sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

12 músicas e um segredo

o rodrigo salem fez o convite na semana passada com uma ideia simples e ótima: uma mixtape, ou coletânea, com 12 das melhores canções de 2010 (nacional e internacional) e uma faixa-bônus-segredo. como estava preparando uma lista para a rolling stone brasil as músicas já estavam meio que certas e entreguei rápido, mas só quando o salem subiu o projeto na segunda fui ver quem mais tinha sido chamado. gentes finas como @carolnogueira, @stefaniegaspar, @babee, @diegomaia, @pablomiyazawa e @flaviadurante, tudo boa companhia.

de resto, o ano foi muito bom, como todos os últimos, e muita coisa legal ficou de fora da minha 12 músicas e um segredo, mas nos próximos dias postarei listas mais inclusivas de discos e canções nacionais e internacionais. por enquanto, escuta só...

01. “oxe, como era doce”, baiana system
02. “felicidade”, marcelo jeneci [part. laura lavieri]
03. “voices”, blundetto [part. hindi zahra]
04. “tudo cabe num beijo”, seu jorge & almaz
05. “fm tan sexy”, el guincho
06. “ziriguidum”, lurdez da luz [part. rodrigo brandão]
07. “tightrope”, janelle monáe [part. big boi]
08. “brocal dourado”, tulipa ruiz
09. “miss fortune”, aloe blacc
10. “todo esse tempo”, bnegão
11. “ek shaneesh”, das racist
12. “monster”, kanye west [part. jay-z, rick ross e nicki minaj]
13. o segredo

download AQUI.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

minicéu



"cangote" é do disco vagarosa (urban jungle/universal, 2009), a direção do clipe é de vera egito e céu é céu mesmo.

o filho do homem está entre nós

que homem? fela kuti. que filho? femi kuti, o mais velho rebento do mestre nigeriano criador do afrobeat. pois então, femi fará dois shows no sesc santo andré neste final de semana, dentro do evento batuque - conexão áfrica-brasil, e é uma bela oportunidade de conhecer o balanço político do cantor, compositor e multiinstrumentista que vem honrando o legado do pai. a base do show vem direto de seu disco mais recente, o ótimo africa to africa (wrasse records, 2010), e dá para sentir a força do sujeito (e de sua banda) nestes dois videos recentes feitos por vincent moon, o cara do la blogotheque. o primeiro, mais lento, quase religioso, é da música "day by day", do disco day by day (wrasse records, 2008).

Femi Kuti | Day by Day | A Take Away Show #115 from La Blogotheque on Vimeo

e o segundo, totalmente enérgico, é de "africa to africa". os dois foram filmados em paris, agora em outubro.

Femi Kuti | Africa for Africa |A Take Away Show #115 from La Blogotheque on Vimeo

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

cuba + mali = afrocubismo

esses encontros de grandes tradições musicais acabam comigo. afrocubism (world circuit records, 2010) é bem isso, a união de cuba e mali, músicos de um lado e do outro, canções também, numa história que deveria ter acontecido muito tempo atrás. o produtor nick gold queria unir músicos veteranos de cuba com outros da áfrica, mais precisamente mali (terra do casal amadou & mariam), mas na última hora o pessoal não conseguia visto de entrada e como os cubanos já estavam ali... nasceu buena vista social club (elektra, 1997). o sucesso da empreitada foi tão grande que a ideia original foi sendo empurrada rumo a um futuro incerto por agendas e mortes até que em 2008 as gravações começaram, com a presença de músicos como eliades ochoa (o único remanescente do projeto buena vista), toumani diabaté, bassekou kouyaté, kasse mady diabaté, lassana diabaté e o grupo patria. no video abaixo, um pouco dos bastidores.



afrocubism é disco simples, bonito e surpreendente na sua mistura harmoniosa de sonoridades, línguas e instrumentos. dá para sentir tudo isso no video abaixo, um registro do primeiro dia de gravações, em dezembro de 2008, na cidade de madrid, espanha. sempre fico impressionado com a rapidez com que músicos se entendem e se divertem. a música é "al vaivén de mi carreta" (nico saquito).

laerte da semana #21

ah, laerte...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

duke ellington, shawn lee e os clássicos

bem, duke ellington é deus por aqui e shawn lee é frequentador assíduo, mas nunca imaginei que fosse reuní-los em um post. a deixa foi o lançamento de hooked up classics (ubiquity, 2010), disco no qual o multiinstrumentista americano pega temas bem conhecidos de figuras como tchaikovsky, satie, wagner, ravel, strauss, grieg e prokofiev, e os joga em levadas dub, funky, surf music e por aí. disco divertidíssimo em um ano particularmente frutífero para shawn lee, que lançou outros dois - into the wind, em parceria com uma instrumentista chinesa (bei bei), e o soul pop sing a song -, além de ter participado em várias faixas de bad bad things, do francês blundetto. mas o hooked up do shawn lee me lembrou um disco delicioso de duke ellington, three suites (columbia, 1960), um dos poucos trabalhos em que o mestre trabalhou em cima de composições de outrem (no caso, tchaikovsky e grieg).

separei duas músicas que unem estes dois trabalhos. começando então com "dance of the sugar plum fairy", um dos temas mais conhecidos da suíte quebra-nozes (1892), de piotr tchaikovsky (1840-1893).
primeiro, duke ellington, que até mudou o nome da música ("sugar rum cherry"), e depois shawn lee.





igualmente clássica, "in the hall of the mountain king" é uma das partes da suíte peer gynt
(1876), que edvard grieg (1843-1907) compôs para a peça homônima de henrik ibsen (1828-1906). muitos anos depois, duke e shawn fizeram das suas...



obsessão em primeira pessoa

provavelmente uma das características mais marcantes dos documentários feitos na última década é a narração em primeira pessoa. quase sempre o diretor vai para frente da câmera e começa a exorcizar demônios, revelar intimidades, curar feridas ou tratar de obsessões e, ao mesmo tempo, faz o filme, tudo numa roda viva psicanalítica-metalinguista. talvez esse “subgênero” seja fruto dos reality shows que vem dominando a linguagem da tv/cinema, talvez os grandes temas agora sejam pessoais, mas isso é outra história. é que assisti recentemente dois documentários que não só possuem esse tipo de narração do diretor (sobre algum tema muito próximo) como também outras recorrências bem curiosas. winnebago man e best worst movie são de 2009, foram feitos por diretores estreantes norte-americanos e tratam de desdobramentos atuais de situações que ocorreram em 1989. mas tem mais...

o primeiro que assisti foi winnebago man, de ben steinbauer, no qual o diretor corre atrás de uma obsessão pessoal, que logo descobre não ser apenas dele e sim de toda uma geração, e que atende pelo apelido de “winnebago man”, “the angriest man on earth” ou, para ser mais preciso, jack rebney. em 1989, rebney fez uma série de comerciais/institucionais da winnebago, uma empresa que ainda existe e faz carrões-trailers (que lá são chamados de "rv", recreational vehicle). tudo bem, tudo certo, só que alguém da equipe fez uma cópia do material bruto das gravações, no qual despontavam os erros e um rebney completamente frustrado com a produção fuleira, o calor, as moscas e as próprias dificuldades em decorar o texto. e o sujeito, que devia ter quase 60 anos na época, soltava o verbo e xingava e xingava deus e o mundo. isso foi parar na tv no início da década de 1990 em programas de videocassetadas e depois teve uma sobrevida no youtube em meados dos anos 2000 (na verdade, “winnebago man” conquistou mais de uma geração). steinbauer adorava esses videos, que foram devidamente gravados numa fita vhs e exibidos a familiares, amigos e namoradas. até que crescido resolveu saber o que aconteceu com o seu “herói”. olha o trailer aí...



o documentário é sobre essa busca, mas principalmente sobre o encontro de steinbauer e rebney. o senhor de 76 anos não quer saber dessa história de “winnebago man” e celebridade virtual, vive sozinho e sem filhos em um parque no norte da califórnia e tem umas ideias bem loucas sobre a derrocada dos estados unidos pelas mãos de oportunistas como dick cheney (o vice-presidente de george w. bush), karl rove, donald rumsfeld e toda aquela patota sangue bom. por outro lado, steinbauer tem o desejo não muito secreto de que rebney fale com seus fãs de hoje (tanto pelo documentário quanto em apresentações ao vivo para fãs) como o “personagem”. rebney se nega e começa a atormentá-lo com as tais teorias conspiratórias até que uma súbita perda de visão muda o rumo da história. fragilizado e carente, rebney aceita ir aos seus fãs e, para sua surpresa, se vê feliz com a carinhosa acolhida dos nerds em exibições lotadas e as inúmeras paródias mundo afora. claro que steinbauer não se limita ao seu ponto de vista e ao de rebney e vai atrás da equipe que filmou os vídeos originais, outras pessoas que viraram sucesso involuntário na internet, o melhor amigo e admiradores (conhecidos ou não). camadas mais camadas são acrescentadas em filme que consegue ser tão autoirônico quanto seu personagem, acabando, portanto, com uma de suas falas mais conhecidas: “you believe in any of that shit?” (outras são “it ain’t worth it. not this shit. it ain’t fuckin’ worth it” e “i don’t want any more bullshit anytime during the day from anyone… and that includes me”, todas presentes nessa compilação definitiva logo abaixo).



depois veio best worst movie, de michael stephenson, que trata das filmagens e das pessoas envolvidas na produção do “pior filme do mundo”: troll 2. rodado em algum cafundó do estado de utah no ano de 1989 e lançado um ano depois, troll 2 marcou o bizarro encontro de um cineasta italiano falastrão (claudio fragasso) com um elenco de atores amadores e não-atores do interiorzão norte-americano, em meio a confusões entre línguas e um roteiro sem pé nem cabeça (e que não tem nenhuma relação com troll - o mundo do espanto, lançado quatro anos antes). só para dar uma ideia (mas desculpem aí qualquer pisada de bola, pois foi o que deu para entender pelo documentário, ainda não tive senso de humor o bastante para esse clássico trash), o filme é sobre uma família americana clássica (pai, mãe, filha adolescente e filho moleque) que chega a uma cidadezinha com uma população bem estranha. e então na verdade a família está cercada por trolls-meio-que-vampiros-mas-também-vegetarianos que dão uma bebidinha para os humanos, que se transformam em árvores, e depois os trolls os comem. e tem o fantasma do avô que ajuda o menino, e muitas mortes, gritos e frases ganchudas nonsense como “you can’t piss on hospitality!”. deu pra entender? olha só o trailer do “pior filme do mundo”.



ah, o grande herói é o pai louro interpretado por george hardy, um atlético canastrão boa praça (típico e sorridente capitão do time de futebol americano da escola) que anos depois se tornou um bem sucedido dentista na pequena alexander city, no estado do alabama. hardy é o protagonista do documentário. é a partir de sua vida no presente, do seu passado, do sonho de ser ator e da sua surpresa com o culto ao filme que se aglutinam os destinos dos outros envolvidos na produção. o que aconteceu com o povo maluco que fez esse longa? o que troll 2 significou na vida deles? como eles veem esse culto surgido nos últimos anos? só que um detalhe que muda tudo nesse documentário: seu diretor, michael stephenson, estava no elenco como o menino herói protagonista. o acerto de contas também é dele.

boa parte do documentário gira na busca e reunião do maior número possível de pessoas que fizeram troll 2. e eles(as) são achados(as), quase sempre de forma melancólica, e boa parte comparece a animadas exibições lotadas para fãs (mas também a alguns micos). porém, tensões antigas ressurgem no encontro do elenco com o diretor italiano, que parece se levar muito mais a sério do que deveria e se comunica no melhor estilo latino agressivo. agora, uma das coisas mais tocantes no documentário é ver que todos os envolvidos, até o italiano mitômano e sua mulher perua roteirista, estavam sinceramente dando o melhor de si para o filme, seriamente. segundo stephenson, essa honestidade é uma das razões pelo filme ter virado motivo de culto (ele sabe, claro, que o humor involuntário é a principal). olha o trailer do documentário.



tanto em winnebago man quanto em best worst movie, os personagens principais não conseguem esconder a surpresa em relação ao culto, por um bando de malucos desconhecidos, sobre esses momentos de frustração e constrangimento que passaram tempos atrás (e que, provavelmente, gostariam de esquecer porque depois deles nada deu muito certo na vida de quase todos). também em ambos, o diretor-sujeito e seus personagens-reais entram em franco e escancarado conflito. e, acima de tudo, os dois longas trabalham com doses maciças de material humano do mais profundo com encontros e reecontros muito reveladores. fora o confronto inevitável daquilo que sonhamos com o que efetivamente conseguimos nos tornar. são dramas e comédias surpreendentes, daquele jeito que só a realidade pode criar.

resta saber se documentaristas que começam assim tão bem em produções pessoais conseguem dar o salto rumo a temas não-umbilicais em produções futuras. isso também é crescer, diria o sábio. segundo o imdb, ben steinbauer está filmando brute force (pseudônimo de stephen friedland, compositor dos anos 1960 que teve fãs como john lennon e george harrison), enquanto michael stephenson ainda não tem novidades.

texto escrito ao som de shawn lee (hookep up classics), duke ellington (three suites), mamma cadela (mamma cadela e a geração espontânea) e igor boxx (breslau).

domingo, 12 de dezembro de 2010

domingueira

parece que o pawn shop é do canadá. parece que é uma dupla. certo mesmo é que lançaram um disco instrumental muito bom com dubs, funks e outros sons legais. fiquei sabendo lá no só pedrada (que tem o disco para baixar), de onde tirei o clipe de "datura roots", uma das melhores do disco pawn shop (nocturne records, 2010).

Pawn Shop - Datura Root from Nocturne Records on Vimeo

sábado, 11 de dezembro de 2010

quino, um pai como outro qualquer

e segue aqui o perfil que fiz do quino, também conhecido como pai da mafalda, para a revista voetrip de novembro. foi uma delícia pesquisar sobre o argentino, reler alguns de seus trabalhos (principalmente a mafalda, sempre tão atual) e acabei achando muita coisa pela internet, inclusive as tais animações feitas em cuba e que coloquei no post "o mundo segundo quino".

O PAI DA MATÉRIA

Um rio grande nos separa. A língua também, um pouco. E, claro, o futebol. Visto assim pode não parecer muito, mas durante boa parte do século 20 estes foram motivos suficientes para estabelecer um abismo cultural entre Brasil e Argentina. Por sorte, ou pelo bom e velho “espírito do tempo”, uma menininha furou esse cerco com seu gênio contestador e algumas tiradas de deixar adultos sem ter para onde fugir. Mas Mafalda nunca existiu de verdade, pelo menos não em carne e osso, e o responsável por sua verve é agora um senhor de 78 anos: Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido pelo apelido de Quino, provavelmente o maior e mais conhecido desenhista argentino (ou humorista gráfico, como prefere) de todos os tempos.

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia radicados em Mendoza, Joaquín é chamado de Quino pela família desde os três anos de idade como uma forma de se diferenciar de um tio de mesmo nome e, não coincidentemente, ilustrador e pintor relativamente famoso na época. Foi esse parente (Joaquín Tejón) que o fez tomar gosto pelo desenho até o ponto de adquirir coragem para ingressar na Escola de Belas Artes de sua cidade. Frustrado com o academicismo das disciplinas, que o obrigavam a reproduzir modelos, estátuas, jarros e animais dissecados, Quino abandonou a escola após dois anos. Queria mesmo era publicar suas historietas (quadrinhos), mostrar seu traço, em revistas e jornais da capital. Algo precisava ser feito e tudo apontava para uma mudança de mala e cuia para Buenos Aires, o que acabou acontecendo em 1954.

Não demorou muito para Quino, em seu novo endereço, conseguir os primeiros trabalhos em jornais, revistas e até em publicidade. O mercado editorial argentino sempre foi muito efervescente desde seu início no final do século 19, tanto em termos de produção quanto de público, e as artes gráficas (tirinhas, ilustrações, cartuns e histórias em quadrinhos) umas das principais demandas. Para coroar uma década de privações, descobertas, reconhecimento e algum sucesso, Quino se casou, em 1960, com Alicia Colombo, com quem vive até hoje. A lua de mel foi no Rio de Janeiro e marcou a primeira viagem internacional do casal, bem como o primeiro contato de Quino com editores e colegas de profissão estrangeiros (entre eles, um jovem Ziraldo).

Os anos 1960 foram um período de grandes transformações para Quino. O trabalho incessante em jornais e revistas ganhou companheiros à altura, tais como exposições e os primeiros livros. Com todo esse material disponível foi possível notar com clareza o tamanho do talento e da modernidade de Quino, seu sofisticado traço simples, o rebuscamento gráfico, uma aguçada observação do cotidiano e o humanismo de suas caracterizações. Foi também nessa década, precisamente em 1963, que o artista moldou a criatura que lhe deu fama mundial. E a luz se fez sobre Mafalda, que nasceu como uma encomenda para divulgar o lançamento de uma linha de produtos eletrodomésticos (Mansfield). A campanha acabou não acontecendo, mas um ano depois, Mafalda e seus pais, além de outros personagens como Felipe, Manolito e Susanita, ganharam tirinhas regulares. O sucesso foi imediato. Aquela coisinha de cabelos negros falava o que todos queriam falar sobre esse mundo difícil e divertido.
A fama da menina de língua afiada que odeia sopa, ama os Beatles e quer ser tradutora da ONU, espalhou-se por livros de coletâneas com suas tirinhas até chegar a Itália em 1968, que valeu a Quino sua primeira viagem a Europa. Na apresentação, o renomado escritor Umberto Eco classificou a menina de 8 anos como “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”. E lá se foi Mafalda ganhando o mundo, falando em espanhol, português, francês, alemão e o que mais aparecesse.

Mas em 1973, e para surpresa mundial, a produção de tirinhas é interrompida (foram, ao total, 1928). Numa entrevista em 1996 para o jornalista Ariel Palácios, correspondente do Estado de S. Paulo na Argentina, Quino se justificou pela enésima vez: “Comecei Mafalda em 1963 e terminei em 1973. Estava muito cansado. Achei mais honesto parar. Não repetir-me era um esforço tão grande que não valia a pena. Para mim era uma historinha que entregava e publicavam. Nunca achei que 23 anos depois viraria o que virou, com sucessivas reedições”. A menina chegou ao Brasil pela primeira vez em 1973 através da revista Patota, mas os primeiros livros só foram lançados na década seguinte e atualmente estão no catálogo da Editora Martins Fontes, como é caso do recente
10 Anos com Mafalda.

Mesmo com o espírito mais leve para poder se dedicar a outros projetos, Quino sentiu que o clima na Argentina estava pesando. Mudou-se para Milão em 1976, mesmo ano do golpe militar que jogou os argentinos em um das mais violentas ditaduras da América Latina e que durou até 1983. Em mais de uma vez Quino declarou que se Mafalda fosse real certamente seria uma das “desaparecidas do regime”, o que de fato aconteceu com as quatro filhas do amigo e célebre escritor de quadrinhos Héctor Gérman Oesterheld, igualmente “desaparecido”.

Discreto, Quino se dividiu entre Europa e Argentina, ganhando prêmios e honrarias, sempre trabalhando e sendo muito reeditado e traduzido. Surgiram livros como
Quanta Bondade, Quinoterapia, Humanos Nascemos e Potentes, Prepotentes e Impotentes. Seus desenhos também ganharam movimentos numa série de curtas feitos em Cuba em 1984, mas isso é assunto meio espinhoso, pois não é chegado em adaptações de uma mídia para outra. Enquanto isso, Mafalda foi se tornando um ícone pop em seu país natal, com direito a praça e estátua no bairro portenho de San Telmo. A menina ainda reapareceu aqui e ali, sempre em campanhas institucionais como na Declaração dos Direitos da Criança, encomendada pela UNICEF em 1977.

No entanto, o artista que desenhou e falou com tanto humor sobre temas como desigualdade social, morte, repressão, burocracia, tabus sexuais, tantas facetas da contradição humana, também deu sua contribuição para essa complexidade. Quando lhe perguntam se Mafalda, sua filha de papel, serviu como substituta de filhos reais, Quino apenas responde, sem cerimônia alguma: “Não, Mafalda é um desenho como outro qualquer”.

atualização em 5 de novembro de 2011: apareceu a íntegra do longa de animação mafalda, o filme (1979), de carlos d. marquez. também dá pra baixar no blog filmes políticos. fiquei sabendo via trabalho sujo.


Mafalda - 1979 from Faces da Liberdade on Vimeo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

paráceará e vice-versa

foi ontem, lá no urbe, que vi o trailerzão do documentário piranha, o carimbó no ceará e já deu aquele comichão. carimbó, guitarrada, pará e ceará, tanta coisa boa junta e ao mesmo tempo, além dessa história do carimbó no ceará que não sabia e as participações de mestre vieira, aldo sena e pinduca (e mano chao!). a direção é do meu conterrâneo tibico brasil, tem participação do dj guga de castro na produção e deve sair em algum momento de 2011, pois segundo matéria n'o povo o filme está em fase de captação de recursos.



e o tibico ainda colocou outro pedacinho precioso do documentário. aldo sena fazendo uma versão veloz da sua "lambada complicada".


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

racistas. eles?

taí uma das melhores coisas de 2010, o trio das racist, que lançou duas mixtapes da pesada nesse ano, uma em março (shut up, dude) e outra em setembro (sit down, man). fiquei sabendo dessa segunda antes da primeira e depois corri atrás do prejuízo. a bagunça transglobal de referências nas rimas e batidas, o humor afiado, pop e debochado, a crítica política, tudo faz com que o encontro de victor vazquez, himanshu suri e ashok kondabolu seja uma das melhores novidades a surgir no sempre inquieto brooklyn novaiorquino. olha só os maninhos se divertindo horrores pelas ruas do bairro no clipe tosco da sensacional "ek shaneesh".



outra faixa de shut up, dude é "who's that? brooown!", que ganhou um clipe naquele formato sega que tanto anda na moda.



mas é claro que tem muito mais sons em shut up, dude e você pode conferir tudo aqui no soundcloud do pessoal. não sei bem o porquê, mas
"who's that? brooown!" não está no set abaixo.

Mishka Presents Das Racist - Shut Up, Dude Mixtape by dasracist

sit down, man, a segunda mixtape do das racist é igualmente muito boa e conta com produções de figuras como diplo ("you can sell anything") e roc marciano, inspirações em the doors, quincy jones, jay-z, the very best, enfim, uma porrada de coisas. o pessoal do hypetrak disponibilizou a bagaça. escuta só (e outra faixa, "people are strange", está faltando aí embaixo, e deve ser por algum motivo de direitos e coisa e tal).

Das Racist - Sit Down, Man Mixtape by Hypetrak

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

um sorriso dub, um abraço dub

gente bonita, clima de paquera, alguma fumaça e muito dub na periferia de são paulo com o mestre jah shaka, victor rice, buguinha dub e quilombo hi-fi. destaque para o ótimo trabalho de câmera e a edição carinhosa do pessoal do midiadub.

Outubro Independente - Jah Shaka from midiadub on Vimeo

e se alguém souber que música é essa que toca a partir dos 4:50 (e de quem é, claro), por favor, deixe um recado aí. tentei procurar pelos versos lindos do refrão: "o amor não escolhe cor nem endereço / não avalia se eu mereço / ou se eu deixo a desejar".

atualização: perguntei lá no twitter sobre essa música e tive rapidamente a resposta de uma das autoras, ninguém menos que @lurdezdaluz, que disse ser uma música nova feita em parceria com massarock. na espera então para ouví-la na íntegra.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

todo um universo...

estávamos lá eu e carolina, fim de tarde, quase saindo da interessantíssima rua brick lane rumo ao museu tate modern quando vi um cartaz discreto sinalizando que bastava descer um lance de escadas para estar na loja do print club london. desci e me deparei com uma sala retangular não muito grande, mas com suas paredes repletas de prints sensacionais de jovens e não tão jovens ilustradores e artistas gráficos, europeus em sua maioria. tanta coisa bacana (mas com preços variando entre 35 e 55 libras) que separei aqui um pouco do que vi na loja online deles. não, não comprei nada (já tinha estourado minha cota pessoal com discos e um livro em quadrinhos).

paul bommer (inglaterra)

rose stallard (inglaterra), uma das fundadoras do print club

andy j. miller (inglaterra/estados unidos)

yann brien (frança/inglaterra)

heiko müller (alemanha)

"samba é um troço muito melindroso"

discípulo direto do mestre andré, o célebre diretor de bateria da escola de samba da mocidade independente de padre miguel, o irrequieto jorjão foi o protagonista de um excelente curta documental assinado por paulo tiefenthaler (ele mesmo, o sr. larica total). mestre jorjão (2004) é retrato aberto de um trabalhador que alia criatividade e seriedade em meio ao caos colorido que é o carnaval carioca (e que já passou por escolas como a mocidade independente, a unidos do viradouro e até a paulistana unidos do tucuruvi).

JORJÃO from Paulo Tiefenthaler on Vimeo

heroísmo à moda da casa

putz, mais sons e videos que conheci via timpin. são coisas assim que me fascinam na música popular brasileira, e pode ser tanto pelo humor quanto pelo nonsense, ou pelo simples descaramento mesmo. podia ter colocado apenas o link no twitter, mas as roupas de heróis em videos de duas bandas diferentes me deixaram intrigado. acho que tem um pano de fundo aí, algo entre as linhas, algum mistério. os baianos da levanóiz, por exemplo, fizeram essa "liga da justiça".



aí o pessoal do bonde do maluco (acho que são baianos também, não consegui achar um site deles) apresentou no programa do raul gil o hit "dança da galinha" com roupas de superheróis. a letra da música não tem nenhuma conexão aparente com o super homem, o batman, o robin ou o homem aranha, mas talvez seja alguma caretice minha.



e para encerrar esse triplo x uma outra espécie de heroísmo, uma coisa mais cotidiana, mais do cidadão comum que não se deixa levar pelos vícios e quedas e tentações, mesmo sob o calor de uma praia pernambucana. a totalmente hit "minha mulher não deixa não" é de um tal de reginho, que agora está sendo procurado por deus e o mundo (pra saber
também se a música é dele porque o aviões do forró já rapidamente a regravou e, como o timpin denunciou, quer pegar-pra-si a autoria). de uma forma ou de outra, esse clipe foi feito por amigos do cabra tendo a original como base. só a dança na praia já valeria... sei lá, um monte de coisas nessa vida. mas tem as atuações, a letra e ainda o jeito como o dj sandro, autor da coletânea "original" que incluiu a música, chama a si próprio ("dj sandro, o moral de paulista").

atualização em 11 de dezembro: uma matéria no telejornal da globo nordeste revelou a cara de reginho e os amigos que fizeram o clipe em uma praia de paulista, município do estado de pernambuco (taí a explicação para o "moral de paulista", afinal ele é o cabra bom da localidade, tá ligado?).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

laerte da semana #20

eletrodemo, pode acreditar

como sempre, timpin, o cabra mais antenado sobre a atual música popular brasileira, deu o aviso. o pessoal da gang do eletro (waldo squash & maderito), que falei aqui no mais recente transversão, lançou um cd demo (volume beta) e, não coincidentemente, o próprio timpin foi o responsável pela seleção das dez músicas presentes. basta clicar no logo que está aí logo abaixo e se divertir com uma sensacional coleta de hits para pistas sem preconceitos.

ah, olha aí o nome das faixas. só s-u-c-e-s-s-o.

01. tributo a carmem miranda
02. curtição da night
03. panamericano
04. velocidade do eletro
05. eletromelody da indiana
06. vou passar o sal
07. pout-pourri de eletromelodys
08. eletrocumbia do mexicano
09. rubi boy
10. mariazinha & joãozinho do pop

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quem fica parado é estátua

na sinopse do video, em sua página no youtube, está escrito assim: "estranho fato ocorrido em julho de 2010 no largo da carioca, centro do rio de janeiro, que informa muito sobre o clima de 'choque' que tem pairado sobre a cidade". o registro foi feito com um celular por cristian caselli, jornalista e editor, que estava passando por acaso pelo largo.



gosto muito da reação das pessoas em defesa do artista-estátua-viva em um video que é muito revelador dessa confusão de prioridades tão carioca, tão brasileira. que "choque de ordem" é esse que faz vista grossa para corrupções e enquadra pobres artistas da rua?

e o bruno natal entrevistou o caselli para sua coluna semanal no jornal o globo. tá lá no urbe.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

o céu é bem por aqui mesmo

falei do coletivo as rutes por aqui no ano passado. é de uma grande amiga e atriz, cristiana ceschi, que junto com a beatriz carvalho exploram cenicamente o espaço da cidade (qualquer cidade) e seus habitantes. no projeto mais recente da dupla, que contou com a colaboração do bróder fernando de almeida (e marido de cris), a cidade "vítima" foi são carlos, no interior de são paulo. cielo di san carlo é uma bela e lírica mistura de histórias de pessoas. só vendo mesmo...

Cielo di San Carlo - As Rutes - 2010 from beatriz carvalho on Vimeo

p.s.: e o áudio do início, que não reconheci a princípio, é de outro bróder, daniel almeida, autor do header do esforçado e irmão de fernando.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

vai melhorar, tem que melhorar

a pixar, responsável por alguns dos melhores filmes das últimas duas décadas, mais uma vez mostra que é repleta de (bons) sentimentos, carinho, respeito, amor, etc. via @carolpatrocinio.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

de volta (quase)

amsterdam

berlin

londres

paris (só o aeroporto mesmo)

e agora, acelerando devagarzinho de volta ao(s) batente(s) e feliz com uma viagem bem da boa. beijo grande pra carolina, minha companheira dessas e de outras cidades.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

cuidado com o bulldog

aqui no bulldog, perto da praça com pista de gelo pequena e meio fuleira cheia de folhas secas constantemente jogadas para fora, na calçada mesmo. perto do american hotel imponente, de outros grandes tempos, e com janelas enormes e vitrais fantasmagoricamente lindos. de frente para essa praça movimentada, uma das filiais do bulldog, um bar como qualquer outro. entro lá e vejo um menu sortido, basta apertar um botão e acende uma luz. digo logo: i'm a first timer in coffeshops. marijuana or hash? marijuana. weak, medium or strong? medium. white widow! levo o saquinho plástico zipado e, depois de sentando, peço uma coca pequena. bem pianinho, pra curtir o momento, aproveitar essa oportunidade sem crise nenhuma, sem babar na gravata. de vez em quando pensando que nem ia conseguir o fumar o baseadinho todo. só mais um dia e pouquinho na cidade livre. não ia dar conta do saquinho todo. que maldade. e ao redor muita música, sempre dançante, mais ou menos pop. mas estava sozinho e não entendia as pessoas, o que é ao mesmo tempo solitário e liberador. o que faço enquanto fumo sozinho? começo a escrever que estava aqui no bulldog, perto da praça com pista de gelo pequena e meio fuleira...

fui escrevendo isso ontem a noite, umas 10 e meia da noite, no meu celular, enquanto curtia minha primeira e tranquila experiência em um coffeeshop de amsterdã. acho que queria mais comprar e sentar em um bar, assim mesmo normalmente, do que propriamente fumar. só para confirmar que é assim tem que ser. normal. um negócio como qualquer outro. mas, como diria a presidenta dilma, tergiverso. durante minha permanência no bulldog - um coffeeshop com cara de hard rock café, isto é, sem charme, comercialzão - conheci um rapper belga simplesmente sensacional: stromae. filho de mãe belga e pai ruandês, paul van haver adotou o pseudônimo de stromae (palíndromo de 'maestro') ali pelo início dos anos 2000 e só foi lançar seu primeiro trabalho solo, o ep juste un cerveau, un flow, un fond et un mic…, em 2007. mas foi no final de 2008 ou ínicio de 2009 que nasceu a música "alors on danse" (algo como 'então vamos dançar'), sucesso que saiu da bélgica, lhe deu o primeiro contrato com uma grande gravadora, e depois, no primeiro semestre de 2010, espalhou-se pela europa continental. está em seu disco de estreia, cheese (vertigo/mercury/universal music, 2010), ganhou remix assinado por kanye west e um clipe sensacional. ainda não consegui achar o disco, mas o som do garoto é esse rap com batidas de electro, house, eurodance e outras coisinhas globais. saiba mais sobre stromae na wikipédia e o acompanhe pelo twitter @Stromae. mas antes, escute e veja...



não é foda? coisas que o bulldog pode fazer por você. e lá em seu canal no youtube achei esse video, no qual stromae fala de como foi compondo a música, camada por camada, e demonstra ao vivo.

domingo, 7 de novembro de 2010

não mexe comigo, por favor

nas pesquisas para o post anterior acabei me atualizando de algumas coisas do chico mann. vi que dois de seus videos mais recentes foram dirigidos por um tal de hasan mclendon: o clipe de "ilusión de ti" e o curta musical de "say what". e em seu canal no youtube, entre ótimos registros ao vivo - inclusive com o antibalas, do guitarrista chico -, uma pérola de soul e deboche. com vocês, don't mess with mr. t.



aproveito aquele sorriso no rosto para avisar que o esforçado será menos atualizado nas próximas duas semanas e algo mais. motivo? férias. mas como não consigo ficar parado (virtualmente) estarei ali pelo @dafnesampaio ou no twitpic, com uma foto ou outra da viagem. e antes que eu me esqueça, mr. t tem um recado para você.

inté

o que é blundetto?

se você ainda não ouviu bad bad things (heavenly sweetness, 2010), a estreia do francês blundetto, fique sabendo que é, pelo menos aqui na opinião da casa, o disco do ano. já coloquei a regravação de "nautilus" (bob james), a primeira faixa do trabalho, em um transversão recente, mas imagine que ainda existem outras 11 músicas e quase tudo de altíssimo nível (tipo "voices", "mi condena", "my one girl", "white birds", "la carretilla", umas 10 entre 12). reggae, funk, afrobeat, soul, tanta coisa, e sem falar nas participações de shawn lee, budos band, general elektriks, hindi zahra, chico mann (antibalas), tommy guerrero e lateef the truthspeaker, quer dizer... mas, procurando algum clipe na internet - não achei nenhum - dei de cara com esse divertido material promocional do disco. saiba um pouco mais sobre o francês e vá ouvir já bad bad things (lá no só pedrada tem). sua vida ficará melhor. sem exagero.







sexta-feira, 5 de novembro de 2010

eu te amo, tu me amas



absolutamente genial. e agora é tocar a vida que 2011 taí.

via trabalho sujo.

m.i.a. + the specials

aconteceu na terça, durante a gravação de uma edição de aniversário do programa later... with jools holland, o encontro de m.i.a. com o the specials, a mítica banda inglesa de ska. um belo encontro de diferentes gerações ao som do muy amado reggae. e a música é "it takes a muscle", regravação de um sucesso de 1982 dos holandeses do spectral display, que m.i.a. registrou em seu mais recente disco, maya (xl recordings/interscope/n.e.e.t, 2010).



via @Andre_Maleronka.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

cadê a peruca de crina de cavalo do ney?

foi a primeira vez que falei com ney matogrosso. meros 20 minutos e por telefone. mas o bastante para admirá-lo ainda mais por sua franqueza e simpatia. conversa boa, viu? a deixa para essa entrevista é a exibição do seu mais recente show, beijo bandido, no canal brasil (dia 19 de dezembro, 21h), e o texto abaixo, inédito, estará na revista monet de dezembro que ainda estamos fazendo (quer dizer, estou saindo de férias na semana que vem, ficando 20 dias fora, e nem pegarei o fechamento). e o show sairá em dvd logo depois, ou antes.


SANGUE E PAIXÃO

Camaleão em pele de sofisticado artista pop, Ney Matogrosso está muito próximo de completar 70 anos. Não parece, claro. Nem ao telefone, com sua voz tranquila, bem humorada e límpida, e muito menos no palco, espaço que domina como poucos há quatro décadas. Quem já o viu saracoteando ao vivo sabe de sua intensidade e magnetismo. Ninguém é Ney Matogrosso à toa e seu mais recente show,
Beijo Bandido, é uma nova prova disso. Gravada em agosto, na reabertura do reformado Theatro Municipal carioca, a apresentação chega ao Canal Brasil com toda a energia do ex-integrante da lendária banda Secos & Molhados aliada a uma recém-descoberta maturidade artística.

“Acho que estou mais maduro na forma. Antes era uma coisa muito aleatória. Agora vou entendendo e procurando dar uma continuidade na história. Antigamente não era assim: eu entrava, caía naquela loucura e ia até o final sem muita preocupação com a forma. Agora estou conduzindo mais a história e antes era conduzido.” E o show
Beijo Bandido, que ganhou este nome por causa do elogiado disco de 2009, é conduzido como uma história romântica cheia de cores e possibilidades, e como sempre esbarrando no erotismo, no qual cabem músicas de veteranos como Luiz Bonfá (“De Cigarro em Cigarro”), Herivelto Martins (“Segredo”), Roberto e Erasmo Carlos (“À Distância”) e Vinicius de Moraes (“Medo de Amar”), mas também de jovens como Herbert Vianna (“Nada por Mim”), Vitor Ramil (“Invento”), Junior Almeida (“A Cor do Desejo”) e Cazuza (“Mulher Sem Razão”).

Curioso é que este repertório repleto de corações partidos nasceu de um estímulo, digamos assim, político-ambiental. Ney explica melhor: “Esse trabalho surgiu porque a Lucélia Santos me ligou dizendo que era aniversário de morte do Chico Mendes – e a única passeata que fui na minha vida foi uma com ele pela defesa da Amazônia. A Lucélia também participou e como sabia que eu tinha essa ligação me perguntou se não queria fazer um show. Comecei a pensar e fui vendo que começou a aparecer um repertório romântico, mas achei que tudo bem. Quero sempre cantar o que gosto, independente do que for.”

O bom dessa autonomia é que Ney gosta de muita coisa e está sempre de ouvidos abertos. Em discos recentes como
Olhos de Farol (1999), Vagabundo (2004, feito em parceria com Pedro Luís e a Parede) e Inclassificáveis (2008), o intérprete mostrou a seus fãs que a música popular brasileira continua pulsante no cancioneiro de gente como Itamar Assumpção, Marcelo Camelo, André Abujamra e Luiz Tatit. Mas obviamente nunca deixa de lado as vozes que aprendeu a amar ouvindo o rádio da década de 1950. E dá-lhe Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Ângela Maria.

De terno sóbrio e justo, o cantor investiga em
Beijo Bandido os sobressaltos do amor, mas atualmente ele mesmo não tem o que reclamar desse campo permanentemente minado. Não revela nada, discreto como sempre, mas sua voz deixa escapar sinais de felicidade. Bem, pode ser também porque virou unanimidade nacional e só faz os discos e shows que quer. “Olha, quando vi o show gravado vi que é o primeiro que realmente... tem alguns outros que gosto, mas esse me satisfez artisticamente. Já vi duas vezes e tive muito prazer ao vê-lo.” Se Ney, autocrítico que é, repetiu a dose, imagine a gente...



e agora segue a breve entrevista na íntegra.

Como nascem seus discos? Cada um tem uma história diferente ou você já tem um método na escolha de repertório?
Nascem de várias maneiras, por vários estímulos. Esse, por exemplo, surgiu porque a Lucélia Santos me ligou dizendo que era aniversário de morte do Chico Mendes – e a única passeata que eu fui na minha vida inteira foi uma com o Chico aqui no Rio de Janeiro pela defesa da Amazônia. A Lucélia também participou e como sabia que eu tinha essa ligação me perguntou se não queria fazer um show para o aniversário da morte dele no Teatro Tom Jobim. Estava fazendo o show “Inclassificáveis”, mas ele não cabia lá, então comecei a pensar em outro show. Fui vendo que começou a aparecer um repertório romântico, mas achei que tudo bem. Quero sempre cantar o que gosto, independente de ser o que for. Quando terminei fui falar com ela, que ficou espantada e disse que “não era um show inteiro!”. Aí respondi que era tarde demais [risos]. Mas no dia cantei 6 das 14 músicas desse show. Depois de gravar o disco coloquei mais 5 para montar o show definitivo, porque 14 é pouco para um show.

E quando você está montando o repertório já pensa no show?
Penso. Penso. Não consigo disso dissociar. Quando começo a gravar um disco já começo a imaginar como será o espírito da coisa ao vivo. Claro que só depois vou entender como a coisa vai ser, mas já vou tendo idéias pra frente.

Acontece então de músicas ficarem de fora se você acha que não terão força ao vivo?
Sim, podem ficar de fora. Como também podem entrar outras. Depois dessa apresentação no Teatro Tom Jobim fiz outros três shows em lugares diferentes para públicos muito diferentes. Queria observar a reação dessas pessoas ao repertório e em função disso tirei “Veleiros” (Heitor Villa-Lobos) e “Tema de Amor de Gabriela” (Tom Jobim), que ficavam no meio do show e acabavam dando uma amornada. Aí gravei o disco sem elas e acabei colocando outras no lugar. Achei que podia colocar alguma coisa mais pop no disco e não ficar apenas nos clássicos, sabe? Então coloquei “Nada por Mim” (Herbert Vianna e Paula Toller) e “A Cor do Desejo”, que é de um compositor de Maceió, o Junior Almeida (em parceria com Ricardo Guima). Achei que o show ficou mais equilibrado. Tirou aquela cara de recital apenas. Continua sendo um recital, mas ele é pop no sentido que canto um tango, um Piazzolla, um bolero, uma música do Roberto Carlos que queria cantar faz muito tempo (“À Distância”), alternando climas. Embora a temática romântica seja a mesma.

Você mudou no palco nos últimos anos?
Acho que estou mais maduro na forma. Antes era uma coisa muito aleatória. Agora eu vou entendendo e procurando dar uma continuidade na história. Antigamente não era assim: eu entrava, caía naquela loucura e ia até o final sem muita preocupação com a forma. Agora estou conduzindo mais a história, antes eu era conduzido. É o amadurecimento mesmo. Ah, mas deixa te falar uma coisa que descobri recentemente. Um amigo me mostrou uns livros sobre butô, aquela dança japonesa, e fiquei muito impressionado porque eu me via nas fotos dos livros. Eu me via em cena! Nunca imaginei que eu fizesse butô [risos]. Gostei de saber disso. Claro que não é trágico como o do Kazuo Ohno, mas tem uma coisa similiar.

Essa descoberta te fez pesquisar mais sobre?
É uma descoberta muito recente. Vou fazer um ensaio fotográfico e estou pensando em caminhar exatamente por aí. Tenho uma série de amigos fotógrafos e às vezes faço ensaios sem maiores pretensões. Apenas para entrar no estúdio e curtir. Estou atrás de uma peruca gigante de crina de cavalo que eu tinha... mas não sei, não encontrei. Achei que seria interessante pra esse trabalho. Ia até a cintura e era muito selvagem. Ela cai sobre o rosto, fica em pé no alto da cabeça. Era uma peruca que foi feita pra mim, sabe? [risos] Já usei até em show.

No release diz que o show foi dedicado ao Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (MORHAN)...
Foram duas noites no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, uma delas para esse projeto. Foi na mesma noite que o
[empresário] Eike Batista doou R$ 4,5 milhões para o movimento e... estamos esperando.

Não veio ainda?
Ainda não [risos].

Eike caloteiro... [risos]
Não, imagina...

Tô brincando.
Ele não ia se comprometer publicamente, né? Mas o dinheiro não chegou na mão do movimento...

Mas como começou sua relação com o projeto?
Foi em 2000. Fui procurado por engano porque o Ney Latorraca tinha dado uma entrevista dizendo que ia deixar a herança dele para projetos relacionados a AIDS e a Hanseníase. E aí mandaram procurar o Latorraca e chegaram a mim [risos]. Não foi uma surpresa.

É comum confundirem vocês? [risos]
Acontece muito na rua. As pessoas gritam: “Ê, Ney Latorraca!”. Eu já aceno, nem digo nada [risos]. E ele também acena quando o chamam de Matogrosso.

Olha só, tipo Itamar Assumpção e Luiz Melodia. Gêmeos.
Pode ser. Só que nossos nomes são parecidos. Ambos somos de Mato Grosso. Também tem isso, né?

Então começou assim...
Começou com essa confusão. E eu achava, como 99,9% da população, que essa doença não existia mais no Brasil. Eu achava que não existia mais no mundo! E fiquei muito assustado em saber que o Brasil lidera... temos essa medalha de ouro vergonhosa
[nesse ano, segundo a OMS, o Brasil caiu para o segundo lugar e a Índia voltou a liderar]. Comecei a pedir informações e vi que eram extremamente úteis e não estavam disponíveis. Ninguém falava que a doença tem cura, que o remédio é de graça. Informações simples e muito importantes. Aí fui participando de campanhas Brasil afora. Já são dez anos nisso.

E como foi ver o registro do show?
Olha, quando vi o show gravado vi que é o primeiro que realmente... tem outros que gosto, mas esse me satisfez artisticamente. O pessoal que filmou, a Urca Filmes, fez algumas intervenções visuais que me agradaram muito. Já vi duas vezes e tive muito prazer ao vê-lo.

e pra encerrar, um video raro: ney cantando "desafinado" (tom jobim e newton mendonça) em um especial da tv bandeirantes de 1978.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

porra, sega!

via @dlima.

produzindo cultura

o release do projeto diz o seguinte: "Produção Cultural no Brasil é um trabalho multimídia que reúne 100 entrevistas em vídeo com gestores, artistas e realizadores culturais de todo o país. O material dará origem a 5 livros e é o ponto de partida para um processo permanente de discussão e reflexão sobre o que é, quem faz e como se produz cultura brasileira." e que honra ver minha tia mileide flores, irmã de meu pai e grande amiga, entre essa centena de entrevistados, gente como andré midani, hugo possolo, sérgio rodrigues, hermínio bello de carvalho, maurício de sousa, luiz calanca, moraes moreira, ivaldo bertazzo, inezita barroso, thomaz farkas, fernando faro, zé celso martinez corrêa, marcelino freire, danilo miranda e toninho mendes.

contei um pouco da história da feira do livro, a livraria da família em fortaleza, e de mileide no post "um convite literário".

terça-feira, 2 de novembro de 2010

los muertos, viva los muertos



esse video/post é uma homenagem a todos aqueles que demonstraram publicamente seus preconceitos, ignorâncias, ressentimentos, entre outras coisas, durante essa campanha eleitoral. que o governo de dilma seja uma "aventura histórica" para o horror de seus piores pesadelos. e aqui vai uma lista incompleta de alguns homenageados, sem ordem alfabética ou de importância. um beijo, um abraço, um aperto de mão para...

merval pereira, reinaldo azevedo, arnaldo jabor, marcelo madureira, maitê proença, soninha francine, ferreira gullar, eliane cantanhêde, joão pereira coutinho, miriam leitão, otávio frias filho, guilherme fiuza, augusto nunes, ruth aquino, dora kramer, ricardo noblat, carlos vereza, jair bolsonaro, william waack, mônica serra, diogo mainardi, marcelo tas, gravataí merengue, diego escosteguy, mônica waldvogel, bolivar lamounier, fernando gabeira, hélio bicudo, josé serra, índio da costa, tasso jereissati, arthur vigílio, sérgio guerra, jorge bornhausen, césar maia, rodrigo maia, itamar franco, álvaro dias, roberto freire, coturno noturno, beto richa, silas malafaia, xico graziano, kátia abreu, felipe neto, danuza leão, políbio braga, gilberto dimenstein (que o @elgroucho lembrou aí nos comentários)... (se lembrarem de mais alguém - que por ações ou declarações entraram no mimimi, e não simplesmente apoiaram o serra, que isso não é pecado - coloquem o nome aí na janela de comentários; e vou colocando mais gente conforme lembrar).

p.s.: em um futuro recente assumo um compromisso de fazer um post vade-retro sobre figuras que poderiam muito bem não estar com a dilma, tipo gabriel chalita, magno malta e josé sarney (mas, como bem disse o senador cristovam buarque, "a magia é maior que o sarney").

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

um passo à frente e você não está mais
no mesmo lugar

o momento.



via ricardo mendonça (@RMendonca09), da revista época.

p.s.: e outro flagrante, o da minha confirmação.

para o brasil seguir mudando...

segue a íntegra do primeiro discurso de dilma roussef, nossa primeira presidentA. foi um tanto longo, um tanto técnico e a emoção só apareceu quando citou o lula, mas achei uma ótima e importante carta de intenções. afinal, dilma não é lula, e isso é bom.

Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

- Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

- Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

- Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

- Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

- Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro. Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredí-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.


foto da FSP

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada

p.s.: e o angeli, genial e sacana como sempre, fez esta charge sobre troca de papéis (com direito a citação ao amigo laerte).