quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

tem brasileiro no k-pop

acho que teria assistido Guerreiras do K-Pop de qualquer forma porque gosto muito de animação, mas o fato de ter uma filha que amou e ficou obcecada pelo filme, pelas personagens e pela música, acrescentou uma dose extra de interesse e carinho por tudo. nem lembro mais quantas vezes assisti o longa e ouvi as músicas. e adorei todas as vezes. 

lá pelas tantas decidi que teria que monetizar isso de alguma forma e tentei emplacar algumas pautas relacionadas que mandei pra BBC Brasil. primeiro pensei em falar com as dubladoras brasileiras, mas não houve interesse. depois lembrei que o compositor da trilha sonora (não das canções) é uma brasileiro radicado nos EUA, o paulistano Marcelo Zarvos. recebi sinal verde e marquei as entrevistas. foram duas via zoom porque tinha muito assunto pra falar, tanto sobre o fenômeno das Guerreiras, mas também sobre sua carreira, o início ao lado de Supla e os filmes que fez com gente das mais alta qualidade como Todd Haynes, Antoine Fuqua, Denzel Washington, Barry Levinson, Susan Seidelman, Robert De Niro, Jodie Foster, Bruno Barreto, etc.

só que logo percebi que a BBC Brasil perderia o interesse quando soubesse que Zarvos chegou no final do processo e sem participação nos hits (aliás, quem não ouviu "Golden" em 2025 não estava vivo). dito e feito. ainda tentei emplacar em outros veículos, mas a pauta tinha ficado "velha". então editei por conta e publico aqui no Esforçado porque ninguém falou com o Zarvos aqui no Brasil e a conversa foi muito boa.

Marcelo Zarvos em seu estúdio em Nova York

GUERREIRAS DO K-POP

Como surgiu pra você o projeto do Guerreiras do K-Pop?

Foi, na verdade, o convite veio pelo estúdio que estava produzindo, a Sony. E eu estava há anos querendo fazer uma animação. Já fiz muitas trilhas, mas nunca tinha conseguido fazer uma animação. E apareceu o Guerreiras do K-Pop. Eles me ligaram, estavam precisando de uma pessoa meio que urgente pra entrar e fazer o projeto. Por uma razão ou por outra eles não conseguiram o que queriam dramaticamente na trilha, então me chamaram. Mas não tive nada a ver com as canções, elas já estavam prontas. Fiz a trilha sonora, a trilha dramática, digamos assim, onde acabei incorporando um pouco das canções. Mas foi uma coisa muito rápida. Assim, animações geralmente demoram anos, né? Eles estavam desenvolvendo esse projeto há mais de sete anos. E eu entrei, conheci eles todos em dezembro, já no final, quer dizer, foi muito, muito rápido. Trabalhei durante seis semanas em Londres, gravando, foi uma coisa louca... acontece isso de receber as coisas de trilha sonora meio que na última hora. Foi uma pauleira, mas uma daquelas que valeram muito mais que a pena. Porque fiquei muito atraído pela história. Realmente é uma história de super-heróis, mas o grande poder delas é a música. E contada pelo ponto de vista feminino, de verdade, não aquela coisa oportunista de que poderia ser um homem e nada mudaria. É um filme de super-herói feminino, assim, profundamente. 

E quando te chegaram com a proposta do filme, qual era o briefing?

A grande estrela do filme é a música K-Pop, que é um gênero que conheço razoavelmente. Não é que seja uma pessoa que ouço K-Pop minha vida inteira, mas é uma indústria muito grande no mundo inteiro, inclusive no Brasil. É um fenômeno musical muito interessante, muito específico, mas que obviamente tem uma grande influência do pop americano. Mas o briefing era explorar o poder do K-Pop, o poder artístico, emocional, dramático do K-Pop. E, como sempre faço nas histórias que trabalho, tento sempre pensar da maneira mais universal possível. Embora, obviamente, K-Pop seja uma coisa coreana, sempre também procuro ver, ao mesmo tempo, o que é universal no projeto. E eu tento entrar dramaticamente por isso. Acho que a música, e, nesse caso, a trilha sonora, que não são as canções, às vezes está usando elementos do K-Pop, mas, muitas vezes, é uma trilha mais tradicional, de uma certa maneira, uma trilha orquestral, com coisas dramáticas, emocionais ou comédia. Busco ir para esse lado de como você vai atrair pessoas que talvez não conheçam o K-Pop. Acho que o poder da história está na música, mas também está no poder dramático das personagens, como elas são construídas e como elas estão falando para a gente como seres humanos. 

Então as canções já estavam prontas quando você entrou...

Totalmente prontas, sim. Todas prontas. Porque a animação, especialmente quando o pessoal está cantando, a animação demora muito tempo. Quando comecei, a animação estava, vamos dizer, 80% lá. É um processo muito, muito demorado e mesmo uma animação que tem um estúdio por trás e toda a infraestrutura e o orçamento que tem um filme desses, demora muito. Foi incrível ver como até o final, quando a gente gravou a minha música, ainda tinha uns 20% para terminar da animação. Mas as canções já estavam prontas porque os animadores precisavam delas pra fazer a sincronia com as bocas, os movimentos. 

Bom, você entregou seu trabalho, seis semanas na batalha, entregou... E aí você só foi saber do filme quando lançou? Ou você chegou a ver alguma coisa antes?

Quando a gente termina a música, tem ainda a mixagem do filme inteiro, que é onde os últimos ajustes são feitos no som e na música. Mas mesmo ali a animação ainda não estava pronta. Assisti pela primeira vez o filme pronto, acho que em maio, junto com amigos e familiares. Não era ainda alguma coisa aberta. O filme só foi sair no final de junho. Mas logo ali percebi que a reação das pessoas estava muito forte. Pessoas que nunca tinham visto esse filme ficavam muito empolgadas... e não só crianças. Isso foi interessante. Por outro lado, minha esposa sempre fala que quando trabalho em um filme eu visto a camisa, digamos assim, de uma maneira bem forte. Mas achei mesmo que as pessoas iam curtir. 

Então você já tinha uma expectativa...

Sim, mas a Netflix não fez um marketing tão grande para o filme. Eles fizeram um marketing ok, e acho que a princípio todo mundo fichou achando que era só mais uma animação da Netflix. As crianças vão ver, os pais vão ver. Legal. E aí semana que vem tem um próximo. Só que foi crescendo. Foi um negócio muito interessante, porque foi realmente viral. Tenho filhos de 13 e 15 anos, e eles começaram a ver muita coisa no TikTok. Realmente foi uma daquelas surpresas que cada vez vai subindo mais. Não para de aumentar, né? [500 milhões de visualizações de junho de 2025 a janeiro de 2026]

 

Sim, ainda não parou. Teve um boca a boca viral que o transformou no filme mais visto da história da Netflix e suas músicas todas entre as mais tocadas da Billboard. Como você acha que aconteceu esse crescimento?

O que está acontecendo é que o filme se tornou um disco que as pessoas tocam e fica rodando. E realmente, uma das coisas que me atraiu muito no filme, quando vi, foram as canções. Especialmente “Golden”. Lembro que quando ouvi “Golden”, pensei que ela ia muito além do K-Pop, porque juntaram com uma coisa de musical mesmo. E a melodia de “Golden” é dificílima de cantar. As músicas são muito difíceis e isso também me atraiu no começo. Quando comecei a trabalhar fiz de uma maneira um pouquinho diferente do que costumo fazer. Escrevi a trilha inteira sem usar as canções e daí, quando a trilha estava emocionalmente certa e os diretores, pô, legal, a gente começou daí a incorporar as canções, as melodias, em certos lugares bem estratégicos, dentro da trilha, e virou uma coisa quase meio operática, de uma certa maneira, porque dentro dessa trilha incidental você tem o DNA e certos pedacinhos da melodia que vão aparecendo aqui e ali. Pensei, pô, legal, a gente está fazendo isso, ninguém nunca vai reparar, mas os fãs reparam em tudo. 

Marcelo Zarvos (centro da foto, ao lado de Supla) na formação original da banda Tokyo dos hits "Humanos" e "Garota de Berlim"

O INÍCIO EM SP, O REEINÍCIO NOS EUA

Queria voltar um pouco para a tua origem. Você foi estudar música nos Estados Unidos bem jovem. Você está aí há muito tempo, né?

Vim com 18 anos para estudar música. Mas comecei profissionalmente na música antes, em São Paulo mesmo, no grupo Tokyo do Supla. Já tocava piano desde os 11 anos, mas rapidamente entrei no negócio de rock. Fazia parte do grupo, escrevia uma grande parte das músicas junto e gravei os dois primeiros e únicos discos do Tokyo [Humanos de 1986 e O Outro Lado de 1987]. No primeiro disco, a gente saiu em turnê, fez aquele negócio com a Nina Hagen [Garota de Berlim”, 1986], ia no Chacrinha e foi uma experiência incrível. Quando terminei o segundo disco estava com 17 anos e falei logo que não queria sair em turnê. Percebi muito cedo que adorava compor, adorava gravar, mas detestava os shows, as viagens, tocar a mesma coisa todo dia. Então sempre pensei em sair do Brasil para estudar música. Pensando agora que tem uma parte da minha música que tem muito a ver com sintetizadores e música eletrônica, e vem desse negócio dos anos 1980 com o Tokyo. A gente nunca esquece nosso começo, nossas primeiras influências.

E como foi esse começo nos Estados Unidos?

Antes de vir pra cá, saí do grupo e estudei um ano bem forte para conseguir entrar em alguma das faculdades que queria. Fui primeiro pra Berklee, em Boston, e depois pra CalArts, na Califórnia, onde realmente fiz minha graduação. Minha ideia foi sempre estudar trilha sonora, mas quando cheguei achei que era muito cedo, que precisava de mais comida musical, sabe? Precisava me alimentar de mais coisas. Fui, oficialmente, como pianista clássico, mas sempre compus e tocava também jazz e música brasileira. Então fui estudando e tocando, estudando e tocando, porque achei que chegaria naturalmente no caminho da trilha sonora. Acabei fazendo minha primeira trilha praticamente 10 anos depois que vim para os Estados Unidos, e foi com um filme brasileiro, o Uma História de Futebol, do Paulo Machline, um grande amigo meu. É um curta, foi lançado em 1998, e foi um sucesso enorme, foi para o Festival de Brasília, e até ganhei um prêmio. Na verdade, acho que até hoje é o meu único prêmio de música [risos]. Tenho o Calango até hoje no meu estúdio. O filme chegou a ser indicado ao Oscar de curta, foi uma coisa incrível. Dali começou minha carreira no cinema. 

Pensando que desde o início sempre foi um objetivo seu o de fazer trilha sonora... qual era seu interesse?

Antes de qualquer coisa, eu realmente amo cinema e amo cinema desde antes de amar música. Fui um mini cinéfilo, literalmente, e gostava de ficar falando, conversando com as pessoas. Minha família ficava até preocupada. Aquele negócio de você sentar e ver um filme, aquele ritual e aquela experiência, é uma coisa muito visceral para mim. Depois me apaixonei por música e foram dois os principais motivos: número um, Beatles; e número dois, as trilhas sonoras da minha infância, especialmente dos anos 1980. Tinha a do Blade Runner, porque adorava aquelas coisas do Vangelis, e obviamente as trilhas que o John Williams fazia para os filmes do Steven Spielberg. Mas o que mais gostava eram as coisas mais eletrônicas, me apaixonei por isso, tipo Jean-Michel Jarre, Tangerine Dream, Kraftwerk... adorava aquela coisa mecânica, mas com aquela estética bem eletrônica e, ao mesmo tempo, muito emocional. Fui percebendo então que as trilhas sonoras permitiam uma mistura de estilos muito grande. Então você ouvia, de repente, uma trilha com orquestra, mas tinha uma coisa de rock no meio e, de repente, uma coisa eletrônica e, de repente, virava uma coisa africana e isso me atraía muito e fazia muito sentido na minha cabeça. 

AS PRIMEIRAS TRILHAS SONORAS 

Mas você não tentou fazer algo antes de Uma História de Futebol?

Ah, sempre brinco que a primeira trilha sonora que fiz foi uma introdução para os shows do Tokyo. Ficava tudo escuro e fiz uma introdução de teclado, sintetizadores, que era uma coisa dramática, e foi a primeira vez que senti o poder da música instrumental. Porque a trilha sonora é, com poucas exceções, uma coisa instrumental, sem palavras, sem canções, mas que mexe com as pessoas de uma certa maneira. Lembro dessa experiência muito bem porque a primeira vez que fiz essa música em particular, a gente estava abrindo para um show da Nina Hagen no Ibirapuera. Depois fui falar com os músicos da banda dela, eles gostaram do clima, gostaram dessa coisa meio assim dramática, um pouquinho “scary” e tal. Foi aí que percebi que o que queria realmente era fazer era criar essas camas dramáticas, esses climas, né? Nesses anos antes de começar realmente com as trilhas, fiz muita música para companhias de dança em Nova York. Já era uma coisa mais próxima à trilha de cinema. Então veio a oportunidade de Uma História de Futebol e realmente consigo traçar tudo o que fiz em cinema a partir daquele primeiro curta que fiz com Paulo Machline. 

Olhando sua filmografia, Uma História de Futebol é do final dos 1990, né? Mas seu primeiro longa é Beijando Jessica Stein?

Não foi o primeiro, mas foi o primeiro que fez sucesso. Sim, está. O primeiro longa que fiz saiu em 2000 e se chama Tully. Foi também como conheci o meu maior colaborador, e um cara que é um gênio. Acho que no Brasil as pessoas estão começando a se ligar quem é Affonso Gonçalves, também brasileiro que mora aqui, mas ele é montador. Ele editou Ainda Estou Aqui do Walter Salles e o filme do Jim Jarmusch que ganhou Leão de Ouro em Veneza, Father Mother Sister Brother, também foi ele que montou. Ele trabalha bastante com o Jarmusch e com o Todd Haynes. No início de 2000, o Affonso estava montando um filme chamado Tully, um filme independente americano, e ele me viu tocando, naquela época ainda tocava bastante jazz, e ele me viu tocando num programa que teve nos anos 1990, do João Marcello Bôscoli, que chamava Companhia da Música. Era um programa na TV Cultura e eu conhecia o João de garoto, a gente tocou de brincadeira em umas bandas antes do Tokyo surgir pra mim. João me chamou para tocar uma música minha, mencionou no programa que morava em Nova York, e o Affonso viu. Ele estava trabalhando nesse filme e passou meu nome para a diretora [Hilary Birmingham], que me mandou um e-mail do nada. Na mensagem ela nem mencionou que o Affonso tinha falado de mim, que também era brasileiro. Bem, eu nem conhecia ele. Aí trabalhamos em Tully; The Mudge Boy [O Despertar da Adolescência, 2003, de Michael Burke], que foi para o Festival de Sundance; The Door in the Floor [Provocação, 2004, de Tod Williams]; que foi meu primeiro filme de estúdio, tinha Jeff Bridges e Kim Basinger no elenco, pude usar orquestra; e, mais tarde, ele me levou para trabalhar com Todd Haynes e fizemos juntos Dark Waters [O Preço da Verdade, 2019] e May December [Segredos de um Escândalo, 2023]. O Affonso foi meio que um anjo da guarda, colaborador e chapa amigo do peito. Devo minha carreira a ele a ao Paulinho [Machline]. Eles me abriram portas, não é? Muitas portas. O cinema depende muito disso. 

Mas, voltando à sua filmografia, fiquei muito impressionado com o tanto de coisa que você fez nesses 25 anos desde Tully. Tem ano com quatro ou cinco filmes lançados com trilha sua. É possível ver tanto um crescimento em quantidade de trabalho quanto em qualidade, já que você começou a trabalhar com gente bastante conhecida como Denzel Washington, Antoine Fuqua e Todd Haynes. Como você foi, com o perdão do trocadilho, trilhando esse caminho?

Acho que não tem muito como planejar esse caminho. Você quer trabalhar, você quer fazer o que gosta de fazer, mas não dá para direcionar. As coisas vão acontecendo. 

MAIS TRILHAS, NOVAS COLABORAÇÕES

Então, o que geralmente te chama para cada projeto?

Minha filosofia é que, quando você entra para fazer a trilha de um filme você faz parte do elenco, mas você é um ator invisível, e você pode, às vezes, estar fazendo coisas super sutis lá atrás, ou, de repente, você está na frente, aparecendo muito, como foi o caso de Segredos de um Escândalo, do Todd Haynes. Tem sempre uma influência, que pode ser desde muito mínima, efêmera e super delicada, até uma coisa muito na sua cara, muito dramática. Mas, para mim, o desafio é sempre entender o que é o projeto em si. Um dos grandes diretores com que trabalhei muito cedo na minha carreira, e foi uma sorte grande, foi o Barry Levinson [de Rain Man e Bom Dia, Vietnã – Zarvos fez a trilha de cinco filmes do diretor: Fora de Controle, You Don’t Know Jack, Incidente em Claridge, O Último Ato e Rock em Cabul]. E o Barry sempre falava assim, ‘você precisa ouvir o que o filme está te dizendo, porque o filme vai cuspir todas as músicas que não quer’. Com o Barry realmente aprendi muito essa coisa de você não ter medo de experimentar e tentar coisas malucas, e tentar coisas diferentes, porque no final é uma sinergia, não é só a música, não é só o filme. Você pode ter uma cena fantástica que, com a música certa, vai ficar melhor ainda. Você pode ter uma música fraca que com a cena certa vira uma superpotência. E o que eu sempre procuro é isso, é como trazer essa experiência emocional, e pode ser emocional, não só triste, que é o que as pessoas às vezes pensam, mas pode ser uma coisa de comédia, pode ser uma coisa de medo, uma coisa de fantasia, como o Guerreiras do K-Pop, mas é sempre procurando aquela fórmula, e não é uma fórmula, porque cada filme é diferente, mas aquela alquimia, digamos, que vai acontecer. Mesmo hoje em dia, tendo trabalhado com vários diretores, não fica mais fácil. Toda vez a gente começa do zero. Mas tive sorte também de não fazer só um estilo. Tully é um filme dramático, indie, bem triste, daí o Beijando Jessica Stein é uma comédia romântica, então gosto desse desafio. Agora, com mais 25 anos de carreira fui fazer minha primeira animação, que era uma coisa que queria muito fazer. Ainda tem várias outras coisas que adoraria fazer. 

Tiveram alguns cineastas que você trabalhou mais de uma vez, né? O Antoine Fuqua, o Todd Hayes, o Barry Levinson. Imagino que cada trabalho tenha um ponto de partida diferente, tem uma demanda diferente, cada diretor tem um estilo diferente de lidar com a trilha e de falar com você sobre a trilha. Como você definiria essas suas colaborações mais recorrentes?

Tem uma coisa muito boa de você trabalhar com uma pessoa várias vezes é que você já conhece o estilo e tem aquela linguagem que você vai desenvolvendo. Mas, ao mesmo tempo, acho que como o diretor sente a pressão neles próprios de, pô, eu tenho que fazer uma coisa diferente, não dá para ser a mesma coisa, tenho que estar me renovando, então você tem que ir nessa também com a música. Eu tento sempre pensar nos projetos como, assim, estamos começando de novo mesmo. Mas a ideia é sempre você tentar entrar na verdade dramática do projeto específico. Então, por exemplo, com o Antoine Fuqua tem dois tipos de projetos diferentes. Tem os dramas policiais como O Protetor: Capítulo Final e também documentários, alguns sobre esportes. Então a gente desenvolveu uma linguagem de esportes bem diferente do que a gente fez para os dramas policiais. Mas agora, por exemplo, estou trabalhando com ele num documentário sobre o Mandela, que é um documentário histórico, uma coisa que, na verdade, de uma certa maneira, é mais próximo do que a gente fez no Emancipação. É importante acentuar uma coisa ou outra, mas os grandes diretores com quem trabalhei eles estão interessados no que está por trás. O que eles têm em comum é que eles não querem que a música simplesmente fale, olha, aqui o cara está chorando, então vamos fazer uma coisa triste. O Todd Haynes, por exemplo, é um cara extremamente sofisticado e num projeto como o Segredos de um Escândalo, a música é uma coisa super chocante, mas mesmo assim ela está lidando com o que está por trás das cenas. Tem uma cena do filme que a Julianne Moore abre a geladeira e tem aquela música super dramática. Ela não vê nada demais na geladeira, mas com a música super dramática ele quer dizer que a personagem é muito mais instável do que aparenta, e a música está lembrando a gente o tempo inteiro que o que você está vendo ali não é exatamente o que a história é. Mas o grande desafio, pra responder à sua pergunta, é entrar na realidade específica do projeto. Quero que as pessoas lembrem da música que faço para os filmes não só pela melodia, ou o tema, mas também o que a música estava fazendo e como a música funcionava. E a gente está sempre repensando esse relacionamento. 

Tem outra coisa que percebi na sua filmografia, e isso obviamente pode ser apenas uma coincidência, é que você trabalhou com mas tem vários atores/atrizes diretores(as). Robert De Niro, Jodie Foster, Denzel Washington, Eva Longoria...

Interessante você falar isso. Sempre quis que alguém me fizesse essa pergunta e você é a primeira pessoa que fez... porque, realmente, isso foi uma coisa muito, muito marcante pra mim. Eu adicionaria outra pessoa, que não costuma ser lembrada, e que foi uma das pessoas com quem comecei, que é a Jennifer Westfeldt. Ela escreveu e protagonizou Beijando Jessica Stein e depois fiz o primeiro filme dela como diretora [Solteiros com Filhos, de 2011]. Mas, obviamente, começando com De Niro. Foi ele que me ensinou como a música pode afetar a performance de um ator porque ele sabe o poder da música. A diferença entre uma coisa virar melodramática ou uma dramática boa é a música. Muitas vezes o ator está fazendo a mesma coisa. Então, realmente, a gente passou muito tempo esculpindo. O Bom Pastor [lançado em 2006, foi o segundo longa dirigido por De Niro] é, até hoje, um dos maiores filmes que trabalhei em termos de orçamento. Tive uma orquestra enorme, muito tempo nas mãos, e o De Niro ficava tirando coisas. Ah, não, tira isso, tira aquilo, tira aquilo. E eu, às vezes, assim, falando, pô, mas o que vai sobrar? Será que vai sobrar alguma coisa? No final vi como ele estava realmente vendo como um todo, e ele, como ator, sabia que, pô, se essa música for muito pesada ela vai sugerir uma interpretação para o espectador que talvez não esteja na atuação. Aprendi muito, mas não tive coragem de falar que me tornei compositor por causa de três filmes que ele atuou: Taxi Driver [trilha de Bernard Herrmann], O Poderoso Chefão 2 [trilha de Nino Rota] e A Missão [trilha de Ennio Morricone]. 

Com Denzel Washigton já são dois filmes, né? Um Limite Entre Nós, de 2016, e Um Diário para Jordan, de 2021...

Quando trabalhei com o Denzel a primeira vez foi em Fences [Um Limite Entre Nós], filme baseado em uma peça de teatro muito famosa do August Wilson, que é uma espécie de Shakespeare americano. O Denzel dirigiu e era protagonista junto com a Viola Davis. E eram basicamente os dois, então ele criou uma coisa muito mínima. A primeira música da trilha só aparece já com uns 30 minutos do filme. Eu, obviamente, já tinha mais experiência, mas ele me trouxe mais para dentro do processo. Via na sala de edição ele estava cortando e como ele via a própria interpretação dele. Isso foi uma coisa fascinante. Ver um mestre ator refinando sua própria performance, e que já era uma performance perfeita... não, a gente vai ficar mais cinco frames aqui, daí não sei o quê, e a música... E como era sutil, e como fazia a coisa ficar mais forte com menos. O grande negócio do Denzel, e que diria também do De Niro, era que eles têm maneiras diferentes de falar que menos é mais. O De Niro chama isso de “restrain intensity”, uma intensidade contida. Sempre penso muito no De Niro e no Denzel, em tudo que faço. O que eles achariam disso que estou fazendo? [risos] 

O seu primeiro trabalho com trilha foi lá atrás com o Paulo Machline. E depois você só teve mais duas colaborações com um cineasta brasileiro, o Bruno Barreto... enfim, até agora você fez pouca coisa aqui no Brasil. O que acha disso?

Posso dizer que isso é uma das minhas grandes frustrações. Gostaria muito, tem muitos diretores brasileiros que admiro como o Walter Salles, o Fernando Meirelles e o Beto Brant e, sei lá, ainda não aconteceu. Sempre estou aberto, sempre estou curioso do que está acontecendo. Acho que tem coisas fantásticas acontecendo, tanto no cinema como na TV. Acho que a TV brasileira deu um pulo muito grande quando entraram os streamings. Tem muitas séries bacanas e diretores geniais. Mas, enfim, passei quase 25 anos querendo fazer animação e acabei finalmente fazendo, então, se Deus quiser, vou ter uma chance de trabalhar com diretores brasileiros. Vai chegar a hora. Quanto ao Bruno Barreto, eu o conheci pela primeira vez quando fui chamado para trabalhar de assistente do Eumir Deodato no filme Bossa Nova [2000]. Acabei escrevendo umas três músicas do filme, nem tive crédito, mas era uma coisa normal porque, às vezes, como assistente você escreve uma coisinha ou outra. Foi bem legal. Anos depois ele me chamou para fazer a trilha de Última Parada 174 [2008] e depois Flores Raras [2013]. Admiro muito o Bruno, ele fez coisas incríveis e tem um controle do cinema muito grande. 

TRABALHO AUTORAL 

Falando um pouquinho do seu trabalho autoral. Como se dão essas composições mais eruditas, com formações pequenas, de câmara, em meio às funções todas da vida e das encomendas e trabalhos? Como ele vai surgindo para você e como você compararia, se é possível comparar, o seu trabalho autoral com o seu trabalho de trilha sonora?

Olha, para mim é tudo uma coisa só e uma informa muito a outra. Comecei a fazer música de olho em histórias, sempre fui interessado nisso. Logo que me mudei para Nova Iorque gravei três discos, mas a gravadora tem uma coisa com alta resolução e eles se recusam a colocar os discos em streamings, então, infelizmente, essas gravações só existem em CD, o que é uma pena porque essas gravações foram meu laboratório de pesquisa. É uma coisa meio música de câmara brasileira com jazz. Um deles se chama Labyrinths [1999] e foi inspirado na obra do escritor Jorge Luiz Borges. Aliás, muito da minha música autoral vem da literatura, como por exemplo “Nepomuk’s Dances”, que fiz para um espetáculo de dança, e é inspirada em um personagem do livro Dr. Fausto de Thomas Mann, e “Olga Benário”, que fiz depois de ler Olga, o livro maravilhoso de Fernando Moraes. Então, quer dizer, história e música sempre foram uma coisa só pra mim. Falando em dança, também considero o trabalho que fiz para a dança tão autoral quanto o que fiz para música de câmara e os discos de jazz, porque na dança você, a partir de uma ideia ou um briefing, faz a música primeiro. Quero muito registrar essas músicas que fiz para espetáculos de dança. 

Tem muitas maneiras de mostrar sua voz, né?

É porque tento levar minha voz pra tudo o que faço. Uma vez jantei com o Philip Glass, cara super legal, super generoso e, obviamente, um dos meus ídolos. E ele falou que tudo que ele fazia, de um jingle a uma ópera, de uma sinfonia a uma trilha sonora, ele via tudo da mesma maneira. Que é a música dele, e que ele vai dar o melhor de si. Isso ficou muito na minha cabeça, de jogar com tudo em tudo que estiver fazendo. Porque uma das coisas interessantes das trilhas é que sua música pode existir fora dos filmes, então justamente por isso tento sempre fazer a coisa mais expressiva, mais emocional e mais musical, porque talvez vai ter uma pessoa do outro lado do mundo que vai ouvir isso daqui a 15 anos, e quero poder continuar transmitindo o que estava sentindo para essa pessoa. 

PRÓXIMOS TRABALHOS 

Para a gente encerrar, Marcelo, você mencionou esse documentário que você está fazendo com o Fuqua sobre o Mandela. O que mais você tem pela frente de trabalhos em cinema?

São dois documentários com o Antoine Fuqua, esse sobre o Mandela e outro sobre a Death Row, a lendária gravadora que lançou Snoop Dogg, Tupac e Dr Dre nos anos 1990. Também vou trabalhar novamente com o Todd Haynes em um drama com Pedro Pascal que se passa nos anos 1930 e será filmado no México. O título provisório é De Noche. Outro projeto é o novo filme do Stephen Chbosky, com quem trabalhei em Extraordinário, que antes de Guerreiras do K-Pop foi o filme de maior sucesso que fiz e tinha Julia Roberts, Owen Wilson e Sonia Braga no elenco. Esse novo do Chbosky se chama Weekend Warriors e terá o Mark Wahlberg protagonizando. Nos streamings, a Netflix deu sinal verde pra quarta temporada da série A Diplomata e continuarei trabalhando, enquanto FX e Hulu vão lançar a minissérie Cry Wolf, com Olivia Colman e Brie Larson, que foi criada por Sarah Treem, com quem trabalhei na série The Affair [2014-19]. Essas são as coisas que estão no horizonte.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

cynthia e ariana, erivo e grande

na edição de janeiro da Revista Monet escrevi os perfis de Cynthia Erivo e Ariana Grande por causa da estreia de Wicked: Parte Dois nos streamings da vida. resolvi colocar os dois textos juntos aqui no blog porque faz sentido pela amizade e respeito profundos que as duas construíram durantes as filmagens da saga Wicked.

O PODER DE CYNTHIA ERIVO

“Não é uma maravilha isso?! Estar nessa posição, neste momento da minha carreira, é, primeiro, um privilégio; e, segundo, uma enorme surpresa. Ser uma dessas pessoas que está prestes a alcançar isso é simplesmente incrível”, disse Erivo sobre sua quase conquista do EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony Awards) para a Billboard em junho do ano passado. A inglesa já bateu na trave duas vezes ao não levar por suas atuações em Harriet e na primeira parte de Wicked. A Academia não indicaria Erivo novamente pelo mesmo papel, como efetivamente aconteceu, e sua Elphaba em Wicked: Parte Dois nem foi indicada. 

Mas o adiamento dessa merecida conquista não tira o sono de Cynthia Chinasaokwu Onyedinmanasu Amarachukwu Owezuke Echimino Erivo, afinal ela sabe que estará na companhia de artistas como Barbra Streisand, Liza Minnelli, Audrey Hepburn, Whoopi Goldberg e Viola Davis (são 21 EGOTs ao total). Então, nada é mais justo que consagrar essa filha de refugiados nigerianos que em apenas dez anos se tornou unanimidade mundial em termos de voz, força e presença. 

Cynthia Erivo já era conhecida por seu canto e intensidade nos palcos londrinos no início dos anos 2010 quando deu um grande salto ao estrear na Broadway, em 2015, no musical A Cor Púrpura (que ela já tinha feito em Londres). O sucesso de sua interpretação de Celie foi imediato – no filme de Steven Spielberg, a personagem foi interpretada por Whoopi Goldberg –, os primeiros prêmios vieram e seu nome passou a ser cobiçado pelo cinema. 

Mas Erivo, muito sabiamente, disse sim para dois filmes nada musicais: As Viúvas (com Viola Davis, Liam Neeson e Colin Farrell) e Maus Momentos no Hotel Royale (com Jeff Bridges, Dakota Johnson, Jon Hamm e Chris Hemsworth), ambos de 2018. Queria mostrar, acima de tudo, que não deixaria ser rotulada por um gênero ou outro. 

Então, já em seu terceiro filme, conseguiu unir atuação dramática e música. Em Harriet (2019), Erivo interpretou a abolicionista Harriet Tubman (1822-1913) na sua luta contra a escravidão nos Estados Unidos. Sua atuação recebeu novos e maiores elogios, foi indicada ao Oscar e co-escreveu e cantou, na trilha sonora do filme, a música “Stand Up” (também indicada ao Oscar). 

“Escrever, cantar e atuar se alimentam mutuamente. Quando canto, me sinto livre e aberta, o que significa que, quando vou atuar - porque já me proporcionei essa experiência -, a vontade de me fechar novamente meio que desaparece. Então, quando estou em um set de filmagem, estou tão aberta quanto quando estou cantando. Estou à espera de receber o que quer que esteja sendo transmitido pelo meu parceiro ou por quem estiver contracenando comigo, para que eu possa realmente ouvir. Porque o ato de escrever e cantar é, na verdade, também o ato de ouvir”, disse em entrevista para a Associated Press. 

Entre palcos e sets, Erivo foi construindo uma carreira diversa e surpreendente. Após a pandemia, a atriz encarnou, por exemplo, tanto a lendária cantora Aretha Franklin na minissérie Genius (2021) quanto uma fada em Pinóquio (2022) ou uma refugiada perdida em uma ilha grega em Drift (2023), e emprestou sua voz para muitas animações, tais como Star Wars: Visions, Garota da Lua e o Dinossauro Demônio e Big Mouth. 

Em meio a tudo isso, lançou seu primeiro disco solo (Ch. 1 Vs. 1, 2021) que foi bem recebido, mas que ela, olhando em retrospecto, acha que tem alguns problemas. Talvez tenha sido o momento atribulado, pois foi bem entre os anos 2021 e 2022 que Erivo assumiu publicamente sua homossexualidade, algo que já sabia e se sentia segura e acolhida por familiares e amigos desde antes da estreia de A Cor Púrpura em Londres. 

“Mas antes eu nunca tinha realmente explorado [minha sexualidade queer], eu nunca tinha realmente descoberto, entendido ou aprendido sobre isso. Foi então que pensei: ‘Nossa, vou interpretar essa mulher que está explorando e aprendendo sobre sua própria sexualidade queer ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que é o amor.’ E algo maravilhoso aconteceu ao mesmo tempo - eu pude fazer o mesmo por mim mesma”, disse em entrevista para Billboard. 

Quando entendeu a personagem e, depois, quando assumiu publicamente sua orientação sexual, Erivo sentiu um alívio que não sabia nem descrever. “É como se meus pés finalmente tocassem o chão. Até mesmo o trabalho que comecei a fazer a partir dali, seja em um set de filmagem ou em um estúdio, passei a fazer muito mais relaxada”. 

E então, para coroar esse momento, surgiu Elphaba em sua vida. Elphaba, a Bruxa Má do Oeste de O Mágico de Oz (1939). Elphaba, a coprotagonista do musical Wicked (2003, e ainda em cartaz). Erivo amava o musical e tinha certeza que ela era, sem sombra de dúvida, Elphaba. Durante três horas de audição, e com febre alta, a inglesa colocou todas suas energias restantes diante do diretor Jon M. Chu, do produtor Marc Platt e dos diretores de elenco. 

Chu ficou muito impressionado. “Acho que escalar Cynthia foi provavelmente a coisa mais inteligente que já fiz na vida. É porque ela encarou isso como uma história muito pessoal e trouxe à tona essas questões sobre o que é se sentir diferente, o que é ter pessoas constantemente dizendo que você precisa agir de uma forma ou de outra para ser aceito, que você precisa provar seu valor para alguém”, disse em entrevista para o site Deadline. 

Wicked, o musical, tem dois atos. Wicked, o filme, também. E as duas partes foram filmadas juntas entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023 (com quatro meses de ensaios antes das filmagens). Todo este longo processo uniu muito todo o elenco – composto ainda por Jonathan Bailey, Bowen Yang, Jeff Goldblum e Michelle Yeoh –, mas principalmente as protagonistas Cynthia Erivo e Ariana Grande. A união, o bom humor, o carinho e o respeito de uma com a outra renderam memes e cortes impagáveis, tanto na mais longa turnê de divulgação de Wicked quanto na menor e mais tumultuada turnê de Wicked: Parte Dois. 

Erivo confessou ao LA Times, em meados de 2024, que ela e Grande “ficaram meio surpresas com o fascínio das pessoas por nós como dupla. Porque estávamos apenas fazendo o que vínhamos fazendo enquanto filmávamos. Quer dizer, passamos muito tempo juntas. Quando você passa tanto tempo com uma pessoa, você acaba ou amando ou odiando. E nós acabamos nos amando”. É química que chama.

ESSA MOÇA TÁ DIFERENTE

Pouco mais de um ano atrás, quando estava divulgando a primeira parte de Wicked, Ariana Grande foi ao cultuado podcast Las Culturistas de Bowen Yang e Matt Rogers e soltou uma bomba. “Vou dizer algo tão assustador – vai deixar meus fãs apavorados, mas eu os amo, eles vão lidar com isso e estaremos aqui para sempre... sempre farei música, sempre subirei ao palco, sempre farei coisas pop, promessa de dedinho. Mas não acho que continuar fazendo o que fiz no ritmo dos últimos 10 anos seja o que vejo para meus próximos 10 anos”, confessou. 

Então, entre risadas emocionadas, a cantora e atriz completou que “estou querendo me reconectar com essa parte de mim que começou no teatro musical e que ama comédia. Estou buscando papéis para usar essas partes de mim, qualquer coisa que faça sentido, ou qualquer papel seja adequado, ou onde possa realmente fazer um bom trabalho ou honrar o material. Acho que esse é um cenário muito melhor para mim.” 

Do alto de seus 32 anos, Ariana Grande-Butera construiu, de 2013 em diante, um reinado pop a partir de 7 álbuns e 90 milhões de discos vendidos. O mais recente, Eternal Sunshine, é de 2024 e, passados os lançamentos dos dois Wicked, Grande prometeu aos fãs que faria uma série de shows, o que não fazia desde 2019. O resultado é que, de junho a setembro, a artista fará 41 shows e pronto. Mas não necessariamente um ponto final. 

Recentemente, durante o lançamento de Wicked: Parte 2, Grande foi a outro podcast – o premiado ‘Good Hang’ da atriz Amy Poehler – e voltou a ser muito sincera sobre o futuro próximo. “Estou muito animada para fazer essa pequena turnê, mas acho que isso pode não acontecer de novo por muito, muito, muito, muito tempo”, disse ela. “Então vou dar tudo de mim e vai ser lindo, e acho que é por isso que estou fazendo isso, porque é como um último suspiro.” 

Antes dos filmes Wicked, Grande trazia consigo experiências de atriz nas sitcons que fez quando adolescente/jovem adulta (Brilhante Victória e Sam & Cat) e um papel pequeno e impagável na comédia Não Olhe Pra Cima (2021), contracenando com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence. Mas o reconhecimento por sua atuação como Glinda em Wicked com uma indicação a um Oscar (de Atriz Coadjuvante) deu um gás em sua mudança de trajetória, e Grande já está comprometida com uma comédia com Ben Stiller (Focker-in-Law), uma série de Ryan Murphy (nova temporada de American Horror Story) e uma animação (Oh, the Places You'll Go!). 

Coincidência ou não, Ariana Grande é mais uma estrela pop da atualidade que parece estar se mudando para o cinema e streamings. Selena Gomez, que também começou cedo em sitcons infanto-juvenis e também possui um império de cosméticos como Grande, vem colhendo o sucesso por suas performances na série Only Murders in the Building e no filme Emilia Perez e não pensa em outra coisa. Bem como Charli XCX, que mesmo com o sucesso estrondoso de seu último disco (Brat), afirmou que seus interesses artísticos agora são atuar e compor para cinema. E tudo certo. O lugar delas é onde elas quiserem.

Ariana e Cynthia entrevistadas por Gloria Groove durante passagem pelo Brasil

sábado, 20 de dezembro de 2025

ma ôe

dose dupla na edição de dezembro da Monet. de um lado, Taylor Swift (que acho que não colocarei aqui). do outro, um novo filme sobre Sílvio Santos. em Silvio Santos Vem Aí!, Leandro Hassum encarna o lendário comunicador durante a estranha, oportunista e mal sucedida tentativa de se candidatar à presidência (na primeira eleição democrática para o cargo desde o fim da ditadura). peguei aspas de Hassum e da co-protagonista Manu Gavassi de um material divulgado para a imprensa, mas entrevistei a diretora Cris D'Amato. o resultado tá aqui.

 
É NAMORO OU AMIZADE

Silvio Santos Vem Aí! traz Leandro Hassum como um dos maiores comunicadores brasileiros em sua tentativa de se tornar Presidente da República

Quando Silvio Santos morreu em 17 de agosto de 2024, aos 93 anos, seus milhões de fãs não puderam velá-lo. É que uma das figuras públicas mais conhecidas da história brasileira quis que sua morte fosse um momento tão íntimo da família como foi sua vida pessoal. Ele sabia também que sua voz, seu humor e seu poder de comunicação permaneceriam vivos e que assim, e somente assim, gostaria de ser lembrado. Mas não custa imaginar o que existe por trás da máscara e é justamente isso que faz Sílvio Santos Vem Aí!, protagonizado por Leandro Hassum e lançamento do mês na Claro.
 
Ninguém nunca viu o Silvio Santos entre quatro paredes na casa dele. Como era o Silvio Santos? Como ele falava com as suas filhas? Como ele falava com a sua esposa? Porque o que a gente tem é o que a gente viu gravado. Então, o Silvio, na sua intimidade, é uma incógnita, e aí ele virou uma personagem de ficção para a gente. Acho que o Silvio merece muitos filmes, muitos recortes, porque a vida dele é muito rica”, explicou a diretora Cris D’Amato.
 
Especialista em comédias de sucesso para o cinema tais como SOS – Mulheres ao Mar (1 e 2), A Sogra Perfeita (1 e 2) e Pai em Dobro, D’Amato foi apresentada ao projeto pela produtora Verônica Stumpf em 2019 e a princípio pensou em não aceitar porque achou que era pouco tempo para muita vida. Então, para desanimá-la ainda mais, apareceu um outro longa (Silvio, com Rodrigo Faro, que seria lançado em 2020, mas por causa da pandemia só foi em 2024) e uma série (O Rei da TV, com José Rubens Chachá, que teve duas temporadas em 2022 e 2023). Só que o recorte da vida de Silvio Santos escolhido pelo roteirista Paulo Cursino era bom demais para deixar passar.
 
QUEM QUER DINHEIRO?
 
O ano é 1989 e Silvio Santos já era o lendário comunicador e empresário que todos conhecemos. A voz, o deboche, o começo como radialista, os programas de auditório na TV, o Baú da Felicidade do ex-camelô, o dono de concessões de emissoras de TV (dadas pelo presidente Ernesto Geisel em meados da década de 1970, durante a ditadura militar), o programa ufanista ‘Semana do Presidente’ (um agrado ao General Figueiredo, o último presidente militar), tudo de Silvio Santos já existia em 1989.
 
Então, meio que do nada, Silvio anunciou que iria se candidatar à Presidência da República a pouco mais de duas semanas antes do primeiro turno da primeira eleição para presidente após o fim da ditadura. A história de Sílvio Santos Vem Aí! pega o personagem nesse momento. “É um recorte pouco conhecido do público, o dessa época. Os bastidores do programa, as motivações políticas, como é a família e ele na intimidade, tudo vai sendo descoberto para o espectador pela personagem da Manu Gavassi, que é uma diretora de marketing que vai assessorá-lo na campanha. E aí, nos encontros dela com ele, a gente vai descobrindo um pouco da vida do Silvio Santos”, diz D’Amato.
 
Marília, a personagem de Gavassi, funciona como o espectador que vive se equilibrando entre a desconfiança e o encantamento em relação a Silvio. “Achei muito curioso quando esse convite chegou a mim porque não tenho nenhuma relação com ele. Mas depois li o roteiro e entendi que a personagem tinha esse perfil questionador e curioso, que acho que as pessoas veem muito em mim também. Ela não estava convencida sobre o Silvio e sempre com respeito e profissionalismo ousava questionar as atitudes e intenções dele”, afirmou a atriz em material divulgado para a imprensa.
                                                   
QUER PEDIR AJUDA AOS UNIVERSITÁRIOS?
 
Já Leandro Hassum, o protagonista, tem muitas lembranças de Silvio Santos. Por exemplo, tinha 16 anos em 1989 e aquela eleição presidencial também foi sua primeira, então lembrava de todo o quiproquó da candidatura, da empolgação à frustração. Mas recordava, acima de tudo, do carisma do apresentador saltando da telinha toda santa tarde de domingo.
 
“Nunca imitei o Silvio Santos, nunca usei essa ‘arma’ para a minha comédia, porque, afinal de contas, sou ator e não imitador. Então, tentei pegar o espírito dele, o espírito da animação, o jeito do apresentador, e trazer para perto no gestual, no caminhar, na postura, a maneira de se comportar. E isso foi me trazendo o Silvio Santos, pela interpretação mesmo, o que acabou ficando, a meu ver, uma grande homenagem a ele”, confessou Hassum no release do filme.
 
É que todo mundo acha que sabe imitar o Silvio, e justamente por isso o ator resolveu fazer o caminho inverso e a partir da preparação corporal que a voz do personagem surgiu. “Quando faço um personagem fictício, posso usar minhas cartas na manga da comédia e tudo mais. Quando interpreto uma personalidade que realmente existiu, e com a proporção e o tamanho do Silvio, tenho que respeitar isso. Não dá para improvisar e fazer com que o público esqueça que estou contando a história do maior comunicador do Brasil”.
 
QUAL É A MÚSICA?
 
O comprometimento de Hassum foi tão grande que a diretora Cris D’Amato não passou um dia no set sem se impressionar. “Acho o Leandro muito próximo ao Sílvio no que diz respeito à composição da personagem. Era assustadoramente parecido, dava até nervoso”, diz rindo.
 
Para confirmar sua impressão sobre a caracterização de Hassum, D’Amato resolveu pedir então que, na hora de contratar a figuração, chamassem pessoas que participavam das caravanas que iam ao programa de Silvio Santos. O resultado foi uma torrente de emoções para todos os envolvidos. Hassum relembra que “foi muito impactante quando entrei em cena como Silvio e vi muitas pessoas chorando porque tiveram a sensação de estar vendo novamente o Silvio ali. Uma senhora chegou a me pegar pelo braço e me disse “estou te vendo aqui, estou pegando na mão do Silvio Santos”. Foi um momento de arrepiar e agora, só de falar, arrepio novamente”.
 
Por essas e outras emoções que tanto a diretora Cris D’Amato quanto o ator Leandro Hassum fazem questão de frisar que Silvio Santos Vem Aí! não é uma comédia, mesmo que ambos sejam conhecidos por terem produzido alguns dos filmes mais populares do gênero no país nos últimos anos.
 
“Isso mesmo, realmente não é uma comédia, mas existem passagens muito engraçadas. A partir do momento em que o filme chega ao domingo, que era o domingo inteiro dele, a gente vai permeando o filme com momentos divertidos com Domingo no Parque, Namoro ou Amizade, Topa Tudo Por Dinheiro, Show de Calouros, vários momentos icônicos na TV. Então tem cenas muito divertidas, mas sempre com o objetivo de contar a história. Nada de piada pela piada”, explicou Hassum. Sempre rir, mas com naturalidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

90 músicas e 55 discos gringos de 2025

O ano musical brasileiro foi muito bom, mais uma vez, e com alguns destaques acima da média, como sempre. Mas acho quase com certeza que as músicas que mais ouvi em 2025 foram gringas, com destaque para “Drop” do Tunde Adebimpe (TV On The Radio) e “Street Light Moon” do Sons of Sevilla. Mas também rolaram bastante instrumentais como a dos australianos do Surprise Chef (“Fare Evader”), da inglesa Anoushka Shankar (“Daybreak”), dos texanos Khruangbin (“White Gloves ii”) e dos alemães Bacao Rhythm & Steel Band (“Maria También”, que também é do Khruangbin).
 
No mais, foi particularmente difícil escolher uma música só de alguns dos mais potentes discos de 2025: Lux de Rosalía, Boleros Psicodelicos 2 do Adrian Quesada, DeBÍ TiRAR MáS FOToS de Bad Bunny, Hourglass do Antibalas, Cancionera de Natalia Lafourcade e Heroina de Sevdaliza. Então, sem mais blábli, segue a playlist...
 

90 MÚSICAS GRINGAS DE 2025
 
Adrian Quesada – “No Juego” [ft. Angélica Garcia]
Aesop Rock – “Roadwork Rappin”
Aloe Blacc – “Breakthrough”
Amaarae – “S.M.O.”
Aminé – “Familiar”
Ana Tijoux – “Muévelo”
Animal Collective – “Buddies on the Blackboard”
Anoushka Shankar – “Daybreak”
Antibalas – “Solace”
Arcade Fire – “Year of the Snake”
Atmosphere – “Really”
Bacao Rhythm & Steel Band – “Maria También”
Bad Bunny – “NUEVAYoL”
BadBadNotGood – “Found a Light (Beale Street)” [ft. V.C.R]
Bishop Nehru – “Nothing to Lose”
Blood Orange – “Mind Loaded” [ft. Caroline Polachek, Lorde & Mustafa]
Blundetto – “Coteau Caché” [ft. Pupajim]
Bomba Estéreo – “La Bilirrubina”
Brother Ali – “D.R.U.M.”
Capicua – “Ao Ocaso” [ft. Toty Sa'med]
Chance the Rapper – “Tree” [ft. Lil Wayne & Smino]
Cochemea – “Omeyocan”
DakhaBrakha – “9 Nedilechok”
Danger Mouse & Black Thought – “Up” [ft. Rag'n'Bone Man]
Daniel, Me Estás Matando – “Se Equivocó”
David Byrne – “What Is The Reason For It?” [ft. Hayley Williams]
De La Soul – “Run It Back” [ft. Nas]
Dear Silas – “Still Southern Playalistic”
Dijon – “Another Baby!”
Earl Sweatshirt – “Heavy Metal aka ejecto seato!”
El Michels Affair – “Mr. Brew”
Eva B & Taimour Baig – “Black Vigo”
Flea – “A Plea”
Gorillaz – “Damascus” [ft. Omar Souleyman & Yasiin Bey]
Greentea Peng – “Stones Throw”
Hermanos Gutiérrez – “Elegantly Wasted” [ft. Leon Bridges]
Hope Tala – “Magic or Medicine”
Hot Chip & Sleaford Mods – “Cat Burglar”
Indys Blu – “Saddest Song”
Jalen Ngonda – “All About Me”
Jeff Goldblum & The Mildred Snitzer Orchestra – “The Best Is Yet To Come” [ft. Scarlett Johansson]
Jorja Smith – “The Way I Love You”
Kali Uchis – “Territorial”
Kamauu – “Anthem”
Karol G – “Latina Foreva”
Kaytranada – “Space Invader”
Khruangbin – “White Gloves ii”
Kim Gordon – “Bye Bye 25”
Kokoroko – “Da Du Dah”
La Boa – “La Maquina de Tony”
Laufey – “Snow White”
Lea Maria Fries – “Witch's Broom”
Lella Fadda – “Tarat Tarat Tat”
Lido Pimienta – “Aún Te Quiero”
Lily Allen – “Nonmonogamummy”
Little Simz – “Young”
Lizzo – “Love in Real Life”
Lous and The Yakuza – “Sad Boy's Anthem”
Lupe Fiasco – “SOS”
Mark Ronson & Raye – “Suzanne”
Mick Jenkins – “Publix”
Moonchild Sanelly – “Falling”
Natalia Lafourcade – “Luna Creciente” [ft. Hermanos Gutiérrez]
Nightmares On Wax – “Bang Bien” [ft. Yasiin Bey]
Olympia Vitalis – “Painted Smiles”
Pachyman – “Hard to Part”
Panda Bear – “Ends Meet”
RaiNao – “Sofocón”
Rapsody & Madlib – “Daddy's Girl”
Rema – “Kelebu”
Rosalía – “Berghain” [ft. Björk & Yves Tumor]
Sam Akpro – “I Can't See The Sun”
Şatellites – “Yok Yok”
Seun Kuti & Egypt 80 – “Move (Keep Moving Version)” [ft. Kamasi Washington]
Sevdaliza – “Heroina” [ft. La Joaqui]
Skiifall – “Her World” [ft. Jorja Smith]
Skunt (Lady Leshurr) – “Tobasco”
Sons of Sevilla – “Street Light Moon”
Sudan Archives – “My Type”
Surprise Chef – “Fare Evader”
The Animeros – “Ponchote de Ritmo”
The Bongolian – “Master Blaster Tendulkar”
The Diasonics – “Larks”
The Olympians – “California”
The Young Gods – “Blackwater”
Tigerbalm & Giorgio Lopez – “Nayar”
Timbaland – “Lion's Roar”
Tunde Adebimpe – “Drop”
Yamê – “Shoot”
Yukimi – “Sad Makeup”

 
55 DISCOS GRINGOS DE 2025
 
Já falei logo acima de alguns dos discaços gringos do ano – Lux de Rosalía, Boleros Psicodelicos 2 do Adrian Quesada, DeBÍ TiRAR MáS FOToS de Bad Bunny, Hourglass do Antibalas, Cancionera de Natalia Lafourcade e Heroina de Sevdaliza –, então agora quero destacar outras belezuras de outros países.
 
Tem o retorno da rapper portuguesa Capicua (Um Gelado Antes do Fim do Mundo), a bossa francesa do produtor Blundetto (Cousin Zaka Vol. 3), o jazz funk originário do Cochemea (Vol 3: Ancestros Futuros), o pop afiado da ganense-americana Amaarae (Black Star), o mergulho afrobeat do veterano Timbaland (Timbo Progression), a inquietude genial do mestre David Byrne (Who Is The Sky?), mais um fino acerto da rapper inglesa Little Simz (Lotus), as colombianices pop de Kali Uchis (Sincerely: P.S.) e Karol G (Tropicoqueta), e a novidade adubada com raízes porto-riquenhas de Pachyman (Another Place).
 
Adrian Quesada - Boleros Psicodelicos 2
Aesop Rock - Black Hole Superette
Aloe Blacc - Stand Together
Amaarae - Black Star
Aminé - 13 Months of Sunshine
Anoushka Shankar - Chapter III: We Return to Light
Anthony Joseph - Rowing Up River To Get Our Names Back
Antibalas - Hourglass
Arcade Fire - Pink Elephant
Atmosphere - Jestures
Bacao Rhythm & Steel Band - Big Crown Vaults Vol. 4
Bad Bunny - DeBÍ TiRAR MáS FOToS
Blood Orange - Essex Honey
Blundetto - Cousin Zaka Vol. 3
Bonbon Vodou - Épopée Métèque
Brother Ali - Satisfied Soul         
Ca7riel & Paco Amoroso - Papota
Capicua - Um Gelado Antes do Fim do Mundo
Chance the Rapper - Star Line
Cochemea - Vol 3: Ancestros Futuros
David Byrne - Who Is The Sky?
De La Soul - Cabin in the Sky
Dijon - Baby
Earl Sweatshirt - Live Laugh Love
El Michels Affair - 24 Hr Sports
Freddie Gibbs & The Alchemist - Alfredo 2
Jeff Goldblum & The Mildred Snitzer Orchestra - Still Blooming
Kali Uchis - Sincerely: P.S.
Karol G - Tropicoqueta
Kaytranada - Ain't No Damn Way!
Khruangbin - The Universe Smiles Upon You II
Kokoroko - Tuff Times Never Last
La Boa - La Boa Meets Tony Allen
Laufey - A Matter of Time
Lido Pimienta - La Belleza
Lily Allen - West End Girl
Little Simz - Lotus
Lizzo - My Face Hurts From Smiling
Mavis Staples - Sad and Beautiful World
Natalia Lafourcade - Cancionera
Nightmares on Wax - Echo45 Sound System
Pachyman - Another Place
Panda Bear - Sinister Grift
Rosalía - Lux
Sam Akpro - Evenfall
Sevdaliza - Heroina
Sudan Archives - The BPM
Surprise Chef - Superb
The Bongolian - Indian Summer Love
The Diasonics - Ornithology
The Young Gods - Appear Disappear
Timbaland - Timbo Progression
Tunde Adebimpe - Thee Black Boltz
Tyler, The Creator - Don’t Tap the Glass
Yukimi - For You

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

54 músicas e 36 discos brasileiros de 2025

Entra ano e sai ano – estou fazendo essas retrospectivas desde 2009 – e continuo sem saber definir como foi a música brasileira do ano que passou. Que cara ela teve? Algum gênero? Alguma região? Faço a mínima ideia e acho que isso é bom. Ah, pra não ser tão vago, tenho uma certeza, mas só posso dizer por mim mesmo: tenho ouvido música brasileira de mais lugares e de uma maior variedade de pessoas, vivências, estímulos. 

Sei também que foi muito difícil escolher uma música só do disco do Don L e do Baco Exu do Blues, bem como do Rodrigo Ogi & niLL, do Seu Pereira e Coletivo 401, do Siba e do Mateus Fazeno Rock. 

Só dois artistas emplacaram duas faixas na lista porque não eram do mesmo trampo. Alessandra Leão veio com “Onça” (do disco com Sapopemba) e “Tatuzinho” (parceria com Kiko Dinucci que Alessandra já havia gravado no discos Brinquedo de Tambor e Pedra de Sal e agora volta como arrocha em dueto com Liniker e acompanhadas por Chico Correa). E Thiago França chegou com mais instrumentais pedrada com sua Charanga e outro instrumental poderoso, mas dessa vez em parceria com o bróder Marcelo Cabral. Sem mais...

 


54 MÚSICAS BRASILEIRAS DE 2025

A Espetacular Charanga do França – “Charanga Pagodão”
Abacaxepa – “Beijo Safado” [ft. Felipe Cordeiro]
Afrocidade – “Orìkí”
Alessandra Leão & Sapopemba – “Onça” [ft. Thais Nicodemo, Tamiris Silveira & Marcelo Cabral]
Alessandra Leão & Liniker – “Tatuzinho” [ft. Chico Correa]
Arnaldo Antunes – “Pra Não Falar Mal” [ft. Ana Frango Elétrico]
Arthur de Faria & Pedro Longes – “Bela Baila”
Baco Exu do Blues – “Romance Latino” [ft. Teto]
Bárbara Eugênia – “Pare” [ft. Rafael Castro]
Carlos Dafé & Adrian Younge – “O Baile Funk Vai Rolar”
Clube do Balanço – “Pacutiquibê Iaô”
Crizin da Z.O. – “Repetição Um” [ft. Kiko Dinucci]
Daúde & Lia de Itamaracá – “As Negras”
Deize Tigrona – “Melhor Amiga” [ft. MC Tha]
DJ Caique – “Salsa Groove”
Dom Salvador, Adrian Younge & Ali Shaheed Muhammad – “Não Podermos o Amar Parar”
Don L – “Bandido”
Dona Onete – “Quatro Contas”
Drik Barbosa – “Sob Medida” [ft. Cristal & Stefanie]
Duda Beat – “Foimal” [ft. Boogarins]
Elo da Corrente & BEATDOMK – “Sem Acordo”
Emicida – “Finado Neguim Nemo?”
FBC & Coyote Beatz – “Cabana Terminal”
Felipe Antunes – “Embarcação”
Filarmônica de Pasárgada – “Ladeira da Memória” [ft. Ná Ozzetti]
Gang do Eletro – “Baladeira”
Jadsa – “Big Bang”
Johnny Hooker & Ney Matogrosso – “Viver e Morrer de Amor na América Latina”
Karnak – “Carlevindo é Boy”
Lucas Santtana & Gilberto Gil – “A História da Nossa Língua”
Luedji Luna – “Apocalipse” [ft. Seu Jorge & Arthur Verocai]
Marcelo D2 – “Tataruê”
Marietta – “Fogo Sagrado” [ft. A Pretaa]
Marina Sena – “Lua Cheia”
Mateus Fazeno Rock – “Melô do Sossego” [ft. Fernando Catatau]
Moreno Veloso & Jussara Silveira – “O Cortejo Afronta”
Pabllo Vittar & Nathy Peluso – “Fantasía”
Pai Guga – “Lua Rosa”
Parteum – “Raciocínio Inteiro”
Pélico e Ronaldo Bastos – “Infinito Blue”
Professor M.Stereo – “Picles de Manga”
Rachel Reis – “Tabuleiro” [com Don L, Nêssa & Rincon Sapiência]
Rei Lacoste – “Leão do Norte”
Rodrigo Ogi & niLL – “Abdul São”
Seu Pereira e Coletivo 401 – “Um Dia” [feat. Totonho e Os Cabra]
Siba – “Máquina de Fazer Festa”
Síntese – “Luzes”
Thiago França & Marcelo Cabral – “Angolana”
Totonho e Os Cabra – “Sulandê” [ft. Mestra Ana do Côco]
Tulipa Ruiz & Yehaiyahan – “Alongo”
Urias – “Deus” [ft. Criolo]
Wado – “Jão” [ft. Fábio Trummer]
Xamã – “Catucada na Bandida” [ft. O Kannalha]
Yago Oproprio – “Percepción”

36 DISCOS BRASILEIROS DE 2025

Como sempre, dentre os discos que mais me pegaram no ano, tem uns que me pegaram mais. O disco do cearense Don L (Caro Vapor II) é uma explosão de vitalidades, referências e assuntos; enquanto o encontro dos paulistas Rodrigo Ogi e niLL (Manual para Não Desaparecer) é rap old school com olhos no futuro e cheiros de cidade grande. Tem também muito de Bahia com novos trabalhos intensos do Baiana System (O Mundo Dá Voltas) e de Baco Exu do Blues (Hasos), a estreia poderosa e diversa de Rei Lacoste (O Que Você Ouve/O Que Houve Com Você) e a classe suprema de Luedji Luna (que após cinco anos sem gravar, lançou, na verdade, logo dois discos, Um Mar Pra Cada Um e Antes Que A Terra Acabe). 

E como é bom ouvir veteranos produzindo novas belezas. Os discos de Mateus Aleluia e Dom Salvador são grandes preciosidades. 

Vale também destacar os trabalhos do cearense Mateus Fazeno Rock, da baiana Jadsa, dos paraibanos do Seu Pereira e Coletivo 401 e de regulares da casa como Siba, A Espetacular Charanga do França e Alessandra Leão (dessa vez com Sapopemba). Bom demais ouvir as ótimas estreias solo de Pai Guga (Amplexos) e Professor M.Stereo (Tiago Munhoz, beatmaker paulistano que foi do Ascendência Mista, Contrafluxo e Mamelo Sound System). 

Por último, dois belos trabalhos do agora produtor Pupillo (ex-Nação Zumbi): o Novo Mundo de Arnaldo Antunes e Pelos Olhos do Mar, encontro lírico e ancestral de Daúde & Lia de Itamaracá. 

A Espetacular Charanga do França - Bololô
Alessandra Leão & Sapopemba - Exu Ajuô
Arnaldo Antunes - Novo Mundo
Arthur de Faria & Pedro Longes - Canciones con Drama
Baco Exu do Blues - Hasos
Baiana System - O Mundo Dá Voltas
BK' - Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer
Crizin da Z.O. - ACLR+6
Daúde & Lia de Itamaracá - Pelos Olhos do Mar
Dom Salvador - Jazz is Dead 24
Don L - Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento?
Emicida – Racional Vl. 2: Mesmas Cores & Mesmos Valores
FBC - Assaltos & Batidas
Felipe Antunes - Embarcação
Filarmônica de Pasárgada - Rua Teodoro Sampaio, 1091
Gaby Amarantos - Rock Doido
Gang do Eletro - No Embalo do Tecnobrega
Jadsa - Big Buraco
Luedji Luna - Um Mar Pra Cada Um
Marcelo D2 - Manual Prático do Novo Samba, Vol. 3
Marina Sena - Coisas Naturais
Mateus Aleluia - Mateus Aleluia
Mateus Fazeno Rock - Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem
Negra Li - Silêncio Que Grita
Pai Guga - O Túmulo do Mergulhador
Papatinho - MPC (Música Popular Carioca)
Pélico & Ronaldo Bastos - A Universa Me Sorriu
Professor M.Stereo - Windows
Rachel Reis - Divina Casca
Rei Lacoste - O Que Você Ouve/O Que Houve Com Você
Rodrigo Ogi & niLL - Manual Para Não Desaparecer
Seu Pereira e Coletivo 401 - Obsoleto
Siba - Máquina de Fazer Festa
Totonho e Os Cabra - Ai Dentu: Funk de Embolada e Hip Hop do Mato
Urias - Carranca
Wado - Obstrução Samba