as intervenções gráficas de Randolph no telão (sincronizadas e
inspiradas pela música) pareciam datados a olhos mais jovens. Seria uma ótima
apresentação em outro lugar, ali ficou deslocado e foi prejudicado. Ao lado, no
Sónar Village, o produtor norte-americano Cut
Chemist deu o primeiro e enérgico sinal que a noite iria esquentar.
Ex-integrante do lendário Jurassic 5, Chemist tocou o terror nas picapes de uma
forma vibrante e divertida.
Então, por volta das 23h e já com um público bem maior, o
festival recebeu o Kraftwerk. Impressionante
com os sons eletrônicos quarentões criados por Ralf Hutter e sua turma
germânica (ele é o único membro original presente) continuam soando modernos. Talvez
a explicação seja porque a música do Kraftwerk continua carregando a surpresa
da descoberta, a alegria da experimentação, e isso a fazer ser muito mais que
eletrônica (sem desmerecimento nenhum ao gênero, claro). O público urrava a
cada hit que aparecia, tais como “The Robots”, “The Model”, “Autobahn” e “The
Man-Machine”. E o público também urrava com a ótima projeção 3D. Lá no palco os
quatro homens eletrônicos permaneceram estáticos e silenciosos e ainda assim
fizeram um show mais pesado e totalmente atual (além de melhor que o da última
vez que estiveram aqui,
em 2009).
Do outro lado do Anhembi, no Sónar Hall, Criolo enfrentou a pesada
concorrência com sua habitual energia, humor, balanço e politização (sem falar
na sua afiadíssima banda). Apesar de problemas com o som – que apareceram em
todos os shows, com maior ou menor ênfase, mas nada que chegasse a fatalidade
-, o MC paulistano mandou todos os seus sucessos de crítica e público e não
teve dificuldade alguma em ganhar o público. Ali perto, o lendário DOOM, um dos mais importantes nomes do rap
underground norte-americano, tocou fogo no público do Sónar Village. Rappers
brasileiros que estavam ali como Rodrigo Ogi, Macário, Kamau e Max B.O.
vibravam a cada porrada sonora de seu ídolo e já era possível ter certeza que a
noite teria motivos de sobra para ser lembrada por muito tempo. Zegon, DJ que
era do Planet Hemp e depois partiu para uma excelente carreira de produtor,
teve a dura tarefa de manter o pique pós-DOOM e conseguiu se utilizando de
variedade e alguns convidados. O primeiro foi RAPadura, jovem rimador do Ceará que cruzou
Luiz Gonzaga com velocidade e impressionou muito quem ouviu. Depois entrou um
sujeito da Indonésia, mestre do talk box, mas era hora de Little Dragon, outro dos shows muito
esperados da noite. Foi a primeira vez que o quarteto sueco pisou no Brasil e a
vocalista Yukimi Nagano fez questão de frisar o fato, mas nada disso foi
problema para uma plateia cheia (ainda mais que a do Criolo) e que conhecia
várias músicas dos três discos da banda e principalmente do último Ritual Union. Quem esperava uma
apresentação mais
tranquila foi presenteado com um Little Dragon mais roqueiro e a bela
Nagano dançando muito, toda a vontade.
é a nagano (little dragon) ali no centro
Duras horas da manhã e o gás acabando. Rumo à última grande
atração da noite, a dupla Chromeo, passo pelo
show do Emicida e tudo está muito bem,
obrigado. O rapper paulistano não para de crescer e dominar seu ofício, além de
conseguir um fato raro entre artistas brasileiros: seu amadurecimento
artístico-pessoal é compartilhado com seu público, que acaba amadurecendo
junto. Maravilha. Mas lá vou conhecer esse tal de Chromeo, a união de Dave 1 e
P-Thugg, enquanto uma leve garoa surge sem cerimônia.
É fácil entender o apelo do som da dupla e tinha bastante
gente lá para comprovar isso. Pop esperto, espírito retrô, algum humor e muita
energia são combinados em uma hábil montanha russa de estímulos. Muita gente
gostou, considerou o show da noite e coisa e tal. Só achei bem feito, mas não
me pegou porque parecia programado demais. De qualquer forma, uma ótima
primeira noite, sem grandes frilas, bastante espaço, muita variedade.
O segundo dia
O batidão começou às 16h no sábado do Sónar São Paulo. E quem deu
início aos trabalhos do dia foi Dago, DJ da Avalanche Tropical, com um setlist
divertido e pesadão, guettotech e outras bossas, no Sónar Village. Cheguei ao
final, o clima estava bom e tinha mais gente que no início do primeiro
dia. No palco ao lado, o ótimo Sónar Hall, algum problema de origem
desconhecida fez com que o primeiro show, do Psilosamples, atrasasse uma hora e
meia. Teve um lado bom nisso porque consegui assistir o show do mineiro, da Gang do Eletro (no Village) e
do SILVA (também no Hall),
que no horário original iriam brigar.
Então o festival começou realmente (pra mim) com a Gang do
Eletro, que conheço de outros carnavais e até protagonistas de um perfil que
escrevi para a Vice Brasil (“Duas
cabeças, uma levada”). Sou muito fã dos paraenses, portanto opinião
suspeita, mas eles e ela estavam particularmente inspirados. Com figurinos meio
tribais meio Tron, e tudo pintado com
tinta fosforecente, Marcos Maderito, Keila Gentil, William Love e o DJ Waldo
Squash estavam naquela eletricidade de quem está com muita vontade de fazer um
showzão. Conseguiram, apesar de alguns problemas de som e o microfone de Keila teimando
em cair.
Agora, quase tão bom quanto ver a energia e a música deles
ao vivo é presenciar a reação de quem não conhecia ou não tinha visto ao vivo.
Começa como espanto do tipo “O que é isso que está acontecendo na minha
frente?” e depois vira sorriso besta, nada percebido racionalmente, pois desde
o primeiro beat você já está dançando, jogando a mãozinha pro ar,
compartilhando de toda a cultura das aparelhagens. E dá-lhe “Galera da Laje”,
“Sinhá Puresa”, “Panamericano” e uma ótima participação do conterrâneo Felipe Cordeiro, cantor e compositor
dessa nova onda paraense, colocando guitarrada no eletromelody (mais tarde, na
sala de imprensa, Maderito anunciou que uma parceria entre eles estará no disco
de estreia da Gang).
ao som de psilosamples
No Sónar Hall, Psilosamples finalmente subiu ao palco e fez
uma apresentação intimista, bonita e cheia de camadas, mas talvez o Auditório
Celso Furtado fosse grande demais para sua música. De qualquer forma, esse
mineiro de Pouso Alegre continua fazendo um dos melhores e mais brasileiros
sons eletrônicos do momento. Daí, na sequência, veio o capixaba Lúcio da Silva
Souza, ou SILVA, que conseguiu cumprir as altas expectativas que surgiram ano
passado com apenas as cinco
músicas de seu EP. Suas delicadezas eletrônicas e acústicas sobreviveram a
novos problemas de som e ainda estava genuinamente feliz e orgulhoso de tocar
“12 de maio” exatamente um ano após a música ser composta e como atração de um
festival importante como o Sónar. SILVA promete muito mais.
Não consegui entender o metal progressivo do
anglo-norte-americano KTL, também
no Sónar Hall, e só voltei ao recinto para testemunhar o grande show de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto. Não esperava que estivesse tão
cheio e muito menos que aquele tanto de gente fosse conseguir se comportar
durante o show minimalista (piano, programações e o excelente telão
acompanhando graficamente a música), mas deu tudo muito certo entre o japonês,
o alemão e o público brasileiro. Até o som ajudou numa bela viagem
sonora-visual.
Hora de tomar um ar no caminho para o gigantesco galpão do
Sónar Club e acompanhar o primeiro show de Cee
Lo Green no Brasil. Em termos gerais foi divertido, mas sabemos que o
inferno está no detalhes. O som estava um horror, o grave muito alto embolando
todos os instrumentos e sufocando no vozeirão de Cee Lo. Muito baseado no disco
The Lady Killer, de 2010, o
repertório do show não é dos mais vibrantes e só cresceu mesmo quando surgiram
os hits “Fuck You” e “Crazy” (Gnarls Barkley, seu projeto com Danger Mouse).
Do outro lado do Anhembi, os escoceses do Mogwai promoveram um festival de distorções
em altos volumes. Teve gente que achou que pedaços do teto iam cair. Outros
sentiram instantâneos problemas de audição. Muitos amaram de paixão. Uma
palavra (“progressivo”) martelava em minha cabeça música após música e sentia
que aquela viagem não ia a lugar nenhum, parecia mais exibicionismo. Quer
dizer, mas vai da viagem de cada um, né não? E falando nisso, de volta ao caixotão Sónar
Club, o Justice rapidamente
tomou conta de todos os muitos espaços e fez uma festa grande, muito bem
iluminada, intensa. Entre Cee Lo e os franceses tocaram os niteroienses do The Twelves, baita responsa, mas
vi muito pouco para falar qualquer coisa.
Nessa briga de gigantes peguei só um pedacinho do Flying Lotus e lamentei profundamente não
tê-lo ouvido mais (escolhas, escolhas). Daí que minha maratona pessoal pelo Sónar
São Paulo, para o Yahoo! Brasil,
acabou no bom show do inglês James Blake.
Entre melancolia e ruídos, paredes tremendo, destaque para uma longa versão de “Limit to Your
Love” (Feist). E então o gás (definitivamente) acabou.
e as coisas continuam rolando na revista brasileiros. agora na edição de maio saiu um perfil que fiz do antônio nóbrega sobre esse ano de 2012 cheio de novidades e comemorações. a entrevista aconteceu em sua casa perto da praça do pôr do sol, aqui em são paulo, e teve pouco mais de uma hora. como esse texto da brasileiros era mais genérico sobre o momento e seus planos ficou muita coisa de fora de uma conversa que tivemos sobre a dança brasileira, seus questionamentos, etc. acabei utilizando esse material bônus para um outro frila, dessa vez para o site revista de dança. e a caravana segue...
EM NOME DA DANÇA NACIONAL
Em momento no qual
comemora 60 anos de vida, 40 de carreira e 20 de seu Teatro Brincante, Antônio
Nóbrega coloca sua energia na criação de uma linguagem brasileira para a dança
Pouca gente imagina, mas antes de ser chamado, quatro
décadas atrás, por Ariano Suassuna para integrar o lendário Quinteto Armorial,
o músico, dançarino e ator Antônio Nóbrega não tinha interesse algum por
cultura popular. Na verdade era mais desconhecimento do que qualquer outra
coisa. “Meu pai me colocou para estudar violino ainda criança, aos 10 anos, e
três anos depois montei um grupo com minhas irmãs. Mas a gente tocava músicas
que ouvíamos na rádio e TV: Roberto Carlos, Beatles, a MPB dos festivais, canções
francesas e latinas. O folclore não fazia parte da minha história, sequer de
minha visibilidade”, explicou em entrevista na sua casa, em São Paulo. No
entanto foi sua formação erudita na Escola de Belas Artes de Recife que chamou
atenção de Suassuna.
Nóbrega, que já vivia na dicotomia clássico-popular, passou
a conhecer e se encantar por zabumbas, rabecas, caboclinhos, bumba-meu-boi e
quetais. “Curiosamente comecei a me entender e a me deixar seduzir também pelo
universo da dança, pelo frevo. Na época não tinha preocupação em compreender
esse me encantamento, simplesmente o vivia”. E lá se foi o pernambucano
mergulhando profundamente nesse novo mundo ao mesmo tempo em que ficava
conhecido Brasil afora nos shows e discos do Quinteto Armorial, entre eles Do Romance ao Galope Nordestino (1974) e
Aralume (1976). “Teve momentos dessa
jornada em que eu era quase um nacionalista inveterado... como assim nós
brasileiros não dançamos a nossa música, não cantamos e tocamos a nossa
música?! Eu devia ser muito chato nessa época [risos]. Só depois coloquei esse
brasileirismo na prateleira adequada”.
A mudança para São Paulo no início da década de 1980 com a
recém-esposa, dançarina e parceira Rosane Almeida ajudou nessa adequação entre
brasileirismos e universalismos (sem contar o nascimento dos filhos Gabriel e
Maria Eugênia). Mas foi somente uma década depois, com a fundação do Teatro
Brincante e a ótima recepção dos espetáculos-discos Na pancada do ganzá (1996) e Madeira
que cupim não rói (1997), que o projeto cultural de Nóbrega começou a andar
de espinha ereta.
Pouco a pouco, a dança foi ganhando mais destaque em seus
trabalhos posteriores e Nóbrega tem a explicação na ponta da língua: “A dança
de nossos palcos ainda é de extração tipicamente ocidental. Mas você não vê
alguma coisa que traga uma representação simbólica do Brasil. Quando traz é de
uma maneira muito frágil. Não é assim com a música de Villa-Lobos ou a
literatura de Guimarães Rosa, por exemplo. Além d’eu ter me sentido chamado
corporalmente pela dança também me senti compelido a fazer essa reflexão,
talvez até por conta dessa ausência”.
Por essas e outras que entre seus muitos projetos futuros o
que lhe é mais caro é a criação da Companhia de Dança Antônio Nóbrega, no qual
tem a missão de ampliar a formação brasileira e popular de dez bailarinos junto
com a criação de um espetáculo inédito previsto para meados de 2013. No
entanto, o incansável artista quer ainda esse ano estrear um show em homenagem
a Luiz Gonzaga e um longa inspirado no espetáculo Brincante (em sua quarta colaboração com o cineasta Walter
Carvalho), além de uma série de eventos em seu teatro-instituto na Vila
Madalena.
Com tudo isso na cabeça, o ágil Nóbrega chegou à conclusão
que “a arte não vai mudar a ordem das coisas, mas tem o papel de ajudar a ter
uma consciência um pouco mais completa para fazer a mudança”. E é dançando que
ele quer chegar lá.
p.s.: e olha aqui como o texto ficou na página da revista.
olhaí 13 minutos da gang do eletro no começo do segundo dia do sónar são paulo 2012. foi o melhor e mais animado dos três shows que já assisti do quarteto paraense (tudo bem, sou fã, portanto não muito confiável). de qualquer forma, endoida irmão!
e aqui duas fotos que tirei do show (foco sempre em keila gentil e sua grande presença de palco, mas um salve também para maderito, waldo squash e william).
virada cultural já é coisa do passado, mas o texto que escrevi no yahoo ("um centro vivo e no virote") é mais sobre o centro de são paulo em si do que sobre o evento, portanto... e como de qualquer forma esse ano não consegui ver absolutamente nada... e veio o intenso festival sónar são paulo e sua maratona de dois dias ("o primeiro dia" e "o segundo dia"). vida que segue.
UM CENTRO VIVO E NO VIROTE
Todas as grandes cidades brasileiras possuem, em maior ou
menor grau, um problema em comum. São mais que um, obviamente, mas ficarei aqui
com o pecado capital: o abandono de seu centro. Os culpados são muitos, desde o
poder público até a especulação imobiliária, passando pela miopia de uma
sociedade que não quer ser responsável pelos rumos urbanos.
Em poucas palavras, o centro de uma cidade não pode ser
deixado exclusivamente para o comércio. Tem que ter gente morando dia e noite,
sempre. Tem que ter vida e qualidade de vida, mais que qualquer outro bairro ou
região. Simplesmente porque o centro é o começo e a essência de uma cidade, sua
história, memória, presente e futuro.
Copiado de um evento francês, a Virada Cultural, que acontece desde
2005 em São Paulo, tem sido um jeito interessante, mesmo que tímido em meras
24h, de injetar vida no belo, louco e abandonado centro paulistano (o evento
também ganhou uma versão carioca e outra pelo interior de São Paulo). Talvez
tenha sido um dos poucos projetos realmente públicos da dobradinha PSDB/DEM
(ou, para os mais íntimos, Serra e Kassab) na gestão de São Paulo, pois esse
pessoal costuma segregar mais que democratizar (isso mesmo, hoje em dia quem
mais se diz democrata é quem menos quer democratizar). Falei sobre São Paulo e
cidades em outros dois textos aqui para o Yahoo, “São
Paulo, velha e louca” e “Arte que
desmancha no ar”).
Já fui a várias edições, inclusive na de 2007 no meio do
campo de batalha do não-show
do Racionais MCs na Praça da Sé (e só virou batalha por causa da PM que mais
uma vez fez “uso de força excessiva”). E em todas logo percebi que o mais
bacana não era a variada infinitude de (algumas muito boas) atrações gratuitas
e abertas, e sim ver aquela quantidade de gente indo a pé de um lugar para o
outro no centro, mapinhas em mãos, procurando diversão e ocupando o espaço. Gente
de tudo que é lugar, de tudo que é jeito, fazendo a cidade sua.
Claro que ainda falta muito, tanto pelo lado da Prefeitura
de São Paulo quanto pela população, para esse idílio acontecer. Enquanto os
números de frequentadores da Virada Cultural aumentam em termos de milhões, os
problemas com lixo, higiene pública e segurança só pioram. Falta olhar mais
para o lado, para os outros, porque só assim deixaremos de ser essas ilhas
tristes dentro de nossa próprias casas.
me enchi da ana de hollanda e sua patota fazendo bobagens (pra dizer o mínimo) lá no ministério da cultura. e não sei o que é pior: as bobagens ou a nulidade dessa gestão. enfim, mas acabei escrevendo "banditismo por necessidade", mais um texto sobre o caso, e espero que seja o último. não quero mais saber desse assunto. o texto mais recente, "um centro vivo e no virote", chegou lá com um dia de atraso e trata da virada cultural e da relação de seu público com o centro. algo assim.
BANDITISMO POR NECESSIDADE
E a batalha continua. No mês passado, em 22 de março para
ser mais preciso, escrevi aqui no Ultrapop
o texto “Estamos
perdidos?” que repercutia as primeiras denúncias de uma relação muito
esquisita, para dizer o mínimo, entre o Ministério da Cultura (gestão Ana de
Hollanda) e o famigerado ECAD (Escritório Central de Arrecadação e
Distribuição). Em nome de uma pretensa defesa dos direitos autorais de artistas
brasileiros contra a malévola internet, o MinC vem assinando embaixo de tudo o
que mestre manda (ECAD, gravadoras multinacionais, etc.) e quem for contrário é
bandido, pirata da perna-de-pau.
Curiosamente (ou não?), a grande imprensa que gosta de
denunciar malfeitos do governo federal mesmo quando são notícias plantadas com
segundas intenções (vide caso Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira) se fez
de cega, surda e muda nesse caso do MinC/ECAD. E olha que ontem foi o dia que
saiu o relatório
final da CPI do ECAD com direito a um pedido de indiciamento de 15 pessoas
muito próximas a atual gestão do MinC por apropriação indébita de valores,
fraude na realização de auditoria, formação de cartel e enriquecimento ilícito.
Como se não bastasse, o relatório também propõe uma grande reforma no sistema
de direito autoral brasileiro (atualmente, o
5º pior do mundo) e que a partir de agora a fiscalização seja feita mais
duramente pelo Ministério da Justiça.
Se isso vai dar em algum resultado concreto só o tempo dirá,
mas em casos assim é sempre bom ficar atento quais interesses estão em jogo.
Ontem, por exemplo, a Editora
Terceiro Nome divulgou no Facebook que todo o conteúdo do DVD que vem junto
com o recém lançado livro Iconografia do
Cangaço tinha vazado na internet. São preciosos 14 minutos de imagens de
Lampião, Maria Bonita e sua gente filmados em 1937 (algumas delas tinha sido
usadas no longa O Baile Perfumado, de
1997, mas quatro minutos desse material são inéditos). O pessoal da editora
ficou babando de raiva? Tentaram derrubar o vídeo no YouTube? Nada disso,
estavam felizes. Olha o vídeo abaixo (originalmente ele não tem áudio, então é
recomendável colocar um som para acompanhar essas imagens históricas).
Agora, me deixa escrever na lousa. O pirata da perna-de-pau
que subiu o vídeo não está ganhando dinheiro com isso. A editora não está
deixando de vender seu (belo, aliás) livro por causa disso. E todos podem sair
ganhando com o fato: o pirata por compartilhar (que é diferente de lucrar) e a
editora por ter seu produto divulgado gratuitamente na rede. E olha que o
mercado livreiro brasileiro, que também vem se mostrando descontente com o
descaso do MinC (olhem esse abaixo-assinado),
é um dos que mais sofrem em um país/sociedade que não estimula a leitura. Mas o
pessoal da Terceiro Nome adorou a pirataria (e nem mencionei Paulo Coelho, um
dos maiores vendedores de livros do mundo, que adora ver seus livros em
download). E aí?
Em recente reportagem
sobre ensino através de celulares e tablets que assinei na Revista Continuum,
do Itaú Cultural, o editor Martin Restrepo afirmou que “não é justo que em um
mundo em rede tenhamos que aprender com as metodologias de sempre”. Essa
declaração pode muito bem ser ampliada para o mundo da cultura, afinal não
somos consumidores passivos (nunca fomos na verdade, só nos faltavam os meios)
porque também produzimos conteúdo (bom ou ruim é outra história). O MinC, bem
como todas as secretarias de cultura municipais e estaduais, precisa entender
de uma vez por todas que é um disparate defender organizações particulares em
detrimento do bem comum em um mundo descentralizado e sem fronteiras. Quem é
mesmo o bandido?
e não é que roubaram a casa do laerte e levaram seu computador com boa parte de seu acervo?! daí que seus fãs começaram uma "corrente virtual" para tentar recuperar esse material. laerte agradeceu, mas aproveitou para dizer que "gostaria que as pessoas se ligassem mais em fatos como o que aconteceu na Praça da Sé no dia 2, em que a polícia investiu contra os sem-teto que estavam fazendo uma manifestação. Isso também é um assalto, é um roubo, é uma expropriação e essa gente não tem quem os defenda. São pessoas sem identidade, sem representação, infelizmente."