domingo, 15 de abril de 2012

esforçando o instagram #01

quando, pouco antes da semana santa, escrevi "mimados e sem filtro" já tinha feito uns testes do instagram no meu celular e me divertido um tantinho (baixei tão logo soube que o aplicativo estava liberado para androids). mas de lá pra cá, novas imagens foram surgindo e fui tomado por um certo carinho pela brincadeira. pra mim serviu também para voltar a ter a fotografia como prazer e a sentir aquele comichão por fotografar mais, de novo (como era antes de ter tentado ser profissional). as fotos estão lá no instagram e venho atualizando o bicho com alguma frequência, algumas também compartilho no facebook e no twitter, mas aí depende do estilo ou tema. no entanto, queria também deixar um registro aqui no esforçado com as minhas preferidas pessoais tiradas por mim mesmo. imagens que se sustentem por si só (na ordem que foram tiradas, com seus títulos originais).

"a mundinha não tá nem aí pra essa rixa entre iphoners e androids. a mundinha quer é rosetar"

"pobregram #01"

"sem título, são paulo"

"no ateliê de máximo soalheiro, belo horizonte"

"teto da igreja de são pedro dos clérigos, mariana, minas gerais"

"ouro preto, claro"

"minas gerais"

"caleidoscopicamente falando (em inhotim, no caso)"

"abstrato geométrico #47"

"os clichês estão aí para serem usados"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

yahoo #36

de uma hora pra outra, em algum lugar de 2011, comecei a ver instagram pra lá, instagram pra cá. era um aplicativo para iphones que dava um ar antigo, sujo, para fotos (algumas seriam totalmente ordinárias sem o filtro), ao mesmo que também funcionava como rede social. enfim, uma brincadeira legal. como não tenho nada da apple (questões ideológicas e tals) só fui mexer com o aplicativo quando recentemente chegou ao sistema android (smartphones). aí constatei que alguns membros do clubinho iphoner tinham ficado incomodados com essa popularização. essa foi a deixa para escrever na semana passada o texto "mimados e sem filtro" lá pro yahoo. o da semana é "arte é público", sobre o museu-parque inhotim e as pessoas se jogando nas cosmococas e penetráveis de hélio oiticica.


MIMADOS E SEM FILTRO

As redes sociais (a humanidade?) se alimentam de grandes e pequenas polêmicas diárias. Algumas reais, a maioria fictícia. Um tanto porque estão sempre acontecendo muitas coisas ao mesmo tempo e outro tanto porque vivemos numa corrida neurótica por assuntos, informações e opiniões sobre tudo. Só nos resta filtrar esse maremoto de muitas marolas do jeito que acharmos melhor.

A “polêmica” mais recente foi a chegada ontem do Instagram ao sistema operacional Android. Antes exclusivo para usuários de iPhone, o aplicativo é um jeito fácil e rápido de dar uma cara bacana, por meio de efeitos, a imagens comuns. Sabe aquela foto que você tirou nas últimas férias de uma prima enterrada na areia? Então, com o Instagram fica parecendo uma polaroide dos anos 1970.

Lançado em outubro de 2010, o aplicativo rapidamente se tornou cool, depois virou febre e agora, já com uma base de 30 milhões de usuários, tende a se tornar ainda mais popular. Daí que surgiu a palavra “popular” e o mundo (virtual) tremeu. “É a orkutização do Instagram!” foi a gritaria geral, principalmente no twitter. Bem, só de ler “orkutização” já sinto calafrios, mas felizmente esse termo já foi usado tantas vezes e de tantas formas (todas bestas) nos últimos anos que caiu no ridículo.
                                   
O curioso, nesse caso específico, é que muitas pessoas usaram esse termo especificamente para fazer alguma piada (já perceberam ou sempre perceberam o ridículo da coisa), mas a grande maioria foi mesmo para fazer troça ou simplesmente reclamar de quem a usava. Em alguns casos, a reação foi até desproporcional (e muito maior que) a ação como, por exemplo, em “Agora ‘guenta os macfags falando de ‘orkutização’ do instagram” (de @babalin).


Mais irônicas, consequentemente mais incisivas, foram frases como “Pessoa humana reclamando da orkutização do instagram, mal sabe que semana passada vi um iphone pré-pago” (de @srtabia) ou “Agora entendi pq estão falando da orkutização do Instagram. O povo se acha rico por ter iPhone, mas posso comprar em 25x nas Casas Bahia” (de @Karinalv).

E elas pegaram bem no nervo. A questão não passa por ser ou não ser um “macfags”. É mais uma briga de antigas percepções de classe, principalmente em um Brasil que, de uns poucos tempos pra cá, viu democratizações de certas posses e acessos. Resultado? Classes começam a se confundir, tudo se mistura com mais ânsia e velocidade, nada é o que parece.

Quem reclama disso bate em velhas teclas como nesses três exemplos: “Orkutização do Instagram não! Já tô vendo geral postando foto do sol na laje!! #MedoDoInstagramAndroid” (de @calterojr), “Tenho certeza q vou ver fotos de gente dentro de caixa dágua, ou seja, será a orkutização do instagram. vão matar o app” (de @amaralamaral) e “Liberaram o instagram pra android! Puuutz vai virar orkut! Fotos de biquinhos e V com mão! Perdemos um app legal! Droga!!” (de @babi_cocolichio). E daí? Como diria a colega Nina Lemos, “quantos anos essas pessoas têm para achar que um brinquedo vai perder a graça só porque mais gente vai poder brincar?”

É isso: brincar, verbo intransitivo. Ou então, como na “tuitada” de @Leuzito, “na moral, bem mais L0k0 um instagram com foto de favela/baile funk do que com parede ~tijolinho a vista/por do sol. viva a orkutização”.

p.s.: na esteira da “polêmica”, e como não poderia deixar de ser, apareceram alguns tumblrs para debochar da tal “orkutização do Instagram”. Tem o Orkutgram, o Hipsters Orkutizados e o Android no Instagram, por exemplo, além do precursor de todos, o sensacional Pobregr.am (um dos tumblrs citados na coluna “O país da internet moleque”).


p.s.: depois, o matias escreveu para o caderno link (estadão) o bonzão "a 'orkutização' do instagram e a natureza gregária da internet".

quarta-feira, 11 de abril de 2012

na manha praiana

natural do guarujá, caio bosco é um dos artistas preferidos da casa desde os tempos do saudoso duo radiola santa rosa. em 2009 lançou sua estreia solo, o excelente EP diamante, e duas músicas apareceram por aqui ("2H2O + NaSO4" e "eu não quero ser sua garota nunca mais"). agora, três anos depois, é a vez de surgir o primeiro disco cheio, caio bosco. grooves mais elaborados, um certo romantismo soul, esperta co-produção de bosco com alexandre basa e jim waters e, de resto, o mesmo caio bosco cheio de manhas e balanços.


e se você não ouviu diamante, não perca tempo. saca só.


atualização em junho de 2012: olhaí o clipe bacana de "mendigos de amor", o primeiro a sair de caio bosco.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

yahoo# 35

novela interessantíssima essa avenida brasil. bem dirigida, bom elenco e um texto cheio de camadas, dramas, humores e surpresas. mais uma bola dentro de joão emanuel carneiro. acabei escrevendo no yahoo sobre a vilã dessa novela, interpretada muito bem por adriana esteves, versus a vilã de fina estampa, de aguinaldo silva, que ficou à cargo de christiane torloni. o texto "o mal e as más" tratou da construção dessas personagens e o que isso podia revelar sobre seus autores. enquanto isso, a coluna mais recente foi a "mimados e sem filtro", sobre a chegada do aplicativo instagram, que ganhou fama com os usuários cool de iphones, aos celulares de "pobres".



O MAL E AS MÁS

É possível entender como funciona a cabeça de um autor de novelas pelas vilãs que cria. Mocinhas não interessam, são todas iguais mesmo. Também não importam muito os vilãos e mocinhos, afinal são as mulheres que fazem as tramas girarem (igual na vida, ora pois). Andei pensando nisso após assistir aos primeiros capítulos do novo folhetim global das 9, Avenida Brasil. O que Carminha (Adriana Esteves) pode dizer sobre seu criador João Emanuel Carneiro? E o que Tereza Cristina (Christiane Torloni), da recém-acabada Fina Estampa, pode revelar sobre Aguinaldo Silva? Fico apenas com esses exemplos mais recentes – tirando assim Gilberto Braga e Manoel Carlos da jogada – para que a prosa não se estenda por demais.

Tal como Flora (Patrícia Pillar), de A Favorita (2008), Carminha é um poço de sentimentos conflitantes. É capaz de amar uma pessoa aqui e outra ali, porém, e ao mesmo tempo, se sente mais à vontade ao explodir em violência física e/ou psicológica rumo aos seus objetivos de vilã (vingança, ascensão social, etc). Tem ainda um passado dolorido, um presente esquizofrênico (boazinha em público, má em todo resto) e um futuro incerto. Tudo temperado com um humor muito afiado. Cortante mesmo.

João Emanuel Carneiro sabe que o folhetim televisivo é uma arte popular muito sofisticada no Brasil e, exatamente por isso, não subestima o espectador. Tanto em A Favorita como no início dessa Avenida Brasil, os personagens são sombrios, o clima é tenso e até as mocinhas nem são tão mocinhas assim. Nada é de mão beijada, muito menos os clichês. E isso não é à toa, pois Carneiro foi um dos roteiristas de Central do Brasil (1998), longa protagonizado por Dora (Fernanda Montenegro), uma mulher dura, cruel e amorosa (de formas meio tortas).
Já Tereza Cristina foi uma versão ainda mais histriônica e cartunesca de sua progenitora direta, Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) de Senhora do Destino (2004). Não havia uma explicação para sua maldade, ela simplesmente existia assim. Também não era uma vilã do tipo adulta, maltratada pela vida, e mais parecia uma adolescente birrenta totalmente obcecada pela mocinha. Em uma novela (Fina Estampa) que mais se assemelhava com um cruzamento de Zorra Total com Malhação, no qual todos os personagens eram tremendamente imaturos e forçadamente cômicos, Tereza Cristina era o retrato estampado de seu autor.

Uma pena que o veterano Aguinaldo Silva, co-autor de clássicos noveleiros como Roque Santeiro (1985) e Vale Tudo (1988), tenha virado esse xerox borrado de si mesmo e justamente no terreno onde era especialista: a comédia. Quer dizer, suas novelas continuam fazendo sucesso com um público que gosta de bordões para soltar no dia seguinte na padaria, mas quem acompanha a história da teledramaturgia brasileira sabe que hoje em dia a verve de Aguinaldo Silva está toda nas “polêmicas” (virtuais) com jornalistas e outros autores. Tereza Cristina pode fugir para onde quiser, driblando assim a morte, prisão e/ou loucura destinada aos maus (ai, que revolucionário, Seu Aguinaldo), mas ninguém ligará mais. Inevitável esquecer uma vilã tão vazia e interpretada de modo cafajeste por Christiane Torloni (e a Renata Sorrah, a eterna Nazaré, desperdiçada ali de canto). Já Carminha, em composição cheia de nuances e agressividade a cargo de Adriana Esteves, veio para ficar e aterrorizar suas noites. E ela está só começando...

sábado, 31 de março de 2012

yahoo #34

depois que escrevi esse "estamos perdidos?" lá no ultrapop na semana passada, o affair entre o ministério da cultura (gestão ana de hollanda) e o famigerado e enigmático ecad, trazido à baila pelos colegas do farofafá, ganhou alguns novos capítulos. o cineasta cacá diegues saiu em defesa do jeitinho ana-ecad ("a cultura é a alma de um povo"), o colunista d'o globo ancelmo góis lançou notinha venenosa sobre o farofafá e o próprio site do ministério da cultura republicou, como se fosse um clipping, um artigo em sua defesa escrito no estadão por josé nêumanne. artigo, aliás, equivocado, elitista e míope de cabo a rabo (como costuma ser o pensamento de nêumanne, nenhuma novidade nisso). de resto, um revelador pacto de silêncio entre governo, oposição e grande imprensa mantém a ministra de amsterdã no cargo e, consequentemente, o atual estado das coisas.


já o texto dessa semana, "o mal e as más", teve um tema mais, digamos assim, ameno: a maldade de duas vilãs recentes de novelas e como elas podem explicar os seus autores (no caso, joão emanuel carneiro e aguinaldo silva).





ESTAMOS PERDIDOS?

O bicho tá pegando. O couro tá comendo. A estrovenga tá girando. Quem acompanha notícias relacionadas à cultura musical brasileira sabe que vivemos um momento curiosamente ambivalente. Tipo euforia e depressão. Bipolar, apontariam os estudos.  Na internet, ou através dela, vivemos num frenesi inesgotável de eventos, discussões, lançamentos gratuitos, transmissões e compartilhamentos, isto é, variedade e disponibilidade. Enquanto isso, no mundo real, a Ministra da Cultura Ana de Amsterdã afirma, em sabatina no Congresso, que “hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. (...) Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado”.

Não parecem ser o mesmo mundo, confere? Aí fiquei dando tratos a bola... mas que mundo é esse da Ministra de Hollanda, seus assessores e secretários, que considera compartilhamento o mesmo que pirataria? E que acredita, consequentemente, que a internet é O MAL disseminador dessa praga que pode matar a produção cultural brasileira? Peraí, que cultura brasileira é essa que pode ser feita em pedacinhos pelos www da vida?

Todas essas perguntas vinham sendo respondidas nas próprias ações do MinC desde seus primeiros passos no início do ano passado. Em poucas semanas, Ana, a ministra, deu um catiripapo nos progressistas oito anos da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e transformou a internet em inimiga da coisa toda. Começaram uns papinhos aqui e ali com as poderosas (e míopes) organizações norte-americanas de defesa dos direitos autorais e com o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), o enigmático & muito nosso órgão privado que não pode ser investigado, que nunca explica direito como arrecada e distribui e que, recentemente, meteu os pés pelas mãos ao tentar cobrar blogs que incorporassem vídeos do You Tube.


O tal artista que o Ministério diz estar defendendo não é o artista que compõe, grava e faz ao vivo e sim o “artista” que lucra com suas retransmissões, isto é, a iniciativa privada. E que hoje não passa de um pequeno grupo de carpideiras de discos de ouro passados, invariavelmente multinacionais. Não estou falando da boca pra fora. Recentemente, o colega aqui de Yahoo! Brasil, Pedro Alexandre Sanches, vem assinando no Farofafá, em parceria com Jotabê Medeiros e Eduardo Nunomura, uma série de reportagens sobre a estranha promiscuidade entre o MinC e o ECAD, com direito a favorecer de um (público) em prol do outro (privado) em um processo contra formação de cartel. Mas, infelizmente, nada disso deve ir muito longe, afinal ninguém liga para a cultura mesmo, não é mesmo Governo e Oposição?

Muito bem. Pouco antes, em fevereiro, durante um evento em Porto Alegre, o ex-ministro Gilberto Gil disse que “a internet chegou para bagunçar o coreto. E tem aqueles que acham que por ordem no coreto é reivindicar a restauração, a ordem tal como ela foi até agora. Para outros não, é preciso criar novas ordens, novas formas de regulação, novas formas de atendimento a questão dos direitos. (...) Essas são as novas disputas e que estão em todas as áreas, no econômico, no político, no cultural, etc.” Para Gil, como para muitos outros (e outras), não estamos nada perdidos. Vivemos é um novo estado das coisas em constante transformação. Nada é sólido e tudo tem que ser para todos, fato que deve causar arrepios nessa gestão vazia, isolada e equivocada do Ministério da Cultura.

Agora, para finalizar, que cultura (musical) brasileira é essa que está sendo ameaçada pela malvada internet? Com certeza não é a de artistas que se viralizaram pela rede, disponibilizando seus trabalhos para download gratuito, e que estão curtindo a dor e a delícia de serem donos de suas próprias carreiras, tais como Criolo, Emicida, Karina Buhr, Wado e Romulo Fróes. Já neste ano três outros artistas (Lucas Santtana, Letuce e Siba) também lançaram e distribuíram seus novos trabalhos no mesmo esquema. Para nenhum deles, a internet é vilã. Talvez esse MinC esteja defendendo a turma de padres-pastores(as) que cantam e que ultimamente tem sido a tábua de salvação (opa!) do mercado fonográfico. Mas como acredito (e não só eu) que santo de casa não faz milagre...

laerte da semana #35

laerte, portanto, é moldureiro

segunda-feira, 26 de março de 2012

os mulheres negras, ano 2012

eles estão de volta por ali, por aqui, em todo lugar (só você que não tá vendo?)... saca só essa instrumental novinha em folha com pitadinhas do "bolero" de ravel aqui, do "carinhoso" do pixinguinha acolá...





e mauricio pereira e andré abujamra, enquanto os mulheres negras, farão shows em curitiba (maio) e rio de janeiro (junho). e fica a torcida para, de repente, um disco novo.

tv on the radio goes africa

acho que não é coincidência que tunde adebimpe e kyp malone, voz e guitarra (e outras coisas) do ótimo tv on the radio andam passeando pela áfrica. em pouco menos de um ano estiveram com o tinariwen em duas faixas ("tenere taqhim tossam" e "walla illa") de tassili (anti records, 2011), mais um disco blues rock da pesada dos tuaregs que vivem no mali (ótimo making of aqui). ah, malone sozinho esteve em outras duas, "asuf d alwa" e "iswegh attay". depois participaram de "willy kataso", música do disco novo de amadou & mariam, folila (nonesuch records, 2012), que está para ser lançado em abril. o casal também é do mali.








não é coincidência porque eles obviamente entenderam que é preciso ser curioso para se permanecer novo e interessante (entre outras coisas). e que existem mais informações musicais em 30 segundos de sobras de estúdio de um tinariwen ou amadou & mariam que em qualquer cena indie rock do mundo ocidental. fugir do universo umbigo, tá ligado?

4 anos atrás...

... perdi meu avó paterno, seu zé júlio. foi na semana santa de 2008. coincidentemente estava em fortaleza para passar uns dias, acho que fazia tempo que não ia, mas quando cheguei não era dia de visita no hospital. ele já andava muito mal, inconsciente, o mal de parkinson correndo solto. daí que fui com pai, mãe, irmão, irmã, sobrinhos e cunhado para uma praia próxima (águas belas, município de cascavel). porém, no início da noite desse primeiro dia meu pai recebeu uma ligação do hospital: seu zé tinha morrido. choros, abraços, mil e uma ligações depois estávamos de volta à estrada... era o início de uma longa noite de vigília e eu, ferrado de sono e todo torto em um banco de madeira no velório, comecei a delirar... não tinha conseguido me despedir no hospital, falar qualquer coisa, sei lá... coincidentemente também estava lendo o livro das vidas - obituários do new york times e foi assim que decidi escrever um obituário, só que mais pessoal obviamente. dias depois voltei para são paulo e mandei o texto que segue abaixo para ser lido na missa de sétimo dia. foi mais ou menos o que queria ter dito pra esse cara tão bacana e tão importante pra mim. beijo grande vô, saudade da porra.


seu zé tá sentado no canto esquerdo com essa camisa style, já eu estou na parte de cima agarrado num caminhão, no colo de meu pai


PARA JOSÉ JÚLIO SAMPAIO

Já se passaram sete dias. Uma semana. Queria estar aí e abraçar todo mundo mais uma vez, falar qualquer bobagem. Lembrar do Zé Júlio, enfim. Pensei então em fazer uma homenagem usando as ferramentas do meu trabalho e me propus a escrever um obituário como aqueles de jornais: objetivo, data de nascimento, localidade, educação, empregos, objetivo, casamento, filhos, grandes e pequenos feitos, objetivo, ética, espiritualidade e assim por diante. Mas não saía palavra. Não conseguia ser objetivo. Não com Zé Júlio, meu avô. Figuraça de coração tão grande quanto ele próprio.

Sei que ele é de 9 de março de 1928, cearense da ponta da serra, município de Tamboril, mas registrado na cidade de Crateús. Primogênito entre os dez filhos de Maria Leitão e Júlio Mariano, Zé Júlio foi “sequestrado” aos 15 anos pela mãe para conseguir ter uma educação formal e fugir do trabalho na roça. Sei que teve essa primeira formação no seminário e que depois, aos 21, entrou nas Casas Pernambucanas com um diploma de Ciências Contábeis. Foi no trabalho que conheceu o amor na forma pequena de Dona Maria. Não demoraram muito para se casar. Nos tempos em que foi gerente das Pernambucanas de Coroatá, no Maranhão, mostrou seu lado empreendedor e fundou a companhia telefônica e o Rotary Club da cidade. Depois foi transferido para Floriano, no Piauí, e seguiu agitando das suas, trabalhando sempre. Sei de suas passagens por São Luís e Macapá. Sei que a aposentadoria o levou para Fortaleza e para a Feira do Livro. Sei de sua paixão pela maçonaria. Sei do filho e das filhas. Sei de tudo isso.

Vou falando e falando, mas lembro mesmo é da risada alta acompanhada de palmas ligeiramente atravessadas. Da presença carinhosa na poltrona reclinável. Do jogo de buraco na praia. Das enciclopédias e do latim. Do escritório de janelas grandes da Feira do Livro do Centro de Fortaleza. Da calculadora. Do refrigerante com pastel na lanchonete em frente à livraria. De perguntar por anos e entre risos se os netos já tinham pentelhos: já tem terra no pé de milho? Genial.

E, acima de tudo, tudo mesmo, ele e Dedé. Dona Maria de Dedé. Coisa mais linda ver os dois juntos pra cima e pra baixo. Ele alto e desajeitado. Ela miúda e precisa. Muito amor e bom humor em um casamento de 58 anos. Tanta lembrança boa.

São coisas assim que vou contar para meus filhos e filhas, sobrinhos e sobrinhas. E assim Zé Júlio se espalhará por aí. Nada objetivo. Ele que já começou a se espalhar ao colocar no mundo Jackson, Gracinha, Mileide e Ana Maria, e toda uma família linda e bagunçada, como as boas famílias são. Nós somos ele. Ele somos nós. E a vida continua.

p.s.: Ah, e agora Seu Zé está do lado do querido genro Flores, o negão beleza, e eles estão se divertindo muito. Certeza.

São Paulo, 26 de março de 2008


p.s. do p.s.: esse flores aí é carlos alberto flores, marido de minha tia paterna mileide (maria do socorro) e pai de marcelo e andré. outro cara importante na minha vida, figuraça de marca maior, gente boa como poucos e que se foi cedo demais em 1997 (coração, ah, coração). ele é o negão sorriso aí da foto abaixo bem no dia de seu casamento com mileidinha (1981?). seu zé júlio ali do lado, todo gabola. e depois me dei conta que as duas fotos desse post foram tiradas na mesma sala (paredes diferentes) da casa dos meus avós, no bairro do montese, em fortaleza.


quarta-feira, 21 de março de 2012

eres tu, o clipe

aqui pra casa, "mi vida eres tu" foi uma das melhores músicas de 2011. é vanguart no melhor estilo baladeiro, apaixonado, bolivariano. e a canção acabou de ganhar um clipaço muito bem filmado (o que já é praxe nos clipes nacionais) e com um roteiro ótimo (isso já é mais raro) sob a direção do especialista ricardo spencer (pitty, criolo & ilê aiyê, cachorro grande, cascadura, etc.). curte aí.


terça-feira, 20 de março de 2012

o gato, o rato e a ultraviolência

e não é que algum maluco abençoado com disposição e tempo livre compilou todas as aparições da dupla comichão & coçadinha n'os simpsons desde o final da década de 1980?! deu pouco mais de 48 minutos, mas é recomendável ser consumido em doses homeopáticas, afinal ultraviolência, mesmo animada, tem limite.





rever essa selvageria toda me fez lembrar do italiano massimo mattioli e seu squeak the mouse, uma mistura da boa e velha história de gato e rato com pitadas de humor nonsense, sexo explícito e violência à la sexta-feira 13. foi mais um daqueles achados da revista animal (foi capa da número 6).


o curioso é que numa busca por coisas relacionadas a squeak the mouse achei uma animação feita aqui no brasil, como trabalho de fim de curso. não é boa, mas é interessante (e tem uma citações bacanas a marcatti e mzk lá pelo final do curta).



SQUEAK THE MOUSE from MAZZA on Vimeo


pois é, assim caminha a humanidade desde os tempos de tom & jerry. ah, vi no trabalho sujo que viu no roteador.

domingo, 18 de março de 2012

a serviço secreto de sua majestade, o sabiá

domingo passado, 11 de março, foi um daqueles dias sui generis. o michel blanco, lá do yahoo, tinha me passado umas semanas antes a pauta de cobrir a visita do príncipe harry, da monarquia de sua majestade elizabeth II, a um haras no interior paulista. e rolaria um jogo de polo para arrecadar fundos para a caridade e um tanto de gente fina, elegante e nada sincera. fui com a missão de tirar algo crítico e bem humorado desse evento que teria uma cobertura bastante oficial e cheia de dedos. isso foi fácil. mas é que naquelas sete horas fui uma redação de um homem só: motorista, repórter e fotógrafo. sim, me pediram para também tirar fotos e lá fui eu reativar um lado adormecido. dizer procês que às vezes foi difícil conciliar jornalismo e fotografia, afinal quando estou fotografando (e tinha esquecido disso) fico um pouco surdo. nada bom para um jornalista. mas deu tudo certo para ambas as partes e junto com o texto, aqui com as duas partes na íntegra e algumas revisões, seguem algumas das muitas fotos que tirei

o título dessa postagem foi o primeiro que pensei para esse trabalho. achei "genial" o mashup de 007 e jair rodrigues, mas depois caí na real, vi que estava um tantinho hermético e o deixei de lado pra poder resgatá-lo aqui no esforçado. já o título que saiu no yahoo é uma brincadeira com uma reportagem clássica de gay talese, "frank sinatra está resfriado" (1965), no qual o jornalista americano traçou um perfil do cantor sem conseguir entrevistá-lo. 


PRÍNCIPE HARRY NÃO ESTÁ RESFRIADO


Última checagem antes de partir. Mochila com máquina fotográfica, celular carregado, bloco de notas, caneta funcionando, cigarros, tudo ok. Pegar a Rodovia dos Bandeirantes até a saída para Monte Mor (SP), coisa de uns 114 km, dois pedágios. Mais uns 7 km até o Haras Larissa, sendo que os últimos 3 km em estrada de terra. “A entrada deverá ser feita pela portaria de serviço do Haras”, diz o comunicado à imprensa.

Chegando lá, por volta das 10 da manhã, a entrada de serviço se mostra um funil para, de um lado, a fila de carros e vans da imprensa e, do outro, os caminhões com os cavalos para o jogo de polo que terá o Príncipe Harry, filho caçula de Charles e Diana, como grande estrela. Seria uma ótima metáfora ter jornalistas e cavalos lutando por espaço nesse evento para poucos até uma das organizadoras falar com um segurança: “Segura aqui, por favor, que os cavalos precisam entrar antes”. Fica claro de quem é a preferência.

helicóptero é gado no haras larissa

Aumentando a confusão, um carro havia atolado numa vala, travando um dos sentidos da estrada de terra e nele três moças, fãs do Príncipe Harry, tentavam entrar sem credencial. “Você não tá entendendo! Quase bati a cabeça no vidro do carro. A gente precisa entrar!”, diz uma delas aos risos. Mas não adianta rir, muito menos chorar, pois os cavalos entraram e elas não têm a mínima chance (nem após tirarem o carro atoleiro). É que esse último dia de compromissos de Harry no Brasil não terá contato popular de nenhum tipo, muito diferente do furdunço festivo que aconteceu no Rio de Janeiro. Aqui, no Haras Larissa, tudo é exclusivo, para poucos, diferenciado. A nobreza agradece.

Enquanto um intenso vaivém de helicópteros ocorre ao lado do campo de pólo, os cerca de duzentos jornalistas credenciados vão tomando seus postos em uma área carinhosamente chamada pelos profissionais de “chiqueirinho”, tudo ao som de músicas do Queen ou versões jazzificadas de hits ingleses como “Can’t Buy Me Love”, dos Beatles. Deve ser para entrar no clima, mas o clima, na verdade, é de mormaço brabo, sendo que a única sombra possível é afastada dos acontecimentos e a água mais próxima (bem como refrigerantes e lanchinhos) fica ainda mais distante. “Nesses eventos o melhor é ser motorista”, suspira uma jornalista de salto alto no misto de grama e areia que cobre a área de imprensa.

câmera ao longe registrando a chegada dos helicópteros

Bem, hora de receber o cronograma dos acontecimentos futuros. Aproximadamente quinhentos convidados começarão a chegar a qualquer minuto e em uma hora e meia o Sr. Álvaro Coelho da Fonseca trará o Príncipe numa carruagem. Depois tem hino, apresentação dos jogadores e às 13h10 está previsto o início da partida entre as equipes de Sentebale e St. Regis, o que deve durar pouco mais de uma hora. Após a premiação da terceira edição do Sentebale Royal Salute Polo Cup, os jornalistas estão convidados a dar no pé, afinal o almoço de US$ 1000,00/convite não é para os seus bicos. O montante arrecadado não é divulgado pela comitiva do Príncipe, mas o dinheiro será doado para a Sentebale, organização criada por Harry para ajudar crianças carentes em Lesoto, pequeno país incrustrado dentro da África do Sul.

Esse será o lado beneficente da viagem de Harry pelo Brasil, pois na parada no Rio de Janeiro o objetivo era divulgar uma tal Campanha GREAT, “um convite para descobrir e compartilhar tudo o que torna o Reino Unido um país ainda mais grandioso em 2012, visto que o país celebra o Jubileu de Diamante da Rainha e é sede de um dos maiores eventos esportivos do mundo, as Olimpíadas”. Em outras palavras, mostrar para o Brasil uma série de possíveis investimentos e investidores ingleses, tal como a British Petroleum, responsável em 2010, no Golfo do México, por um dos maiores acidentes ecológicos da história, e que agora está de olho na exploração do pré-sal brasileiro. O cantor Morrissey, inglês como Sua Majestade, disse na semana passada, durante show no Rio de Janeiro, que Harry “veio pegar o dinheiro de vocês. Por favor, não o deem para ele”. É, não tem mais bobo na realeza.

vista parcial do querido chiqueirinho

O mormaço vai assando lentamente esse tanto de informações. Nada de cadeiras no chiqueirinho e nada de parar. Os primeiros convidados começam a chegar e passam lenta e orgulhosamente diante de um painel com os patrocinadores do evento. “Quem é essa aí?”, pergunta um fotógrafo. “Provavelmente ninguém”, responde outro. “Bem que podia ter uma plaquinha eletrônica pra identificar essas pessoas, heim?”, sugere, sonhadoramente, uma jornalista. Alguns casais passam mais rápido, ele de gel escorrendo na nuca, ela ansiosa para ser parada pelas câmeras, mas o desfile não pode parar rumo à área VIP e sua dança de bandejas com champanhe e whisky, vestidos esvoaçantes e um mar de chapéus panamá cedidos por um dos patrocinadores.

“As pessoas são o que são pelos seus acessórios”, comenta uma jornalista de revista de celebridades. Afirmação um tanto enigmática levando-se em conta que a mulher usa um crucifixo prateado gigante pendurado no pescoço combinando com uma bota de crocodilo. Mas a frase fica mesmo solta no ar, pois um frenesi toma conta dos fotógrafos com a chegada de outra estrela do evento, o playboy e jogador de polo profissional Rico Mansur. “Já joguei contra o Príncipe Harry em outra ocasião, em Nova York, e ganhei. Hoje não vai ter moleza não”, e estufa o peito e sorri magnânimo. No comunicado entregue à imprensa, o polo é descrito como o “esporte dos reis”. Rico Mansur acredita nisso. Faça chuva, faça sol, e mesmo sob esse mormaço.

rico mansur é recebido com confetes e serpentinas virtuais

De vez em quando, alguém importante é trazido para junto do cordão branco que cerca o chiqueirinho. Um gerente de marketing aqui, um CEO acolá, até que surge John Doddrell, o Cônsul Geral Britânico em São Paulo. “O dia de hoje é um momento muito importante para nós”, começa a explicar, em inglês mesmo, até que alguém gritou ao longe: “Olha a carruagem, o Príncipe tá chegando!”. Foi o que bastou para uma desabalada carreira de câmeras e blocos, enquanto o cônsul seguiu falando palavras de release para as três repórteres que permaneceram ao seu lado. Mas não, não era o Príncipe Harry. Ele só viria quatro carruagens depois.

gloria maria e fernanda motta, prontas para as câmeras

Ih, o príncipe chegou, jogou e partiu

Antes. Alguns minutos antes chegaram, em outra carruagem, a jornalista Glória Maria e a modelo Fernanda Motta, ambas também apresentadoras de TV. Tiraram de letra a difícil descida com salto, posaram cheias de dentes e abriram caminho para a atração principal. Então veio Príncipe Harry levando a sua carruagem ao lado de Álvaro Coelho da Fonseca. Nada de parar antes para fotos, nada de falar coisa alguma, nada disso. “Não podia ser mais devagar?”, lamentou uma fotógrafa. E lá se foi o nobre inglês para perto dos seus.

A essa altura do campeonato, a área VIP tinha gente saindo pelo ladrão, mas poucas pessoas eram cobiçadas para entrevistas. Uma delas certamente era a estilista Daniella Helayel, brasileira radicada há duas décadas na Inglaterra e uma das preferidas de Kate Middleton, cunhada de Harry. Depois de alguns gritinhos de duas repórteres, Daniella se aproxima da área de imprensa e, mais uma vez, recebe na lata alguma pergunta sobre como é vestir a nobreza ou algo próximo. Instantaneamente fecha a cara, dispara que não comenta sobre nada disso, vira as costas e dá no pé (devagar, afinal estamos falando de salto e grama). Tudo acontece tão rápido que as repórteres não tiveram tempo de reformular a pergunta, algo sobre a crise na Grécia ou a nomeação de um bispo como Ministro da Pesca. Ficaram lá, bocas e blocos abertos. “Um oferecimento Royal Salute, o whisky de luxo número 1 do mundo”, diz o comentarista do jogo que já vai começar logo após o hino.

olha a daniella helayel aí (a mais baixa) 

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas um jogo de quatro tempos de quinze minutos, quatro jogadores-cavalos pra cada lado, uma bolinha, um juiz-cavalo e um campo grande. “Que jogo disputado!”, diz o comentarista no melhor estilo Galvão Bueno de inflacionar expectativas. Mas não dá pra perceber nada disso. Corre para um lado, corre para outro, trombadas equinas ocasionais, faltas por terem passado a tal linha imaginária (seria um impedimento?) e de repente saem dois gols para o Sentebale, o time do Príncipe. “Vai, Corinthians”, grita um fotógrafo.

E então, momento tenso. O paquistanês Bash Kazi, do St. Regis, literalmente cai do cavalo e se estatela na grama. O príncipe, muito gente, é um dos primeiros a ir a seu socorro, enquanto o comentarista embarga a voz de preocupação e solta um “se tiver uma ambulância...”. Claro que tinha, estava ao lado do campo o tempo todo. Todo o processo de atendimento, com direito a substituição do paquistanês (entrou um Klabin em seu lugar), matou o segundo dos quatro tempos, mas quando o jogo recomeçou o St. Regis rapidamente conseguiu empatar. Teve até um “golaço”, dizem. No mais, Bash Kazi passa bem, obrigado.

existe algo de errado com o taco do príncipe?

Metade do jogo se foi e o placar está empatado em 2 a 2. Então a bola rola novamente e o comentarista decide então ser imparcial: “Infelizmente faltou um pouco de pontaria nessa jogada”. Pouco depois, ainda mais crítico, diz que tem “algo de errado com o taco do príncipe, está um pouco sem direção”. Olhares de consternação cruzam a área de imprensa. E agora?

E agora que o sol decide mostrar sua cara mais altiva e dissipa um pouco do mormaço com calor de verdade. Não consigo mais acompanhar o jogo na beira do campo e recuo até a sombra mais próxima onde, claro, não é possível ouvir a narração e nem saber o que está acontecendo no certame (quer dizer, só quando algum debochado fala “uhhhhhhh” no caso de uma bola que sai pela linha de fundo). E então, do nada, o placar de 2 a 2 se transforma em 3 a 2, 3 a 3 e, tcharam, 6 a 3, para o time do Príncipe Harry, que não fez um gol sequer, mas mostrou “disposição”, palavras do narrador.

colegas jornalistas de olho no "jogaço"

Rapidamente, um pódio é montado no gramado e uma grande área de exclusão é aberta e cercada por seguranças para impedir qualquer fã VIP ou jornalista enxerido de se aproximar de Sua Nobreza. Então, os prêmios são distribuídos por Fernanda Motta, a taça da Sentebale Royal Salute Polo Cup é levantada e o Príncipe Harry exibe orgulhoso um par de bochechas rosadas de calor.

os de camiseta azul clara são da equipe do príncipe e falando com ele o paquistanês que caiu do cavalo no início do jogo

Acabou e Harry segue direto, sem falar com ninguém, ao carro que o levará a trocar de roupa e se preparar para o almoço. No cardápio, picadinho na ponta da faca, pastel, couve, ravioli, brownie com sorvete de creme, tudo pré-aprovado pelo Palácio de Buckingham. Sinceramente, achei meio simples por 1000 dólares/cabeça, mas a nobreza pode achar exótico, vai saber. De qualquer forma, nada mais importa, pois é hora de ser tangido. Resolvo sair antes para evitar novo engarrafamento na estrada de terra e ao ligar o carro, pegando fogo ali parado, vejo que o tanque está na reserva e o posto mais próximo fica a 7 km na cidade de Sumaré (SP). Essa sim uma situação muito real.

sexta-feira, 16 de março de 2012

gainsbourg imperial

em setembro de 2009 rolou aqui um são paulo um daqueles shows históricos, "gainsbourg imperial". foi um encontro do repertório de serge gainsbourg (1928-1991) com a carioquíssima orquestra imperial, caetano veloso, jane birkin (atriz e viúva do grande compositor francês) e o maestro jean-claude vannier (também parceiro de serge). no final de dezembro do mesmo ano foi exibido um programa na tv sesc com os bastidores do show, muitas entrevistas e várias músicas. nunca tinha visto e já está na rede faz um tempão. olha só que beleza.



Orquestra Imperial, Caetano Veloso e jane Birkin cantam Serge Gainsbourg from Andrea Cassola on Vimeo

quinta-feira, 15 de março de 2012

injustiçados, ignorados & esquecidos

paulo beto é músico de muitos sujeitos, predicados e talentos. também é conhecido pela alcunha anvil fx. mas ultimamente ele vem surpreendendo a todos com algumas coletâneas virtuais com pérolas do lado Z da música popular brasileira. no início de janeiro de 2010 ele soltou a primeira (amargurado, triste e sozinho - uma amostragem nua e crua da psicoperiferia) e de lá acabei pinçando "passat", de geraldão da colina, para uma edição da série letra/música. agora, ele e os amigos dj gorky (bonde do rolê) e mestre yupo prepararam mais duas coletâneas cheias de grandes e pequenos achados dos anos 1970 e 80, todos profundamente brasileiros e com download liberado. saca só. 


eu acho isso uma bossa - injustiçados, ignorados & esquecidos vol. 1

01 - mineirinho / “que bobo eu fui”
02 - guto / “palhacinho”
03 - nenê / “eu acho isso uma bossa”
04 - sirley gonçalves / “meio lelé”
05 - cristiano / “você chegou”
06 - elbis alen / “só amo você”
07 - beth maia / “venha viver”
08 - beto douglas / “mascarado do amor”
09 - pablo / “alegria na milonga”
10 - augusto soares / “telefonema a cobrar”
11 - zacarias costa / “an affair to remember”
12 - sergio luiz / “posso morrer de saudade”
13 - geraldo nery / “motorista de taxi”
14 - tony cruz / “casal na praça”
15 - yonara / “estou amando”
16 - dom & ravel / “o que é que você está fazendo aí, meu bem?”
17 - jonas de andrade / “velha solteirona”
18 - tony damito / “zé”
19 - jorge veiga / “deixa comigo”
20 - israel / “ditado do povo”
21 - canário & passarinho / “baixinha e gordinho”
22 - adriano santos / “por incrível que pareça”
23 - pádua / “brastoque”
24 - vic barone / “ela é linda”
25 - almir rogério / “o errante”
26 - roberto barbosa / “quero ser seu namorado”


é uma praga irmão! injustiçados, ignorados e esquecidos vol. 2

01 - geraldão da colina / “celina”
02 - jonas de andrade / “rock baiano”
03 - spray / “tic tic nervoso”
04 - red wagner / “vamos cantar essa canção”
05 – gilberto lima / “você é demaissssssss”
06 - super heróis / “somos todos super amigos”
07 - sui generis / “a praça”
08 - tarantulas / “melô do aplauso”
09 - kaito / “cara feia”
10 - black juniors / “preciso tu amor”
11 - georgie dann, o rei da lambada / “homem com h”
12 - spray / “machucado”
13 - ponto & virgula / “bole bole”
14 - fernando marcel / “juro que te quebro a cara”
15 - lins santos / “garotinha”
16 - rick & kelly / “é o pica-pau”
17 - oswaldo cruz / “você não brinca mais”
18 - alair & alaércio / “cadê o homem”
19 - zé do campo / “carro velho”
20 - osvaldo amorim / “sem aviso”
21 - tony cruz, o menudo do nordeste / “quero você”
22 - edvino / “loto loto loteria”
23 - o cantor prisioneiro / “o crime não compensa”
24 - cada vez mais perto do sucesso / “eu sou errado”
25 - clóvis xavier / “desejo”
26 - guto & moacyr franco / “papi”

yahoo #32

muitas coisas ao mesmo tempo, só digo isso. domingo passado, por exemplo, fui acompanhar (de longe, queimando no mormaço) o príncipe harry numa partida de polo em um haras de bacanas no interior de são paulo. desse evento saíram um tanto de fotos e dois textos ("que horas o príncipe chega, heim?" e "ih, o príncipe chegou, jogou e partiu"), tudo pro yahoo. ah, um desses textos acabou se tornando a coluna dessa semana, mas colocarei os dois juntos quando publicá-los (logo logo) aqui no esforçado. mas voltando um pouco no tempo segue aqui "pancadaria made in brazil", que tratou das possibilidades de um cinema de ação brasileiro a partir da chegada de luta de rua. agradecimentos a bruno soraggi, autor da matéria que me chamou atenção sobre a websérie e que também me passou o contato do ulysses paiva, produtor e roteirista de luta, e ao ulysses, claro. 

kung fu contra as bonecas, podiscrê

PANCADARIA MADE IN BRAZIL

Filme de gênero sempre foi coisa rara no Brasil, talvez por uma mistura de desinteresse, poucos espaços e uma falta de visão mais segmentada do mercado, além do fato óbvio que não temos uma indústria que produza em quantidade para os mais diversos gêneros e mercados. Aí dependíamos de iniciativas solitárias de malucos como José Mojica Marins e seu terror tropicalista protagonizado por Zé do Caixão e Afonso Brazza, o Rambo do Cerrado, e seus vídeos de ação. Mais recentemente, com a rápida disseminação das câmeras digitais e a internet como importante meio de exibição, a produção barateou e mais gente pode colocar a câmera e as ideias para rodar.

Não por coincidência quem mais se beneficiou desse novo estado das coisas foram os filmes de terror e seus fãs, sempre organizados, atuantes e colaborativos. Surgiram assim os perturbantes curtas de Dennison Ramalho (Amor Só de Mãe e Ninjas), os zumbis e monstros capixabas de Rodrigo Aragão (Mangue Negro e A Noite do Chupacabras) e os mortos-vivos paulistanos de Raphael Borghi (do vindouro curta Desalmados – O Vírus). E nessas ficava me perguntando sobre uma das minhas preferências cinematográficas... e os filmes de ação? Onde estão os filmes de ação?

No decorrer dos anos 2000 alguns filmes brasileiros de sucesso (Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2) mostraram que já temos expertise para poderosas sequências de ação. Houve também uma interessante, mas comercialmente fracassada, tentativa de inserir a capoeira no imaginário do gênero (Besouro). Porém, só no início desse ano foi lançado 2 Coelhos, o mais ousado e bem produzido longa brasileiro de ação até então. Mas não tem jeito, aprendizado é isso, acúmulo de experiências e feitos. Fiquei então animadão quando li uma reportagem no site da Vice (“Bater e correr em Recife”) sobre a websérie Luta de Rua.


Muito bem coreografado pelos dublês e atores de ação da Pinóia Filmes, com boa filmagem e edição, Luta de Rua tem chances de crescer nos próximos episódios (já existe o trailer do segundo) mostrando, na raça mesmo, que já temos algumas cartas boas nas mãos. E não adianta criticar os “atores”, o “texto” ou o “roteiro” porque o negócio aqui é fazer ação do melhor jeito possível e à moda da casa ("É o que temos!", diria Paulo de Oliveira, do programa Larica Total). No mais, o responsável por toda essa pancadaria-coisa-nossa é o roteirista e produtor Ulysses Paiva, um carioca radicado em Recife, formado em Publicidade e com experiências efeitos visuais e animações 2D e 3D.

“Percebo que, ou importamos muita coisa de fora na tentativa de ‘copiar’ alguns elementos que deram certo, descaracterizando completamente a produção como sendo brasileira, passando a parecer uma cópia mal feita de algum filme estrangeiro de sucesso; ou simplesmente priorizamos demais algo tipicamente brasileiro e acabamos esquecendo que nem tudo da nossa cultura é interessante o suficiente ou entretenimento suficiente para que o público possa apreciar plenamente. Eu acho que temos, sim, como fazer algo dentro da nossa realidade e do nosso cotidiano sem perder o foco na qualidade e entretenimento de todos que assistam a produções brasileiras, inclusive no gênero de ação”, disse em entrevista ao Yahoo! Brasil.

Falta dinheiro, claro, e Paiva esclarece que “no gênero de ação você precisa, inevitavelmente, de grandes auxílios visuais como cenas de luta ou perseguição em ambientes controlados, grande aparato de segurança, uma boa equipe de efeitos especiais e visuais, entre outros. E isso demanda pessoas especializadas e muito talentosas para se chegar a um bom resultado, além dos custos serem maiores por conta disso. O Brasil nunca teve grandes escolas ou centros de ensino para efeitos visuais. Isso também tem mudado nos últimos anos”.

Um dia a gente aprende e enquanto isso não acontece, ou acontece parcialmente, a gente vai tentando, arriscando, experimentando, dando com a cara no muro. Indo à luta.


e aqui seguem outros trechos da conversa que tive por email com ulysses paiva e que não entraram nessa edição da coluna.

"O Brasil não tem uma história de décadas produzindo grandes filmes com orçamentos altíssimos e desenvolvimento de novas tecnologias e técnicas nessa área. Um dos principais motivos, acredito, seja a falta de patrocínio e incentivo para as produções como ocorre em outros países. Mas isso tem mudado nos últimos anos com a melhora do cenário econômico brasileiro. O Brasil tem produzido muitos filmes recentemente e o brasileiro tem, cada vez mais, prestigiado as produções nacionais." 

"Se, por exemplo, você vai fazer um filme de drama, você geralmente não precisa de grandes artifícios visuais. Você precisa de uma boa história, um bom roteiro com bons diálogos e excelentes interpretações. Já no gênero de ação, você precisa, inevitavelmente, de grandes auxílios visuais como cenas de luta ou perseguição em ambientes controlados, grande aparato de segurança, uma boa equipe de efeitos especiais e visuais, entre outros. E isso demanda pessoas especializadas e muito talentosas para se chegar a um bom resultado, além dos custos serem maiores por conta disso. O Brasil nunca teve grandes escolas ou centros de ensino para efeitos visuais. Isso também tem mudado nos últimos anos, mas o conhecimento nesse aspecto ainda é pouco difundido por aqui e são poucos profissionais realmente talentosos e capacitados para fazer esses trabalhos. Isso é refletido no mercado e nas produções. Filmes como 2 Coelhos, Tropa de Elite e Besouro são importantíssimos para abrir caminho e formar uma base para produções cada vez melhores nessa área."

"Trabalho com publicidade e sempre gostei muito de cinema. Comecei na minha área com design gráfico, depois passei muitos anos estudando animação 2D e efeitos visuais. Em seguida estudei animação 3D e daí passei para filmagens. Luta de Rua nasceu do gosto e da vontade de produzir cinema de ação. Nós produzimos um primeiro vídeo, há pouco mais de um ano, para vermos o que poderíamos fazer nesse sentido. Era um vídeo de teste e ainda não existia a ideia de se fazer um seriado. Alguns meses depois é que pensamos em fazer um seriado de luta independente e usar a internet como fonte de divulgação. Na etapa de pré-produção do primeiro episódio, nós não tínhamos a menor idéia se o projeto iria ou não dar certo, por isso o primeiro episódio se resume a, basicamente, uma cena de luta. Já o segundo episódio está bem mais elaborado com diálogos, cenas de luta e perseguição com parkour. Mas a idéia inicial era que, dando certo, nós faríamos o possível para que a gente pudesse continuar a fazer o que gostamos, ou seja, conseguir patrocínio para o projeto seguir em frente. A repercussão do primeiro episódio foi bem maior do que a gente esperava e o potencial publicitário do seriado tem se tornado melhor a cada dia. Atualmente, estamos em negociação com alguns prováveis patrocinadores já para o segundo episódio, que ainda não tem data definida para a estréia devido ao grande número de problemas de temos enfrentado para fazer as gravações. Tivemos até que substituir parte do elenco por conta disso, mas a expectativa é de estréia nas próximas semanas. Nós colocamos informações, fotos, vídeos e novidades na página do seriado no facebook e é lá que vamos divulgar, com antecedência, a estréia do novo episódio. E esperamos que o público do Luta de Rua possa cada vez mais se interessar, se envolver, gostar do projeto e ajudar a compartilhar e divulgar para que o projeto siga em frente."


atualização em 30 de março: e saiu o episódio 2 de luta de rua. chama-se "salitre". saca só.