taí a matéria de capa da revista monet de maio. o grande desafio desse texto era achar um jeito diferente e atual de lidar com um tema tão batido (e o mote para a revista foi a chegada de tropa de elite 2 em ppv e em um sistema de video on demand que está estreando na net). os colegas aqui da revista, sarah mund e itaici brunetti perez, fizeram as entrevistas e eu reuni tudo, editei e costurei no texto tendo em vista capitão nascimento e o bope como fenômenos pop. deu trabalho, viu? mas fiquei bem feliz com o resultado.
ELITE DO CINEMA
Um dos participantes da última edição do Big Brother Brasil mal colocou os pés na casa e já saiu batendo no peito e gritando que era “faca na caveira”. No bar um amigo fala para o outro: “você é um fanfarrão!”, repetidas vezes. De repente, passando por um ponto de táxi, é possível ouvir um “pede pra sair” ou então “se quer me foder, me beija”. Coisas assim tem acontecido, em qualquer lugar do Brasil, desde 2007, ano da estréia nos cinemas de Tropa de Elite, de José Padilha. Agora, com a chegada de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro à TV pó assinatura, um ciclo se fecha. Mas o Brasil nunca mais será o mesmo após conhecer a face atormentada de Roberto Nascimento, o Capitão Nascimento. Muito menos as pessoas envolvidas na produção de ambos os filmes.
PADILHA, por exemplo. Em menos de dez anos transformou-se no diretor mais quente do cinema brasileiro, ultrapassando os colegas Walter Salles e Fernando Meirelles. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim pelo primeiro Tropa, com Tropa 2 quebrou um tabu de mais de três décadas o transformando no filme brasileiro mais visto de todos os tempos, e agora se prepara para dirigir um episódio da produção internacional Rio, Eu Te Amo, enquanto não assina o contrato para a refilmagem de RoboCop. Mas o que fez um cineasta e produtor de documentários de prestígio e de público restrito conseguir tocar tão fundo no imaginário popular brasileiro?
“Acho que em Tropa de Elite 1 e 2 aconteceu um fenômeno de sobreposição, uma soma de dois efeitos: a emoção da dramaturgia dos filmes se somou as emoções que o público já sentia a respeito dos traficantes, do policiais e dos políticos nele representados. Na minha opinião, foi isso que fez com que os filmes se tornassem populares”, explicou Padilha por e-mail. Se o primeiro Tropa pegou a todos de surpresa com um relato cru do cotidiano de guerra urbana no Rio de Janeiro, e sob inédito ponto de vista do policial, o Tropa 2 deixou claro que o conflito nas favelas e o narcotráfico são apenas pálidos reflexos de uma guerra muito maior por poder e dinheiro envolvendo o crime organizado, políticos e policiais corruptos (reunidos em milícias). E isso acontece conforme o espectador acompanha Nascimento saindo das ruas para ganhar os gabinetes na função de Subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro.
Essa percepção mais aguçada sobre a realidade brasileira também pegou o ator André Ramiro, outro membro da equipe que teve sua vida mudada em muito pouco tempo. Rapper e ex-porteiro de cinema, Ramiro teve sua primeira experiência como ator ao interpretar Matias, que volta em Tropa 2, cada vez mais parecido com o Capitão Nascimento do primeiro Tropa, mas sem a mesma experiência. “Minha vida mudou no sentido de que agora realmente tiro o meu sustento daquilo que eu sempre quis viver: da arte. Poder respirar, fazer, estudar arte e ter a oportunidade de conhecer coisas que eu não conhecia”, diz Ramiro, e aproveita para anunciar que seu disco de estréia, Crônicas de um Rimador, sai este ano e traz participações de Gabriel o Pensador e Dudu Nobre.
Mas houveram outras reviravoltas em sua vida. “O que mudou na verdade foi a minha visão do ser humano por debaixo da farda. Não exatamente a instituição. Tem uma frase em inglês que acho muito bacana, acho pertinente para esse momento, que é ‘Don’t hate the players. Hate the game’. Eu não odeio os jogadores, só não concordo com o jogo.” E ainda refletindo a experiência dos dois filmes completa que “na maneira que me envolvi com esse projeto fica difícil não perceber que na verdade irmão está matando irmão. É o policial que não é bem remunerado e o traficante que nem sempre está na vida que escolheu. Ou seja, quem é a vítima? O policial é tão vítima quanto o traficante e vice-versa.”
PAULO STORANI é outro personagem importante nessa saga e representando o lado fardado da história. Ex-integrante do BOPE, o carioca foi responsável pelos treinamentos dos atores e chegou a ter o nariz quebrado por Wagner Moura durante os ensaios do primeiro Tropa. Também vieram dele algumas das gírias mais conhecidas dos filmes. “Daqui a dez anos, pesquisadores irão mostrar o que o filme representou para o esclarecimento e mobilização das pessoas em torno da segurança pública. A cortina caiu. Nenhum carioca poderá dizer que não sabia do que ocorreu e que ocorre no Rio, e que não é diferente de qualquer lugar do Brasil.”
Orgulhoso de sua participação e do resultado cinematográfico, Storani fez questão de frisar durante a entrevista os princípios que nortearam o treinamento de seus pupilos: mudança constante de cenário, adaptação e superação. “Sabia que Tropa suscitaria discussões profundas, principalmente por concorrerem contra um histórico de filmes nacionais que quando tratam de temas relacionados com a segurança pública, contam a história de bandidos que passam a heróis, despossuídos que não tem outra opção senão roubar, traficar e matar. Os dois Tropa de Elite foram fiéis à realidade e imparciais, mostrando de uma forma inédita os dramas que envolvem as pessoas que trabalham na segurança pública, pessoas honradas e desonradas, mas acima de tudo o BOPE saiu fortalecido. Os heróis saíram do anonimato e passaram a ter seu trabalho reconhecido, além do batalhão ter sido humanizado.”
Só que existe uma armadilha aí nessa atual relação de boa vizinhança entre policiais e civis, e quem aponta é Luiz Eduardo Soares, escritor, cientista social e ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. “Se o BOPE persistir por uma unidade violenta, tentando surfar na onda do primeiro filme, vai pagar um preço altíssimo também pela sua própria imagem, porque ficou muito claro no segundo filme que a violência policial não é uma solução, e sim parte de um problema.” Co-autor de Elite da Tropa (Objetiva) e Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira), os livros que serviram de pontapé inicial para os roteiros, Soares aproveita para costurar uma descrição muito afiada do Capitão Nascimento, personagem ficcional próximo de tantas pessoas de carne e osso. “A intenção era apresentar ali um anti-herói, uma pessoa atormentada, capaz de tortura, assassinato, desesperada e sem rumo, que acabava contribuindo para a reprodução do ciclo da violência, mesmo sendo uma pessoa com muitos valores positivos, muitas virtudes também, a simplicidade, a vontade de acertar, o compromisso de cumprir um papel positivo na sua área de atuação.” Portanto, quem o viu como herói, como uma resposta armada para as mazelas sociais brasileiras, precisa urgentemente rever seu conceito de heroísmo.
Em meio a esse fogo cruzado, Padilha também foi muitas vezes vítima, mas as acusações de glorificar um personagem violento e controverso já foram superadas. “Não fiz o filme para responder a crítica, fiz o filme para completar a exposição que iniciei em Onibus 174 e Tropa de Elite, e para mostrar a relação direta que existe entre a corrupção na política e os problemas da segurança pública que abordei nos filmes anteriores”, afirmou Padilha que, entre um Tropa e outro, dirigiu dois documentários, Garapa (sobre a fome no Nordeste) e Segredos da Tribo (que trata da relação conflituosa entre antropólogos e os índios ianomâmi).
MAS SERÁ QUE todo esse fuzuê ao redor dos filmes foi além das piadinhas de bar? Será que o Capitão Nascimento inspirou uma nova geração de guardiões da lei? Rodrigo, 29 anos, soldado da Polícia Militar do Estado de São Paulo a cinco anos, acha que não: “A maioria das pessoas ainda entra na polícia pela dificuldade de encontrar emprego”, o que não foi seu caso, pois sempre desejou ser policial. Já Thiago Marques Guilherme, 23 anos, está estudando para o concurso da polícia civil e disse que assistir os filmes lhe “deu mais vontade de entrar para tentar fazer alguma coisa, mas não que eu vá ser um capitão Nascimento, né?”
E os filmes retrataram a corporação fielmente? Ambos acreditam que sim. “Tenho um amigo policial que me contou que na polícia tem muita coisa mostrada no filme que realmente acontece. É uma questão de se mostrar e não omitir”, disse Thiago, enquanto Rodrigo vai um pouco mais fundo ao afirmar que os filmes são “um tapa na cara de muito oficial, de muito político e muito governante aqui do Brasil. Sei que o filme se passa no Rio de Janeiro, mas serve para a realidade de qualquer polícia do Brasil. Infelizmente não teve a repercussão que deveria ter tido para poder acontecer alguma mudança. Tem muita coisa envolvida nisso, até dinheiro. Acho que, por exemplo, partes da polícia de São Paulo vivem ainda muito à sombra da ditadura, assim como muitos governantes e políticos.”
OUTRO PERSONAGEM REAL e importantíssimo para Tropa de Elite 2 é justamente um político. Em seu segundo mandato, o deputado estadual Marcelo Freixo serviu como base para o roteirista Bráulio Mantovani criar Diogo Fraga (Irandhir Santos), um professor de História que se torna político após trabalhar em uma ONG cujo tema principal é a defesa dos direitos humanos. Na vida real, Freixo foi presidente da crucial CPI das Milícias que, em 2008, jogou no colo dos cariocas/brasileiros o envolvimento de alguns de seus colegas de Assembléia Legislativa em assassinatos, extorsões e outras tantas infrações do Código Penal. Até hoje é ameaçado de morte por isso.
Fã dos filmes, e sem nenhum envolvimento com as produções, Freixo viu sua luta (e a de muitos outros e outras) ganhar altas injeções de adrenalina na segunda parte da jornada de Roberto Nascimento. E gostou, confessa. “O Tropa 2 dá mais complexidade ao assunto de segurança, ele mostra com mais clareza esse problema que o crime organizado não está nos lugares pobres, nem no Rio e nem em nenhum lugar do mundo. Ele consegue demonstrar que essa criminalidade é movida através de interesses políticos, ou seja, existe uma polícia corrupta porque a gente tem uma política corrupta, uma elite política corrupta que se alimenta dessa relação violenta com a periferia dos lugares pobres porque tem uma relação direta com esses criminosos.”
Claro que não seria um filme (ou dois) que mudaria esse amontoado de desigualdades, impunidades e desmandos. E nem adianta pensar em um terceiro com Nascimento partindo para Brasília de Caveirão. Luiz Eduardo Soares pode explicar melhor: “Assunto [para um terceiro filme] não falta. Mas até onde sei, como amigo e colega de trabalho, o José Padilha não considera essa hipótese. É o mesmo que ouço do Wagner [Moura] que diz que o trabalho que tinha que ser feito já foi feito. Da minha parte já estou completamente convencido que não faz sentido produzir uma terceira unidade dessa série pois há um risco muito grande da repetição e, tanto na literatura quanto no cinema, temos muito medo do clichê.”
Sobre Wagner Moura assinamos embaixo. Na tentativa de entrevistá-lo recebemos a seguinte resposta de seu assessor: “O Wagner está num outro momento agora!” Quem é caveira, sabe.
terça-feira, 10 de maio de 2011
capitão nascimento reloaded
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ó meu encanto
uma vó tocando ukelele e cantando livremente. uma netinha dançando meio pina bausch. e uma boneca que aparece no final para mudar o destino de todos os personagens.
via @bferrari.
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sábado, 7 de maio de 2011
metrópolis, reino (quase) perdido
com todo trabalho de edição venho escrevendo menos na revista monet, mas nessa edição de maio assinei a matéria de capa (tropa de elite 2, logo mais por aqui), os textos de um ensaio fotográfico sobre a série planeta humano (bbc/discovery) e uma breve retrospectiva histórica do clássico metrópolis (1927), de fritz lang. motivo? a exibição no tcm (dia 23, 19h) do documentário metrópolis refundada, que trata do achado na argentina de uma boa parte do filme que todos julgavam que tinha se perdido para sempre. detalhe: o texto que segue está um pouco maior que na revista, afinal na mesma página tem um box sobre outro documentário, o excelente o inferno de henri-georges clouzot (dia 22, 22h, telecine cult).
cartaz de 2007 feito por bogna otto-wegrzyn, direto do polishposter.com
CLÁSSICO EM OBRAS
Pense em um filme clássico! Pronto. Certeza que a história de sua produção é quase tão interessante e rica quanto seu resultado. Pode ser o caos e a loucura que assombraram Apocalypse Now (1979); ou a brincadeira exibicionista de um homem muito seguro de si em Cidadão Kane (1941); ou ainda a megalomania romântica durante E o Vento Levou (1939). Mas nada chega aos pés do que aconteceu antes, durante e depois de Metrópolis, a ficção científica dirigida por Fritz Lang que influenciou todo o século 20, de Hitler a Madonna, mas que poucas vezes foi vista, no esplendor de seus 153 minutos e com orquestra ao vivo, como nos primeiros meses do ano de 1927, em Berlim.
Cortadas, retalhadas, com velocidade de exibição alterada, as cópias do filme foram saindo da Alemanha para nunca mais serem as mesmas. Até que em 2008, uma versão com cerca de 20 minutos nunca antes vistos, desde aquela estréia, foi encontrada em Buenos Aires, Argentina. Toda essa história e a descoberta histórica é contada, em mínimos detalhes, no documentário Metrópolis Refundada. Mas esse é o final feliz de uma história que poderia ter acabado muito mal, como tantas outras dentro desse território, às vezes tão negligenciado, que é a preservação da memória. olha o trailer.
No caso específico de Metrópolis o descaso vem desde a época de seu lançamento. Extremamente caro, visualmente ousado, o filme naufragou nas bilheterias alemãs e quase levou os estúdios UFA à bancarrota. Para arrecadar algum dinheiro extra, a produção foi vendida a Paramount, para distribuição nos Estados Unidos e resto do mundo, e aí o massacre começou. Quase uma hora do filme foi parar no chão da sala de edição, truncando totalmente a história original escrita por Fritz Lang e sua mulher Thea von Harbou (e em uma daquelas ironias do destino, os Estados Unidos mutilaram um filme que começou a ser pensado por Lang justamente após uma visita a Nova York em 1924).
O que era sombrio na trama futurista sobre uma sociedade industrial, no qual ricos frívolos oprimiam pobres automatizados, com direito a um cientista maluco e sua grande obra, uma a robô mulher criada para tomar o lugar de uma “líder revolucionária”, acabou se tornando ingênuo ao focar no amor de um casal (ele, da alta; ela, proletária) servindo como pacificador dessa luta de classes. Posteriormente, Hitler anunciou aos quatro ventos que Lang era o cineasta alemão/ariano por excelência e Metrópolis um de seus trabalhos preferidos, o que apenas contribuiu para o diretor renegar ainda mais o filme e fugir da Alemanha em 1933 (sua mulher acabou ficando e se filiando aos nazistas). Lang filmou outros quatro longas no país nesse meio tempo, incluindo o igualmente clássico M – O Vampiro de Dusseldorf (1931) e O Testamento de Dr. Mabuse (1933), uma alegoria crítica ao nazifacismo, para então se exilar em Hollywood até sua morte em 1976.
“Não se pode fazer um filme com preocupações sociais em que se diga que o intermediário entre a mão e o cérebro é o coração. Isso é um conto de fadas. (...) Deveria dizer que gosto de Metrópolis só porque algo que vi na minha imaginação se tornou realidade, mesmo tendo detestado o filme quando o terminei?”, disse um rígido Lang em 1971 numa conversa com Peter Bogdanovich (entrevista essa que presente no livro Afinal, Quem Faz os Filmes?).
E o filme ficou assim, capenga de sentido, mas sempre exuberante visualmente, até que cópias encontradas em cineclubes ao redor do mundo foram reunidas, restauradas, e deram em uma edição com pouco mais de 2 horas que foi exibida com grande pompa em 2001. Todos estavam felizes e ninguém imaginava que outros 20 minutos estavam vendo o tempo passar nas prateleiras do Cineclube de Buenos Aires. O frisson dessa descoberta, com direito a exibições a cinéfilos que não sabiam da existência desses trechos, está em Metrópolis Refundada (estas novas cópias, acompanhadas da trilha original de Gottfried Huppertz, foram exibidas no mundo todo em 2010, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo). Segundo especialistas, atualmente apenas 5 minutos do filme são considerados perdidos, o que não é nada perto do fato de que Metrópolis está muito mais vivo.
p.s.: tão vivo está que é fácil achar imagens do filme misturadas com músicas das mais diversas. separei aqui dois "mashups". o primeiro com a música "time lapse", que o grande michael nyman fez para zoo - um z e dois zeros (1985, peter greenaway) e foi reutilizada no documentário o equilibrista (2008, james marsh). ficou dramático.
a outra é com os igualmente alemães do kraftwerk e ficou mais pop.
cartaz de 2007 feito por bogna otto-wegrzyn, direto do polishposter.comCLÁSSICO EM OBRAS
Pense em um filme clássico! Pronto. Certeza que a história de sua produção é quase tão interessante e rica quanto seu resultado. Pode ser o caos e a loucura que assombraram Apocalypse Now (1979); ou a brincadeira exibicionista de um homem muito seguro de si em Cidadão Kane (1941); ou ainda a megalomania romântica durante E o Vento Levou (1939). Mas nada chega aos pés do que aconteceu antes, durante e depois de Metrópolis, a ficção científica dirigida por Fritz Lang que influenciou todo o século 20, de Hitler a Madonna, mas que poucas vezes foi vista, no esplendor de seus 153 minutos e com orquestra ao vivo, como nos primeiros meses do ano de 1927, em Berlim.
Cortadas, retalhadas, com velocidade de exibição alterada, as cópias do filme foram saindo da Alemanha para nunca mais serem as mesmas. Até que em 2008, uma versão com cerca de 20 minutos nunca antes vistos, desde aquela estréia, foi encontrada em Buenos Aires, Argentina. Toda essa história e a descoberta histórica é contada, em mínimos detalhes, no documentário Metrópolis Refundada. Mas esse é o final feliz de uma história que poderia ter acabado muito mal, como tantas outras dentro desse território, às vezes tão negligenciado, que é a preservação da memória. olha o trailer.
No caso específico de Metrópolis o descaso vem desde a época de seu lançamento. Extremamente caro, visualmente ousado, o filme naufragou nas bilheterias alemãs e quase levou os estúdios UFA à bancarrota. Para arrecadar algum dinheiro extra, a produção foi vendida a Paramount, para distribuição nos Estados Unidos e resto do mundo, e aí o massacre começou. Quase uma hora do filme foi parar no chão da sala de edição, truncando totalmente a história original escrita por Fritz Lang e sua mulher Thea von Harbou (e em uma daquelas ironias do destino, os Estados Unidos mutilaram um filme que começou a ser pensado por Lang justamente após uma visita a Nova York em 1924).
O que era sombrio na trama futurista sobre uma sociedade industrial, no qual ricos frívolos oprimiam pobres automatizados, com direito a um cientista maluco e sua grande obra, uma a robô mulher criada para tomar o lugar de uma “líder revolucionária”, acabou se tornando ingênuo ao focar no amor de um casal (ele, da alta; ela, proletária) servindo como pacificador dessa luta de classes. Posteriormente, Hitler anunciou aos quatro ventos que Lang era o cineasta alemão/ariano por excelência e Metrópolis um de seus trabalhos preferidos, o que apenas contribuiu para o diretor renegar ainda mais o filme e fugir da Alemanha em 1933 (sua mulher acabou ficando e se filiando aos nazistas). Lang filmou outros quatro longas no país nesse meio tempo, incluindo o igualmente clássico M – O Vampiro de Dusseldorf (1931) e O Testamento de Dr. Mabuse (1933), uma alegoria crítica ao nazifacismo, para então se exilar em Hollywood até sua morte em 1976.
“Não se pode fazer um filme com preocupações sociais em que se diga que o intermediário entre a mão e o cérebro é o coração. Isso é um conto de fadas. (...) Deveria dizer que gosto de Metrópolis só porque algo que vi na minha imaginação se tornou realidade, mesmo tendo detestado o filme quando o terminei?”, disse um rígido Lang em 1971 numa conversa com Peter Bogdanovich (entrevista essa que presente no livro Afinal, Quem Faz os Filmes?).
E o filme ficou assim, capenga de sentido, mas sempre exuberante visualmente, até que cópias encontradas em cineclubes ao redor do mundo foram reunidas, restauradas, e deram em uma edição com pouco mais de 2 horas que foi exibida com grande pompa em 2001. Todos estavam felizes e ninguém imaginava que outros 20 minutos estavam vendo o tempo passar nas prateleiras do Cineclube de Buenos Aires. O frisson dessa descoberta, com direito a exibições a cinéfilos que não sabiam da existência desses trechos, está em Metrópolis Refundada (estas novas cópias, acompanhadas da trilha original de Gottfried Huppertz, foram exibidas no mundo todo em 2010, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo). Segundo especialistas, atualmente apenas 5 minutos do filme são considerados perdidos, o que não é nada perto do fato de que Metrópolis está muito mais vivo.
p.s.: tão vivo está que é fácil achar imagens do filme misturadas com músicas das mais diversas. separei aqui dois "mashups". o primeiro com a música "time lapse", que o grande michael nyman fez para zoo - um z e dois zeros (1985, peter greenaway) e foi reutilizada no documentário o equilibrista (2008, james marsh). ficou dramático.
a outra é com os igualmente alemães do kraftwerk e ficou mais pop.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
a saga de leona, a assassina vingativa
já faz mais de um ano que ouço falar dos videos de leona, a assassina vingativa, uma 'websérie' feita do jeito que deu lá nas bandas do bairro dos jurunas em belém do pará (o mesmo bairro de gaby amarantos). li até uma boa reportagem feita pelo diário do pará e uma performance durante um casamento, mas nunca tinha parado para assistir suas três partes (até agora) e seus inúmeros desdobramentos. nesse último sábado, após assistir no canal brasil ao ótimo dzi croquettes (2009), documentário de tatiana issa e raphael alvarez, rolou aquele cruzamento de informações. uma das músicas que aparece durante o filme, "vingativa", é de wagner ribeiro, um dos fundadores do cultuado e influente grupo teatral-musical dos anos 1970. gravada originalmente pelas frenéticas em seu disco de estreia em 1977, a música tem em seus versos duas palavras muito caras a saga de leona (surgida em 2009): "vingativa" e "hipócrita". será que a turma da leona conhecia a música? escute aí.
voltando a leona vingativa. na parte 1 somos apresentados aos dois protagonistas, leona e aleijada hipócrita, e ao principal cenário, um quarto. dá para entender também que leona (interpretada por leandro olin, que na época tinha 11 anos) quer subir na vida doa a quem doer. destaque para a fita que não queima, a presença estranha ali no canto da cama, os risos presos, o diálogo tenso e o chute que a aleijada dá em leona, com direito a um pedacinho da bunda, depois de tomar vários tabefes ("eu já disse que tenho o movimento da perna!"). sem falar no final-marca-registrada: "pode cortar!"
já a parte 2 é um épico tipo o poderoso chefão 2. entram novos personagens, tais como o comparsa geraldo (por isso, o alckmin na abertura acima), a empregada nordestina da aleijada hipócrita, a escrivã e, acima de tudo, a corrupta delegada dafne (ou dafiny, enfim, eu mereço). e tome pancadaria, enquadramentos malucos e frases memoráveis de leona ("prepare o táxi que eu tô indo pra paris agora!"), da delegada ("olha o rímel heim?! se tu manchar meu olho, eu te prendo sua vagabunda") e da aleijada ("você vai me matar de novo?"). destaque para um momento mágico aos 5m50 com leona surgindo na delegacia ao som do tema da saga (que música é essa?).
finalmente, a parte 3, um desfecho violento em meio a um terreiro de macumba. gosto principalmente quando soltam o "tema de leona" ao vivo durante a filmagem da sequência, a arma-secador, e a frase "diz que ela é negra e é preta" (que é como a mãe de santo descreve a pessoa que cagueta leona). e no fim, leona e a delegada fogem para paris. pois é, o crime (talvez) compense.
e então, leona partiu para sua amada paris. mas voltou ao brasil, e ao bairro de jurunas, agora no início do ano, dois anos depois do início de suas maquiavélicas aventuras. no video abaixo ela dá seu nome completo após o casamento com um figurão europeu e vai mais além: "poderosíssima como a espada de uma samurai. eu sou apertada como uma bacia. eu sou enxuta como uma melancia. tenho dois filhosinho, um zolhudinho, outro barrigudinho. casei com o dono da parmalat. virei mamífera. só mamo. pertenço a família imperial brasileira orleans bragança. penetração difícil."
o mais interessante desses videos, fora o humor trash, é a alegria dessa brincadeira de amigos e a tranquilidade libertária da sexualidade de todos os envolvidos (por isso acho que podem ser considerados como netos ou bisnetos dos dzi croquettes).
p.s. 1: e como faixa bônus, cenas deletadas da parte 2.
p.s. 2: égua! tem essa entrevista divertidíssima com leona, cheia de detalhes sobre os bastidores da saga.
voltando a leona vingativa. na parte 1 somos apresentados aos dois protagonistas, leona e aleijada hipócrita, e ao principal cenário, um quarto. dá para entender também que leona (interpretada por leandro olin, que na época tinha 11 anos) quer subir na vida doa a quem doer. destaque para a fita que não queima, a presença estranha ali no canto da cama, os risos presos, o diálogo tenso e o chute que a aleijada dá em leona, com direito a um pedacinho da bunda, depois de tomar vários tabefes ("eu já disse que tenho o movimento da perna!"). sem falar no final-marca-registrada: "pode cortar!"
já a parte 2 é um épico tipo o poderoso chefão 2. entram novos personagens, tais como o comparsa geraldo (por isso, o alckmin na abertura acima), a empregada nordestina da aleijada hipócrita, a escrivã e, acima de tudo, a corrupta delegada dafne (ou dafiny, enfim, eu mereço). e tome pancadaria, enquadramentos malucos e frases memoráveis de leona ("prepare o táxi que eu tô indo pra paris agora!"), da delegada ("olha o rímel heim?! se tu manchar meu olho, eu te prendo sua vagabunda") e da aleijada ("você vai me matar de novo?"). destaque para um momento mágico aos 5m50 com leona surgindo na delegacia ao som do tema da saga (que música é essa?).
finalmente, a parte 3, um desfecho violento em meio a um terreiro de macumba. gosto principalmente quando soltam o "tema de leona" ao vivo durante a filmagem da sequência, a arma-secador, e a frase "diz que ela é negra e é preta" (que é como a mãe de santo descreve a pessoa que cagueta leona). e no fim, leona e a delegada fogem para paris. pois é, o crime (talvez) compense.
e então, leona partiu para sua amada paris. mas voltou ao brasil, e ao bairro de jurunas, agora no início do ano, dois anos depois do início de suas maquiavélicas aventuras. no video abaixo ela dá seu nome completo após o casamento com um figurão europeu e vai mais além: "poderosíssima como a espada de uma samurai. eu sou apertada como uma bacia. eu sou enxuta como uma melancia. tenho dois filhosinho, um zolhudinho, outro barrigudinho. casei com o dono da parmalat. virei mamífera. só mamo. pertenço a família imperial brasileira orleans bragança. penetração difícil."
o mais interessante desses videos, fora o humor trash, é a alegria dessa brincadeira de amigos e a tranquilidade libertária da sexualidade de todos os envolvidos (por isso acho que podem ser considerados como netos ou bisnetos dos dzi croquettes).
p.s. 1: e como faixa bônus, cenas deletadas da parte 2.
p.s. 2: égua! tem essa entrevista divertidíssima com leona, cheia de detalhes sobre os bastidores da saga.
domingo, 1 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
fique atento! criolo no microfone!
só se você esteve fora do ar na semana. só assim pode não ter cruzado com alguma coisa-notícia-dica relacionada ao paulistano criolo e seu segundo disco, nó na orelha, que foi liberado para download gratuito pelo próprio (agora em maio saem as versões em cd e vinil). se você não ouviu nada a respeito fique atento porque logo vai ter gente aí do seu lado falando que é o disco do ano, que o cara detona, numa corrente daquelas que vira onda grande, unanimidade surpreendente e nada burra. fique atento!
alguns meses atrás um dos produtores do disco, daniel ganjaman colocou em seu soundcloud três aperitivos do disco: o rap forte "grajauex", a balançante e malandra "subirusdoistiozin" e a soul "não existe amor em sp". aí já deu pra sacar que um dos comandantes da lendária rinha dos mcs de são paulo, e que em 2006 estreou com o convencional ainda há tempo, tinha mudado. o rap continuava ali nas suas músicas, mas de repente aquele rap era uma canção! com cara de clássico, "não existe amor em sp" é um bom exemplo de que o tema da cidade, tão caro ao rap, está ali, mas sob violinos, batidas e sentimentos soul. quando as outras sete faixas de nó na orelha caíram oficialmente na rede no início da semana, a variedade de caras e sons de criolo se mostrou ainda maior e melhor (com ajuda de ganjaman e marcelo cabral, do trio marginals, o outro produtor). escuta só o disco todo aí embaixo e me diz se estou mentindo.
Criolo - Nó Na Orelha by PoesiaRitmada
o disco começa com "bogotá" em ritmo de afrobeat, mas tem afrosamba em "mariô" (parceria com kiko dinucci), reggae adubado em "samba sambei", bolerão setentista em "freguês da meia noite", mais rap em "sucrilhos", orientalidades em "lion man" e o sambão divertido "linha de frente", com direito a uma turma da mônica do asfalto. sem parecer esquizofrênico, e muito menos oportunista, a variedade de vozes e ritmos de criolo é toda natural, absolutamente autêntica, fazendo de nó na orelha um microcosmos de achados e possibilidades para o rap e a canção brasileira. são as coisas que se ouve saindo do jeito que se sente. e sem as amarras de um gênero. afinal, quem disse que um rapper não pode fazer um bolero?
mas essas dez faixas são apenas um pedacinho de sua produção. parece que o sujeito está compondo como quem respira. então separei aqui videos de outras músicas. começando com uma homenagem a "cálice", aquela mesmo cantada por chico buarque e milton nascimento.
ou então "pra quê cerol?", numa versão ao vivo, rap meio punk e meio jazz com participações de lurdez da luz e os marginals.
e encerrando com a nordestina "lantejoula", dedicada aos seus pais cearenses (e como meus pais, como eu, também são cearenses, aproveito e dedico também a eles).
e o sujeito tem uma presença de palco que vou te falar...
p.s.: vale ler as resenhas do camilo rocha no bate estaca e a do velot wamba na + soma, e a reportagem do pedro alexandre sanches.
alguns meses atrás um dos produtores do disco, daniel ganjaman colocou em seu soundcloud três aperitivos do disco: o rap forte "grajauex", a balançante e malandra "subirusdoistiozin" e a soul "não existe amor em sp". aí já deu pra sacar que um dos comandantes da lendária rinha dos mcs de são paulo, e que em 2006 estreou com o convencional ainda há tempo, tinha mudado. o rap continuava ali nas suas músicas, mas de repente aquele rap era uma canção! com cara de clássico, "não existe amor em sp" é um bom exemplo de que o tema da cidade, tão caro ao rap, está ali, mas sob violinos, batidas e sentimentos soul. quando as outras sete faixas de nó na orelha caíram oficialmente na rede no início da semana, a variedade de caras e sons de criolo se mostrou ainda maior e melhor (com ajuda de ganjaman e marcelo cabral, do trio marginals, o outro produtor). escuta só o disco todo aí embaixo e me diz se estou mentindo.
Criolo - Nó Na Orelha by PoesiaRitmada
o disco começa com "bogotá" em ritmo de afrobeat, mas tem afrosamba em "mariô" (parceria com kiko dinucci), reggae adubado em "samba sambei", bolerão setentista em "freguês da meia noite", mais rap em "sucrilhos", orientalidades em "lion man" e o sambão divertido "linha de frente", com direito a uma turma da mônica do asfalto. sem parecer esquizofrênico, e muito menos oportunista, a variedade de vozes e ritmos de criolo é toda natural, absolutamente autêntica, fazendo de nó na orelha um microcosmos de achados e possibilidades para o rap e a canção brasileira. são as coisas que se ouve saindo do jeito que se sente. e sem as amarras de um gênero. afinal, quem disse que um rapper não pode fazer um bolero?
mas essas dez faixas são apenas um pedacinho de sua produção. parece que o sujeito está compondo como quem respira. então separei aqui videos de outras músicas. começando com uma homenagem a "cálice", aquela mesmo cantada por chico buarque e milton nascimento.
ou então "pra quê cerol?", numa versão ao vivo, rap meio punk e meio jazz com participações de lurdez da luz e os marginals.
e encerrando com a nordestina "lantejoula", dedicada aos seus pais cearenses (e como meus pais, como eu, também são cearenses, aproveito e dedico também a eles).
e o sujeito tem uma presença de palco que vou te falar...
p.s.: vale ler as resenhas do camilo rocha no bate estaca e a do velot wamba na + soma, e a reportagem do pedro alexandre sanches.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
yahoo #04
e a nau dos insensatos comentários sobre a minha quarta coluna pro yahoo achou que eu estava defendendo que a pornochanchada voltasse para entrar no lugar dos filmes que estão sendo feitos agora. "logo agora que o cinema brasileiro tá legal", foi o que mais ouvi. o pessoal tem um medo da palavra "sacanagem" que vou te contar... não sacaram que falei mais de um espírito e não necessariamente do "gênero". vai entender. enquanto a isso, tem nova coluna por lá ("a peleja do forró junino").
VAMOS GOZAR OUTRA VEZ?
Acho que está faltando um pouco de sacanagem no cinema brasileiro. Sinceramente. E quando digo sacanagem não me refiro a sexo explícito, taras obscuras ou fetiches do arco da velha. É mais uma coisa assim à la pornochanchada mesmo, um espírito daquele tempo em que peitinhos conviviam em paz com um humor meio ingênuo, quase infantil, similar a um quadro d’Os Trapalhões. Também pode ser uma loucura ou liberdade ou qualquer outra palavra que se queira dar. Só que sempre com uma pitada de sexo. Não só porque é um bom assunto, mas principalmente porque o Brasil (e o mundo) estão precisando encarar a sexualidade, e sua diversidade, com mais leveza. Repressão cria monstros, e monstros matam, de verdade.
Imagina como seria inusitado assistir hoje em dia um filme como A Árvore do Sexo (1977), de Silvio de Abreu (ele mesmo, o autor de novelas), no qual uma árvore de frutos muito peculiares causa um alvoroço em uma cidadezinha depois que as mulheres os comem e engravidam. Ou ainda um Kung Fu Contra as Bonecas (1975), de Adriano Stuart (que, pouco anos depois, dirigiria cinco filmes de Didi & Cia., incluindo Os Trapalhões na Guerra dos Planetas). Nesse filme, um mestiço de chinês com pernambucana volta a sua terra natal para vingar o pai que morreu nas mãos de um grupo de cangaceiros gays. É isso, estou falando desse tipo de loucura. Seria ótimo ter novamente um cinema popular como a pornochanchada foi na década de 1970. Louco, livre e bem humorado.
Mas o pessoal da época, tanto a esquerda quanto a direita, não curtia muito uma sacanagem e esse cinema acabou sendo taxado como o grande vilão do abismo que se criou posteriormente entre o público brasileiro e seu cinema. Bobagem. Agora está tudo bem e existem motivos de sobra para se comemorar algumas ótimas bilheterias recentes, principalmente depois da terrível década de 1990. Os dois Tropa de Elite, Carandiru, os dois Se Eu Fosse Você, Nosso Lar, A Mulher Invisível, 2 Filhos de Francisco, Bruna Surfistinha, Cidade de Deus e Chico Xavier, entre outros, foram responsáveis por um importante amadurecimento comercial do cinema brasileiro e uma nova identidade com seu público. Lindo. Mas tem uma coisa faltando aí. Está tudo muito certinho.
Claro que hoje é impossível haver um cinema popular nos moldes do que aconteceu com a pornochanchada. Existem muito menos salas de cinema, o ingresso é mais caro, uma boa distribuição custa uma fortuna, enfim, filmes assim só poderiam existir numa parceria com videolocadoras e TVs. Ou na internet, talvez. De qualquer forma, seria saudável para o cinema brasileiro atual ter um equivalente em imagens, por exemplo, ao hit “Minha Mulher Não Deixa Não”. O importante é que a sacanagem sobreviva.
p.s.: e falando em pornochanchada, escrevi pra revista monet perfis de dois artistas relacionados a esse tempo do cinema brasileiro: o ilustrador benício e a atriz helena ramos.
VAMOS GOZAR OUTRA VEZ?
Acho que está faltando um pouco de sacanagem no cinema brasileiro. Sinceramente. E quando digo sacanagem não me refiro a sexo explícito, taras obscuras ou fetiches do arco da velha. É mais uma coisa assim à la pornochanchada mesmo, um espírito daquele tempo em que peitinhos conviviam em paz com um humor meio ingênuo, quase infantil, similar a um quadro d’Os Trapalhões. Também pode ser uma loucura ou liberdade ou qualquer outra palavra que se queira dar. Só que sempre com uma pitada de sexo. Não só porque é um bom assunto, mas principalmente porque o Brasil (e o mundo) estão precisando encarar a sexualidade, e sua diversidade, com mais leveza. Repressão cria monstros, e monstros matam, de verdade.
Imagina como seria inusitado assistir hoje em dia um filme como A Árvore do Sexo (1977), de Silvio de Abreu (ele mesmo, o autor de novelas), no qual uma árvore de frutos muito peculiares causa um alvoroço em uma cidadezinha depois que as mulheres os comem e engravidam. Ou ainda um Kung Fu Contra as Bonecas (1975), de Adriano Stuart (que, pouco anos depois, dirigiria cinco filmes de Didi & Cia., incluindo Os Trapalhões na Guerra dos Planetas). Nesse filme, um mestiço de chinês com pernambucana volta a sua terra natal para vingar o pai que morreu nas mãos de um grupo de cangaceiros gays. É isso, estou falando desse tipo de loucura. Seria ótimo ter novamente um cinema popular como a pornochanchada foi na década de 1970. Louco, livre e bem humorado.
Mas o pessoal da época, tanto a esquerda quanto a direita, não curtia muito uma sacanagem e esse cinema acabou sendo taxado como o grande vilão do abismo que se criou posteriormente entre o público brasileiro e seu cinema. Bobagem. Agora está tudo bem e existem motivos de sobra para se comemorar algumas ótimas bilheterias recentes, principalmente depois da terrível década de 1990. Os dois Tropa de Elite, Carandiru, os dois Se Eu Fosse Você, Nosso Lar, A Mulher Invisível, 2 Filhos de Francisco, Bruna Surfistinha, Cidade de Deus e Chico Xavier, entre outros, foram responsáveis por um importante amadurecimento comercial do cinema brasileiro e uma nova identidade com seu público. Lindo. Mas tem uma coisa faltando aí. Está tudo muito certinho.
Claro que hoje é impossível haver um cinema popular nos moldes do que aconteceu com a pornochanchada. Existem muito menos salas de cinema, o ingresso é mais caro, uma boa distribuição custa uma fortuna, enfim, filmes assim só poderiam existir numa parceria com videolocadoras e TVs. Ou na internet, talvez. De qualquer forma, seria saudável para o cinema brasileiro atual ter um equivalente em imagens, por exemplo, ao hit “Minha Mulher Não Deixa Não”. O importante é que a sacanagem sobreviva.
p.s.: e falando em pornochanchada, escrevi pra revista monet perfis de dois artistas relacionados a esse tempo do cinema brasileiro: o ilustrador benício e a atriz helena ramos.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
mulatu em sp
os ingressos acabaram tão rapidamente quanto surgiram e só algumas centenas de privilegiados tiveram o privilégio de ver e ouvir o grande mulatu astatke ao vivo, em março último. para os menos afortunados (como eu) a strut records acabou de disponibilizar os videos com as apresentações por aqui de "the way to nice" e "motherland", duas músicas lindas de seu mais recente disco, mulatu steps ahead (strut records, 2010). fino.
e no segundo semestre sai material inédito do homem.
e no segundo semestre sai material inédito do homem.
fuck you, instrumentalmente falando
guitarrista lendário de detroit que ajudou a moldar a sonoridade funky da gravadora motown e que emplacou sucessos como "scorpio", dennis coffey acabou de lançar um novo disco. o ótimo dennis coffey (strut records, 2011) tem muitas faixas instrumentais da pesada, bem como participações de gente como mayer hawthorne, fanny franklin (orgone), paolo nutini e kings go forth, mas como uma espécie de aperitivo saiu esse divertido video com ares de bob dylan ("subterranean homesick blues") embalando uma versão instrumental de "fuck you", hit recente de cee-lo green.
lá no só pedrada tem o caminho para baixar o disco.
lá no só pedrada tem o caminho para baixar o disco.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
esquentando, anelis
2011 começou bem com ótimos discos novos de burro morto, academia da berlinda, domenico e marcelo camelo. e tem muito mais pela frente: criolo, curumin e anelis assumpção, só para dar alguns exemplos. mas o assunto aqui é anelis, mulher segundo seu pai itamar assumpção, que disponibilizou quatro músicas de seu disco de estreia, sou suspeita. estou sujeita. não sou santa (scubidu, 2011, com previsão de lançamento em junho). quatro lindas músicas que juntam as vanguardas de seu pai, os achados de sua ex-banda (donazica), a sonoridade dub do namorado (curumin), o balanço com as amigas da negresko sis (céu e thalma de freitas) e muito mais. escute aí "amor sustentável", "neverland", "bola com os amigos" e "estrela". fino.
essa estreia solo de anelis vem sendo gravada desde 2009, mas algumas músicas já vinham aparecendo antes em shows e videos internet afora, como foi o caso de "bola com os amigos", que já tinha aparecido no música de bolso, numa versão bem próxima da final.
a outra música de anelis nessa sua participação no música de bolso é "passando a vez", samba delícia que não sei se estará no disco.
e para encerrar o teaser do disco (ao som de "quaresmeira").
essa estreia solo de anelis vem sendo gravada desde 2009, mas algumas músicas já vinham aparecendo antes em shows e videos internet afora, como foi o caso de "bola com os amigos", que já tinha aparecido no música de bolso, numa versão bem próxima da final.
a outra música de anelis nessa sua participação no música de bolso é "passando a vez", samba delícia que não sei se estará no disco.
e para encerrar o teaser do disco (ao som de "quaresmeira").
segunda-feira, 18 de abril de 2011
sorry e oga convidam...
o mano oga mendonça é um renascentista. um leonardo da vinci nascido no ipiranga e radicado em perdizes. é mc, rapper, tem projeto solo (macário), tem coletivo (projeto manada), é ilustrador, diretor de arte, designer gráfico, corjaman, e ultimamente tem feito e editado videos para sites como o da revista época sp (o mais recente, sobre unhas, tá aqui). recentemente começou a disponibilizar uma série de sete videos feitos em parceria com o baterista sorry drummer. cada um deles com um convidado diferente rimando ali direto, na hora, de qualquer jeito e maneira. já saíram dois e vou colocando aqui os outros conforme forem lançados. começando então com xis, ou apelidado xis, e rincon sapiência. nos videos, participação de filiph neo.
pelo que o oga me falou, o projeto "sorry and friends" começou meio que por acaso. pelo menos pra ele que, no dia da gravação dos videos, iria apenas tirar umas fotos pra capa do futuro disco de estreia de sorry. acabou filmando também e abraçou a edição. o resultado? fino, como vocês acabaram de ver.
atualização em 25 de abril com arnaldo tifu.
atualização em 10 de maio com slim rimografia.
atualização em 14 de junho com filiph neo e silvera.
pelo que o oga me falou, o projeto "sorry and friends" começou meio que por acaso. pelo menos pra ele que, no dia da gravação dos videos, iria apenas tirar umas fotos pra capa do futuro disco de estreia de sorry. acabou filmando também e abraçou a edição. o resultado? fino, como vocês acabaram de ver.
atualização em 25 de abril com arnaldo tifu.
atualização em 10 de maio com slim rimografia.
atualização em 14 de junho com filiph neo e silvera.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
música serve pra isso
para comemorar o fim de uma semana movimentada. para colocar um ponto final em mais uma edição da revista monet. para descansar. para olhar o roteiro de shows da virada cultural. para dirigir até casa e dar beijinhos em carolina. e muito mais, claro.
LE JOUR D'APRES / SIKU YA BAADAYE (INDEPENDANCE CHA-CHA) from BALOJI on Vimeo
tudo ao som de baloji, rapper congolês que ano passado lançou seu segundo disco, kinshasa succursale (kraked/universal, 2010), de onde saiu esta canção.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
yahoo #03
os cães ladram e a caravana reggae, podiscrê. enquanto o pessoal me xinga lá no yahoo pela mais recente coluna, "vamos gozar outra vez?" (sobre cinema brasileiro atual e a pornochanchada), coloco aqui a anterior, a que escrevi em defesa do funk carioca. tomei muita pedrada, muita mesmo, porque tem um pessoal com um ódio gigantesco em relação ao funk carioca. apenas defendê-lo é o que basta para ser taxado de desgraçado pra baixo. enfim, loucura total.

NÃO TEM PAPO, NÃO TEM ALÔ
Tinha umas coisas na mente, um plano Ultra Pop. Comecei pela TV (carnavalesca), pulei para o mercado fonográfico (neo sertanejo), e daí iria rumo ao cinema, a rádio e a internet. Refletindo sempre sobre manifestações culturais populares nos mais diversos veículos de comunicação e em tempos diferentes. Só que a música é um assunto que acaba atravessando tudo, não consigo escapar, e as centenas de comentários gerados pela coluna anterior – a do Luan Santana – me chamaram atenção para um gênero que parece personificar para muitos o mais baixo que a humanidade pode chegar. Estou falando do funk carioca, amiguinhas e amiguinhos.
Como aceitar que versos como “Dako é bom / Dako é bom / Calma, minha gente , é só a marca do fogão” possam ser música? E que isso possa ser bom? Pois é, acontece que é isso mesmo. E nem vou falar da importância de Tati Quebra-Barraco ser uma pioneira voz feminina, orgulhosa e ativa em um cenário masculino e machista. O lance aqui é mais fundo, pois Tati é apenas uma das muitas pontas desse jovem gênero musical (cerca de 25 anos, por aí) que ainda segue se batendo com preconceitos internos enquanto é considerado, no exterior e também por aqui, a legítima música eletrônica popular brasileira.
Aí o pessoal começa a espumar de ódio. “Como assim?! Esses funks cariocas só falam de putaria e incitam violência!!! Que cultura é essa?” Antes de entrar no mérito da questão, um aviso: o pessoal costuma confundir as bolas achando que o seu (bom?) gosto é o mais importante, o verdadeiro, o fino. Mas gostar de Cartola ou Adriana Calcanhotto não vai te fazer uma pessoa melhor daqueles que gostam de Mr. Catra ou Bonde da Madrugada (não faltam exemplos de ditadores sanguinários muito chegados a música clássica, e aí?). O que importa mesmo é que, para além dos gostos pessoais, o funk carioca é uma intensa e dinâmica fábrica de alegria, sexo, humor, prazer, dinheiro, críticas sociais, amor e brasilidade a muitos beats por minuto.
“De algum jeito o nosso povo faz das festas uma arte. Com pouco ensino tradicional mesmo pra quem teve escola, é nas festas que a gente inventa um jeito de estudar a vida, uns com os outros”, disse certa vez o carioca Sany Pitbull, um dos DJs mais disputados da recente cena de funk carioca e que transita entre boates de classe média alta de São Paulo e clubes europeus. Essa singela declaração de Sany diz muito sobre a riqueza sem preconceitos de um gênero que pretende então, sem muita elaboração e no calor dos momentos, estudar a vida através da arte da festa. Afinal, é de encontro em encontro que a gente vive e cresce. A única diferença é que no funk os encontros são muito mais suados.
p.s.: o título dessa coluna faz parte do refrão de uma das montagens mais clássicas do funk carioca do final dos anos 1990 e que diz mais ou menos assim “Se trepidar / Se enfraquecer os irmão / E se conspirar / E armar vacilação / E se caguetar / Não tem papo, não tem papo, não tem alô”.
NÃO TEM PAPO, NÃO TEM ALÔ
Tinha umas coisas na mente, um plano Ultra Pop. Comecei pela TV (carnavalesca), pulei para o mercado fonográfico (neo sertanejo), e daí iria rumo ao cinema, a rádio e a internet. Refletindo sempre sobre manifestações culturais populares nos mais diversos veículos de comunicação e em tempos diferentes. Só que a música é um assunto que acaba atravessando tudo, não consigo escapar, e as centenas de comentários gerados pela coluna anterior – a do Luan Santana – me chamaram atenção para um gênero que parece personificar para muitos o mais baixo que a humanidade pode chegar. Estou falando do funk carioca, amiguinhas e amiguinhos.
Como aceitar que versos como “Dako é bom / Dako é bom / Calma, minha gente , é só a marca do fogão” possam ser música? E que isso possa ser bom? Pois é, acontece que é isso mesmo. E nem vou falar da importância de Tati Quebra-Barraco ser uma pioneira voz feminina, orgulhosa e ativa em um cenário masculino e machista. O lance aqui é mais fundo, pois Tati é apenas uma das muitas pontas desse jovem gênero musical (cerca de 25 anos, por aí) que ainda segue se batendo com preconceitos internos enquanto é considerado, no exterior e também por aqui, a legítima música eletrônica popular brasileira.
Aí o pessoal começa a espumar de ódio. “Como assim?! Esses funks cariocas só falam de putaria e incitam violência!!! Que cultura é essa?” Antes de entrar no mérito da questão, um aviso: o pessoal costuma confundir as bolas achando que o seu (bom?) gosto é o mais importante, o verdadeiro, o fino. Mas gostar de Cartola ou Adriana Calcanhotto não vai te fazer uma pessoa melhor daqueles que gostam de Mr. Catra ou Bonde da Madrugada (não faltam exemplos de ditadores sanguinários muito chegados a música clássica, e aí?). O que importa mesmo é que, para além dos gostos pessoais, o funk carioca é uma intensa e dinâmica fábrica de alegria, sexo, humor, prazer, dinheiro, críticas sociais, amor e brasilidade a muitos beats por minuto.
“De algum jeito o nosso povo faz das festas uma arte. Com pouco ensino tradicional mesmo pra quem teve escola, é nas festas que a gente inventa um jeito de estudar a vida, uns com os outros”, disse certa vez o carioca Sany Pitbull, um dos DJs mais disputados da recente cena de funk carioca e que transita entre boates de classe média alta de São Paulo e clubes europeus. Essa singela declaração de Sany diz muito sobre a riqueza sem preconceitos de um gênero que pretende então, sem muita elaboração e no calor dos momentos, estudar a vida através da arte da festa. Afinal, é de encontro em encontro que a gente vive e cresce. A única diferença é que no funk os encontros são muito mais suados.
p.s.: o título dessa coluna faz parte do refrão de uma das montagens mais clássicas do funk carioca do final dos anos 1990 e que diz mais ou menos assim “Se trepidar / Se enfraquecer os irmão / E se conspirar / E armar vacilação / E se caguetar / Não tem papo, não tem papo, não tem alô”.
terça-feira, 12 de abril de 2011
é tudo verdade (fotográfica)
depois de assistir repetidas vezes o clipe que está no post abaixo - "control" de spoek mathambo - fui dar uma fuçada mais detalhada no site do fotógrafo sulafricano pieter hugo (um dos diretores do video). já o conhecia daquele ensaio sensacional com nigerianos, invariavelmente foras-da-lei, e seu delicados animais de estimação: hienas! lá no site tem outros projetos impressionantes como o de vestígios do massacre de ruanda e uma série de retratos de pessoas que nos fazem desviar o olhar (albinos, velhos, cegos, deficientes físicos, etc.), mas nada tão maravilhoso, colorido e rico como o projeto nollywood, no qual hugo chamou atores e atrizes da grande indústria cinematográfica nigeriana - falei sobre ela no post "nollywood não é aqui" - para uma série de retratos. todos foram tirados entre os anos de 2008 e 2009 na cidade de enugu. olha só essa selecta.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
podem lhe chamar de afrofuturista
você nunca imaginaria (e eu também, confesso) que a clássica "she's lost control" do joy division pudesse ser transformada em um pancadão sombrio dessa maneira. cortesia do sulafricano spoek mathambo, rapper, dj, ilustrador e designer gráfico de 25 anos.
e esse clipe sensacional foi dirigido pela dupla pieter hugo e michael cleary. descobri esse clipe/faixa, retirada do disco de estreia do rapaz mshini wam (bbe, 2010), no blog matsuli music.
atualização em 17 de maio: finalmente consegui ouvir a estreia de spoek e o disco é muito bom, cheio de outras canções poderosas (e videos idem) como "mshini wam" e "don't mean to be rude". saca só.
e esse clipe sensacional foi dirigido pela dupla pieter hugo e michael cleary. descobri esse clipe/faixa, retirada do disco de estreia do rapaz mshini wam (bbe, 2010), no blog matsuli music.
atualização em 17 de maio: finalmente consegui ouvir a estreia de spoek e o disco é muito bom, cheio de outras canções poderosas (e videos idem) como "mshini wam" e "don't mean to be rude". saca só.
terça-feira, 5 de abril de 2011
domenico + 2
+ a guitarra de pedro sá
+ elisa porto segurando um kazoo (e rindo muito)
essas duas músicas estão na estreia solo de domenico (do projeto +2 com moreno e kassin, da orquestra imperial, da banda de adriana calcanhotto). o excelente cine privê (coqueiro verde, 2011) tem lançamento hoje no rio de janeiro, com direito a transmissão ao vivo a partir das 22 (pouco antes, às 18h, o disco será tocado no mtv na íntegra). ah, e o carioca também pode ser encontrado no twitter como @domenico72 e esses videos são do música de bolso.
+ elisa porto segurando um kazoo (e rindo muito)
essas duas músicas estão na estreia solo de domenico (do projeto +2 com moreno e kassin, da orquestra imperial, da banda de adriana calcanhotto). o excelente cine privê (coqueiro verde, 2011) tem lançamento hoje no rio de janeiro, com direito a transmissão ao vivo a partir das 22 (pouco antes, às 18h, o disco será tocado no mtv na íntegra). ah, e o carioca também pode ser encontrado no twitter como @domenico72 e esses videos são do música de bolso.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
yahoo #02
taí o meu segundo texto pra coluna ultra pop, dessa vez sobre o fenômeno luan santana. o objetivo do texto é tentar entender e dar o devido valor a esse jovem artista que se fez pop dentro desse novo mundo do sertanejo brasileiro. ao mesmo tempo falar que ele (e seu universo) não ressoam no meu coração, simples assim. como não fiz um texto de amor, e muito menos de ódio a luan, o pessoal se confundiu todo e deu o maior chabu. mais de 300 comentários divididos entre os que odeiam e amam Luan (mas nada próximo ao caos da terceira coluna, "não tem papo, não tem alô", que trata do funk carioca).
EU QUERIA GOSTAR DE LUAN SANTANA
No princípio era o verbo. Ou melhor, o nome próprio. Luan Santana. Ouvi falar dele em algum momento de 2009. Pouco depois, no final do mesmo ano, assistindo TV em um recanto do interior paulista, pude vê-lo e ouvi-lo. Eram aquelas propagandas de coletâneas da Som Livre repetidas a exaustão nas transmissões via satélite, e entre um “Paga pau” (Fernando & Sorocaba) e um “Chora, me liga” (João Bosco & Vinicius) despontava “Meteoro” de Luan, esse fenômeno pop nacional que completou 20 anos no domingo passado. “Você é raio de saudade / Meteoro da paixão”, gritava em alto e bom som para uma platéia de 80 e tantas mil pessoas na sua cidade natal, Campo Grande.
Na oitava vez que a propaganda foi exibida fechei os olhos. E aquela voz parecia o encontro jovem de Zezé de Camargo & Luciano com a Ana Carolina. O interior romântico de uns, o senso pop da outra. Não era a toa que a coletânea vendida se chamava Batidão Sertanejo. Os tempos agora são outros e até a dor de cotovelo precisa ser animada. Agora já pode tirar o pé do chão. De qualquer forma, do mesmo balaio de “Meteoro” vieram outros hits, tais como “Tô de cara”, “Você não sabe o que é o amor” e “Sinais”, ou ainda a surpreendente dobradinha reggae em “Aqui é Seu Lugar / Digitais”, e Luan Santana deixou o Gurizinho (seu primeiro nome artístico) definitivamente de lado.
De lá para cá, o garoto de cabelo cuidadosamente rebelde e levemente vesgo (ooops, estrábico) conquistou o campo e as grandes cidades, viu seu cachê por apresentação crescer até os atuais 300 mil reais (numa média de 25 shows por mês, faça as contas), comprou um jatinho pra chamar de seu (o Bicuço) e transformou-se em um artista-empresa que emprega mais de 60 funcionários. Mas acima de tudo isso, ou paralelamente, ele é o retrato da consolidação de um universo pop brasileiro autônomo ao eixo Rio-São Paulo (e que, audaciosamente, é subjugado como prova irrefutável da Vitória, tanto que o segundo DVD ao vivo de Luan foi gravado no final de 2010 no Rio de Janeiro e está prestes a ser lançado).
Também é um novo passo dentro da música sertaneja, e aí faço minhas as palavras de Timpin Pinto, que em seu blog Cabaré do Timpin, afirmou que Luan representa “um tempo em que a música sertaneja evoluiu para se tornar o novo ritmo consumido pela juventude”. E não adianta os ortodoxos torcerem o nariz, e muitos menos os jornalistas tentarem rotulá-lo sob o vago chapéu de “sertanejo universitário”. Luan Santana é pop, simplesmente, tão pop quanto Justin Bieber ou Lady Gaga. E é sertanejo também. Aceitem. Lidem com isso.
Queria gostar de Luan Santana. Não consigo. Talvez porque não seja seu público-alvo de mocinhas e crianças, que compram a música junto com cadernos e chicletes com seu rosto (licenciado oficialmente). Talvez porque a alegria não me atinja com a força de um meteoro e, consequentemente, não dê soquinhos no ar e faça coraçõezinhos com as mãos. Mas então, do nada, escuto uma voz que diz assim: “o jogo do amor recomeça e a vida te pergunta: aqui é o seu lugar?”. Não sei, estava pensando no Luan Santana. Queria gostar de sua música. Paciência.
EU QUERIA GOSTAR DE LUAN SANTANA
No princípio era o verbo. Ou melhor, o nome próprio. Luan Santana. Ouvi falar dele em algum momento de 2009. Pouco depois, no final do mesmo ano, assistindo TV em um recanto do interior paulista, pude vê-lo e ouvi-lo. Eram aquelas propagandas de coletâneas da Som Livre repetidas a exaustão nas transmissões via satélite, e entre um “Paga pau” (Fernando & Sorocaba) e um “Chora, me liga” (João Bosco & Vinicius) despontava “Meteoro” de Luan, esse fenômeno pop nacional que completou 20 anos no domingo passado. “Você é raio de saudade / Meteoro da paixão”, gritava em alto e bom som para uma platéia de 80 e tantas mil pessoas na sua cidade natal, Campo Grande.
Na oitava vez que a propaganda foi exibida fechei os olhos. E aquela voz parecia o encontro jovem de Zezé de Camargo & Luciano com a Ana Carolina. O interior romântico de uns, o senso pop da outra. Não era a toa que a coletânea vendida se chamava Batidão Sertanejo. Os tempos agora são outros e até a dor de cotovelo precisa ser animada. Agora já pode tirar o pé do chão. De qualquer forma, do mesmo balaio de “Meteoro” vieram outros hits, tais como “Tô de cara”, “Você não sabe o que é o amor” e “Sinais”, ou ainda a surpreendente dobradinha reggae em “Aqui é Seu Lugar / Digitais”, e Luan Santana deixou o Gurizinho (seu primeiro nome artístico) definitivamente de lado.
De lá para cá, o garoto de cabelo cuidadosamente rebelde e levemente vesgo (ooops, estrábico) conquistou o campo e as grandes cidades, viu seu cachê por apresentação crescer até os atuais 300 mil reais (numa média de 25 shows por mês, faça as contas), comprou um jatinho pra chamar de seu (o Bicuço) e transformou-se em um artista-empresa que emprega mais de 60 funcionários. Mas acima de tudo isso, ou paralelamente, ele é o retrato da consolidação de um universo pop brasileiro autônomo ao eixo Rio-São Paulo (e que, audaciosamente, é subjugado como prova irrefutável da Vitória, tanto que o segundo DVD ao vivo de Luan foi gravado no final de 2010 no Rio de Janeiro e está prestes a ser lançado).
Também é um novo passo dentro da música sertaneja, e aí faço minhas as palavras de Timpin Pinto, que em seu blog Cabaré do Timpin, afirmou que Luan representa “um tempo em que a música sertaneja evoluiu para se tornar o novo ritmo consumido pela juventude”. E não adianta os ortodoxos torcerem o nariz, e muitos menos os jornalistas tentarem rotulá-lo sob o vago chapéu de “sertanejo universitário”. Luan Santana é pop, simplesmente, tão pop quanto Justin Bieber ou Lady Gaga. E é sertanejo também. Aceitem. Lidem com isso.
Queria gostar de Luan Santana. Não consigo. Talvez porque não seja seu público-alvo de mocinhas e crianças, que compram a música junto com cadernos e chicletes com seu rosto (licenciado oficialmente). Talvez porque a alegria não me atinja com a força de um meteoro e, consequentemente, não dê soquinhos no ar e faça coraçõezinhos com as mãos. Mas então, do nada, escuto uma voz que diz assim: “o jogo do amor recomeça e a vida te pergunta: aqui é o seu lugar?”. Não sei, estava pensando no Luan Santana. Queria gostar de sua música. Paciência.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
maderito, a entrevista
a outra metade da gang do eletro, assunto da reportagem que está no post "as duas cabeças do eletromelody", é o mc maderito, o alucinado do brasil, e aqui segue a íntegra da conversa que tive com ele via skype. figuraça esse maderito.
o começo
tenho 28 anos. nasci e me criei no bairro de aclimação, aqui em belém do pará. [trabalho com música] desde 2000, quando meu tio me colocou pra ser roadie do açaí machine... eu sou sobrinho de tonny brasil, entendeu? era o surgimento do tecnomelody, do tecnobrega, aquela onda todinha. aí ele criou a banda bundas, que era pra ser uma cover do mamonas [assassinas], e a gente foi fazer um show lá no acará. foi lá que o tonny disse que ia fazer uma banda e queria que eu fosse um dos principais. eu quero que você seja um personagem. porque a banda bundas tinha um teatro e chamava a galera pra dançar. daí que surgiu o maderito.
o apelido
o tonny criou o maderito do nada. ele falava que eu tinha que chamar as garotas pra dançar no palco comigo e naquela época eu era mais magro, aí ficou o maderito. e é assim que todo mundo me conhece. [dias depois, no messenger, waldo squash comentou sobre o apelido de maderito: “rsrsr... é... mais agora ja está mais forte, tomou remédio pra vermes e está se alimentando melhor... rsrs]
composições próprias e parcerias
já vinha fazendo minhas composições tinha tempo. desde quando tinha uns 15 anos. vinham rimas na minha cabeça, direto, e versos e frases, aí eu criava uma coisa. mas nunca imaginei criar um ritmo chamado eletromelody e a galera adaptar aquilo como se fosse um hino nacional. é o que equipes falam aqui em belém. então é isso, desde os 15 que faço rimas, faço músicas, tecno, melody, eletro, direto... eu me acostumei a fazer letras desde o tempo do pop brega, do brega mesmo. tempo de roberto villar, nelsinho rodrigues, do brega de raiz do pará mesmo! mas eu não tenho ideia de onde surgiu isso, tanta coisa, tantas letras na minha cabeça como surgem até hoje. eu sinceramente não sei, não sei [ri]... não sei de onde vem tanta imaginação, tanta coisa na minha vida. só deus que sabe.
comecei a fazer as minhas coisas em 2002. foi quando a banda bundas teve uma pequena... pequena não, teve uma discussão entre os donos, o meu tio tonny brasil era um deles, e ficaram sem se falar. foi quando a banda bundas acabou que decidi que iria realizar o meu sonho. foi aí que comecei a criar tecnobrega. primeiro com o dj miller, depois com o dj betinho izabelense. também gravei algumas músicas que fizeram sucesso com o dj alex, da banda vip, e com o furacão sonoro. com o betinho izabelense foi que gravei uma música que fala: “fazemos a festa que você merece / agora joga a mão pra cima e faz um s”. essa música foi uma febre aqui no pará. depois, em 2007, conheci o joe benassi. quem me apresentou a ele foi o dj rafael teletubies, com quem também gravei uns tecnobregas. pouco depois conheci o waldo squash, e nós estamos juntos até hoje, na luta com a gang do eletro, entendeu? tipo assim, tenho um vínculo direto com a moçada. todos os djs me respeitam, tanto os velha guarda quanto os atuais. já mandei umas quatro letras pra banda medley, fora outras bandas. e sempre correndo atrás de inovar, de estudar várias rimas e gírias. sempre correndo atrás de tudo, de tudo, de tudo.
eu trabalhei com o joe [benassi] em 2007 e a gente montou a banda eletromelody. mas aí teve um desentendimento entre eu e ele e eu saí fora. vou falar de um ditado aqui... eu tô vendo que aquela plantação ali não vai me dar arroz, não vai me dar feijão, não vai me dar comida, não vai me dar dinheiro pra poder comprar um trator e colher alguma coisa boa dali, eu prefiro tacar fogo naquela porra e vender o terreno. sabendo que aquela praga não vai ter mais jeito... prefiro partir pra outro lugar. foi isso que aconteceu. não deu certo entre nós dois e eu saí fora. nessa época, o waldo trabalhava numa empresa aqui e eu conheci ele assim, do nada. a gente começou a bater um papo e falei de fazer uma parada juntos. ele disse que ainda não sabia mexer direito [nos equipamentos], e eu falei ‘bora que a gente vai ver no que vai dar. e hoje o waldo squash é uma referência no pará. gosto de trabalhar com ele porque o waldo estuda várias coisas, sabe? coloca uns violinos, ou um cello, ou então um sax. só o filé.
sobre a gang do eletro e o futuro
a gang do eletro é muito diferente do que fazia antes. totalmente diferente. a gang do eletro está pronta pra competir com qualquer banda mundial de eletrodance, entendeu? o waldo, além de ser produtor, ele é locutor também e tem uma técnica muito fina pra voz. ele ajuda a gente a cantar. ele faz muito comercial pra holanda, pra fora, e a gente fala com esse pessoal pelo facebook, pelo twitter. já toquei um set da gang do eletro em londres e o pessoal pirou e ficava perguntando de onde vinha aquela música. e eu falei que era de belém do pará, do brasil. a galera não acredita que no norte tenha uma evolução tecnológica assim. é uma onda diferente.
não dá pra dizer o que vai ou o que não vai acontecer porque o futuro só a deus pertence. porque, olha só, meu sonho era ser jogador de futebol. era pra eu estar jogando uma hora dessas no paysandu, apesar de ser remista, só que essa história acabou quando eu quebrei meu braço. mas aí surgiu essa onda das músicas.
breve digressão
antigamente tinha dificuldade de fazer minhas letras pra gang do eletro. hoje em dia não. vem do nada, tipo assim... “dafne sampaio / chegou pra você / entrevistando o alucinado / pra galera estremecer”, uma onda assim [risos]... entendeu? gostou? é do nada! e dafne tem tudo a ver com uma aparelhagem do pará, sabia? aqui tem uma aparelhagem boa chamada daf som.
o acidente
tenho sete parafusos desse aqui no meu braço. e um jogo de platina. era remo e paysandu, decisão do primeiro turno. eu trabalhava no jornal o liberal. minha mãe disse... “meu filho, não vá pro campo não que hoje é final e tu vai só tu”... “não, mãe, vai eu e um amigo meu”... acabou que meu amigo não foi porque foi levar a mulher no hospital que tava grávida. fui pro mangueirão. chegando lá... o remo tinha que ganhar do paysandu de 1 a 0, e pro paysandu bastava um empate. o remo dando com bola na trava tudinho. terminou o jogo e o paysandu foi campeão, levantaram a taça, e aí a torcida do remo veio com tudo. eu vinha descendo a arquibancada, a rampa, quando veio aquele arrastão, muita gente atropelando e aí me empurraram e eu caí lá de cima do mangueirão. caiu eu e uma senhora. ela quebrou a bacia e eu o meu braço, que quebrou em quatro partes. o médico falou que não tinha mais jeito do meu braço ficar normal, mas veio outro e disse que tinha jeito sim, mas que tinha que pegar um jogo de platina em são paulo que custava r$ 2,7 mil [o resumo da sequência dessa história é que maderito estava em um consórcio para tirar a moto holda falcon, acabou resgatando o dinheiro e salvou o braço, recuperou todos os movimentos].
maderito escuta...
por incrível que pareça, as músicas que escuto em casa não são eletromelody, melody, funk, forró, nenhuma. eu curto muito baile da saudade. minha onda é flash brega. eu sou apaixonado por borba de paula, magno, roberto villar, wanderley andrade, tonny brasil, que é meu tio... direto... minha onda em casa é baile da saudade. não escuto outra coisa. merengue, cumbia, soca, casicó, siriá, entendeu? reggaeton. e lá em casa é direto cd do pop saudade, rubi saudade, daf saudade, que é um outro segmento da empresa, né? ah, porque ficar escutando latino, essas músicas de fora, lady gaga, beyonce... pra mim isso pode tá aí! choro! eu gosto de escutar o que é do pará, o que é nosso.
a evolução da música pop paraense
pro meu conceito mudaram três coisas. primeiro: as batidas são mais acelerados porque a galera dá mais valor. pela harmonia, melodia, tudinho geral. pelo instrumental. e as letras que hoje em dia tem umas lindas. por isso que falo pra todo mundo que nós paraenses temos a capacidade de criar uma música, uma letra linda maravilhosa. eu falo, gente, vamos parar de pegar música dos outros, forró ou funk, e transformar em melody, porque não vinga. desse jeito a gente nunca vai ser muita coisa. acho que mudou muita coisa, eu gostei.
do pará
nós somos ricos em música. temos artistas bons aqui e a nossa cultura é forte. eu considero o pará como um país, um país cheio de ritmos, entendeu? agradeço muito a deus por ter nascido no pará e ser paraense da nata. ter o sangue parauara. acho uma coisa bem legal, diferente mesmo.
tirando o chapéu
gaby amarantos, acho o trabalha dela filé mesmo. a banda os brothers tem umas sacadas boas no melody. marlon branco junto com david sampler, outro cara que tiro o chapéu. viviane batidão com betinho izabelense. só filé. uma onda gostosa de curtir.
dou muito valor a ivete sangalo. ia ser um grande privilégio cantar com ela. e com o marcelo d2, ele de camisa do flamengo cantando a rima dele, e eu com a camisa do vasco cantando a minha do pará. e tem também um cara que sou louco pela música dele que é o josé augusto [e cantarola um trecho de “tudo deu em nada”].
os sonhos
tenho três sonhos na vida. quero construir uma casa e dar boas condições pra minha família, principalmente pra minha filha e minha mulher. quero conhecer são januário, o campo do vasco no rio de janeiro. e também tenho o sonho de conhecer o jô soares. os dois primeiros estão quase realizados, porque já mandei tirar o orçamento e daqui pra outubro vou terminar minha casa [seu aniversário é em 3 de outubro, perto do círio de nazaré], tenho um abraço gravado do carlos germano, que foi goleiro do vasco, e esse ano eu devo ir a são januário. então falta esse sonho de conhecer o jô soares e todo o sexteto dele.
o começotenho 28 anos. nasci e me criei no bairro de aclimação, aqui em belém do pará. [trabalho com música] desde 2000, quando meu tio me colocou pra ser roadie do açaí machine... eu sou sobrinho de tonny brasil, entendeu? era o surgimento do tecnomelody, do tecnobrega, aquela onda todinha. aí ele criou a banda bundas, que era pra ser uma cover do mamonas [assassinas], e a gente foi fazer um show lá no acará. foi lá que o tonny disse que ia fazer uma banda e queria que eu fosse um dos principais. eu quero que você seja um personagem. porque a banda bundas tinha um teatro e chamava a galera pra dançar. daí que surgiu o maderito.
o apelido
o tonny criou o maderito do nada. ele falava que eu tinha que chamar as garotas pra dançar no palco comigo e naquela época eu era mais magro, aí ficou o maderito. e é assim que todo mundo me conhece. [dias depois, no messenger, waldo squash comentou sobre o apelido de maderito: “rsrsr... é... mais agora ja está mais forte, tomou remédio pra vermes e está se alimentando melhor... rsrs]
composições próprias e parcerias
já vinha fazendo minhas composições tinha tempo. desde quando tinha uns 15 anos. vinham rimas na minha cabeça, direto, e versos e frases, aí eu criava uma coisa. mas nunca imaginei criar um ritmo chamado eletromelody e a galera adaptar aquilo como se fosse um hino nacional. é o que equipes falam aqui em belém. então é isso, desde os 15 que faço rimas, faço músicas, tecno, melody, eletro, direto... eu me acostumei a fazer letras desde o tempo do pop brega, do brega mesmo. tempo de roberto villar, nelsinho rodrigues, do brega de raiz do pará mesmo! mas eu não tenho ideia de onde surgiu isso, tanta coisa, tantas letras na minha cabeça como surgem até hoje. eu sinceramente não sei, não sei [ri]... não sei de onde vem tanta imaginação, tanta coisa na minha vida. só deus que sabe.
comecei a fazer as minhas coisas em 2002. foi quando a banda bundas teve uma pequena... pequena não, teve uma discussão entre os donos, o meu tio tonny brasil era um deles, e ficaram sem se falar. foi quando a banda bundas acabou que decidi que iria realizar o meu sonho. foi aí que comecei a criar tecnobrega. primeiro com o dj miller, depois com o dj betinho izabelense. também gravei algumas músicas que fizeram sucesso com o dj alex, da banda vip, e com o furacão sonoro. com o betinho izabelense foi que gravei uma música que fala: “fazemos a festa que você merece / agora joga a mão pra cima e faz um s”. essa música foi uma febre aqui no pará. depois, em 2007, conheci o joe benassi. quem me apresentou a ele foi o dj rafael teletubies, com quem também gravei uns tecnobregas. pouco depois conheci o waldo squash, e nós estamos juntos até hoje, na luta com a gang do eletro, entendeu? tipo assim, tenho um vínculo direto com a moçada. todos os djs me respeitam, tanto os velha guarda quanto os atuais. já mandei umas quatro letras pra banda medley, fora outras bandas. e sempre correndo atrás de inovar, de estudar várias rimas e gírias. sempre correndo atrás de tudo, de tudo, de tudo.
eu trabalhei com o joe [benassi] em 2007 e a gente montou a banda eletromelody. mas aí teve um desentendimento entre eu e ele e eu saí fora. vou falar de um ditado aqui... eu tô vendo que aquela plantação ali não vai me dar arroz, não vai me dar feijão, não vai me dar comida, não vai me dar dinheiro pra poder comprar um trator e colher alguma coisa boa dali, eu prefiro tacar fogo naquela porra e vender o terreno. sabendo que aquela praga não vai ter mais jeito... prefiro partir pra outro lugar. foi isso que aconteceu. não deu certo entre nós dois e eu saí fora. nessa época, o waldo trabalhava numa empresa aqui e eu conheci ele assim, do nada. a gente começou a bater um papo e falei de fazer uma parada juntos. ele disse que ainda não sabia mexer direito [nos equipamentos], e eu falei ‘bora que a gente vai ver no que vai dar. e hoje o waldo squash é uma referência no pará. gosto de trabalhar com ele porque o waldo estuda várias coisas, sabe? coloca uns violinos, ou um cello, ou então um sax. só o filé.
sobre a gang do eletro e o futuro
a gang do eletro é muito diferente do que fazia antes. totalmente diferente. a gang do eletro está pronta pra competir com qualquer banda mundial de eletrodance, entendeu? o waldo, além de ser produtor, ele é locutor também e tem uma técnica muito fina pra voz. ele ajuda a gente a cantar. ele faz muito comercial pra holanda, pra fora, e a gente fala com esse pessoal pelo facebook, pelo twitter. já toquei um set da gang do eletro em londres e o pessoal pirou e ficava perguntando de onde vinha aquela música. e eu falei que era de belém do pará, do brasil. a galera não acredita que no norte tenha uma evolução tecnológica assim. é uma onda diferente.
não dá pra dizer o que vai ou o que não vai acontecer porque o futuro só a deus pertence. porque, olha só, meu sonho era ser jogador de futebol. era pra eu estar jogando uma hora dessas no paysandu, apesar de ser remista, só que essa história acabou quando eu quebrei meu braço. mas aí surgiu essa onda das músicas.
breve digressão
antigamente tinha dificuldade de fazer minhas letras pra gang do eletro. hoje em dia não. vem do nada, tipo assim... “dafne sampaio / chegou pra você / entrevistando o alucinado / pra galera estremecer”, uma onda assim [risos]... entendeu? gostou? é do nada! e dafne tem tudo a ver com uma aparelhagem do pará, sabia? aqui tem uma aparelhagem boa chamada daf som.
o acidente
tenho sete parafusos desse aqui no meu braço. e um jogo de platina. era remo e paysandu, decisão do primeiro turno. eu trabalhava no jornal o liberal. minha mãe disse... “meu filho, não vá pro campo não que hoje é final e tu vai só tu”... “não, mãe, vai eu e um amigo meu”... acabou que meu amigo não foi porque foi levar a mulher no hospital que tava grávida. fui pro mangueirão. chegando lá... o remo tinha que ganhar do paysandu de 1 a 0, e pro paysandu bastava um empate. o remo dando com bola na trava tudinho. terminou o jogo e o paysandu foi campeão, levantaram a taça, e aí a torcida do remo veio com tudo. eu vinha descendo a arquibancada, a rampa, quando veio aquele arrastão, muita gente atropelando e aí me empurraram e eu caí lá de cima do mangueirão. caiu eu e uma senhora. ela quebrou a bacia e eu o meu braço, que quebrou em quatro partes. o médico falou que não tinha mais jeito do meu braço ficar normal, mas veio outro e disse que tinha jeito sim, mas que tinha que pegar um jogo de platina em são paulo que custava r$ 2,7 mil [o resumo da sequência dessa história é que maderito estava em um consórcio para tirar a moto holda falcon, acabou resgatando o dinheiro e salvou o braço, recuperou todos os movimentos].
maderito escuta...
por incrível que pareça, as músicas que escuto em casa não são eletromelody, melody, funk, forró, nenhuma. eu curto muito baile da saudade. minha onda é flash brega. eu sou apaixonado por borba de paula, magno, roberto villar, wanderley andrade, tonny brasil, que é meu tio... direto... minha onda em casa é baile da saudade. não escuto outra coisa. merengue, cumbia, soca, casicó, siriá, entendeu? reggaeton. e lá em casa é direto cd do pop saudade, rubi saudade, daf saudade, que é um outro segmento da empresa, né? ah, porque ficar escutando latino, essas músicas de fora, lady gaga, beyonce... pra mim isso pode tá aí! choro! eu gosto de escutar o que é do pará, o que é nosso.
a evolução da música pop paraense
pro meu conceito mudaram três coisas. primeiro: as batidas são mais acelerados porque a galera dá mais valor. pela harmonia, melodia, tudinho geral. pelo instrumental. e as letras que hoje em dia tem umas lindas. por isso que falo pra todo mundo que nós paraenses temos a capacidade de criar uma música, uma letra linda maravilhosa. eu falo, gente, vamos parar de pegar música dos outros, forró ou funk, e transformar em melody, porque não vinga. desse jeito a gente nunca vai ser muita coisa. acho que mudou muita coisa, eu gostei.
do pará
nós somos ricos em música. temos artistas bons aqui e a nossa cultura é forte. eu considero o pará como um país, um país cheio de ritmos, entendeu? agradeço muito a deus por ter nascido no pará e ser paraense da nata. ter o sangue parauara. acho uma coisa bem legal, diferente mesmo.
tirando o chapéu
gaby amarantos, acho o trabalha dela filé mesmo. a banda os brothers tem umas sacadas boas no melody. marlon branco junto com david sampler, outro cara que tiro o chapéu. viviane batidão com betinho izabelense. só filé. uma onda gostosa de curtir.
dou muito valor a ivete sangalo. ia ser um grande privilégio cantar com ela. e com o marcelo d2, ele de camisa do flamengo cantando a rima dele, e eu com a camisa do vasco cantando a minha do pará. e tem também um cara que sou louco pela música dele que é o josé augusto [e cantarola um trecho de “tudo deu em nada”].
os sonhos
tenho três sonhos na vida. quero construir uma casa e dar boas condições pra minha família, principalmente pra minha filha e minha mulher. quero conhecer são januário, o campo do vasco no rio de janeiro. e também tenho o sonho de conhecer o jô soares. os dois primeiros estão quase realizados, porque já mandei tirar o orçamento e daqui pra outubro vou terminar minha casa [seu aniversário é em 3 de outubro, perto do círio de nazaré], tenho um abraço gravado do carlos germano, que foi goleiro do vasco, e esse ano eu devo ir a são januário. então falta esse sonho de conhecer o jô soares e todo o sexteto dele.
dj waldo squash, a entrevista
como falei no post anterior, "as duas cabeças do eletromelody", a entrevista com maderito e waldo squash rendeu bem e, como sempre, muita coisa ficou de fora do texto que fiz pra vice brasil. segue aqui, praticamente na íntegra, a conversa que tive que waldo. no próximo post, a íntegra de maderito, o alucinado do brasil.
o apelido
waldo vem de josivaldo. o apelido waldo squash surgiu quando eu trabalhava no rádio, uns 6 anos atrás. na verdade foi uma brincadeira com um amigo, estávamos conversando sobre esportes e eu disse que gostava de jogar squash. e aí no outro no horário do programa dele, eu estava operando o áudio e ele me apresentou como dj waldo squash... e daí todos naquela rádio começaram a me chamar pelo mesmo nome.
o começo
beleza, vamos lá então pra ficha criminal. eu nasci em muaná, no rio atuá, mas não conheço a cidade não, nunca mais voltei. fica nas proximidades da ilha do marajó. tenho 31 anos. nasci em 1979. fui criado em ananindeua. passei uns 20 anos, aproximadamente, por lá. hoje em dia moro em barcarena, que é uma cidade próxima de belém. é uma cidade muito industrial, tem muita empresa metalúrgica. inclusive, minha outra profissão é mecânico industrial. mas meu último trabalho como mecânico já tem um ano. foi lá em porto velho, fiquei uns seis meses lá, mas senti falta do meu estúdio, dos meus equipamentos. aí vim me embora, larguei.
a música
música começou desde que nasci. meu pai já era apaixonado por música, tinha um sonzinho, uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. a cada passo que você dá aqui você encontra uma aparelhagem. ele montou uma aparelhagem pra ele. quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos e tudo mais. ouvindo música, ouvindo, ouvindo, ouvindo, e gostando de tocar, né? acho que já nasci dj. a parte de compasso musical aprendi já maior, mas já tinha isso comigo, mesmo sem saber o que era, porque já nasci ouvindo os compassos.
mas só fui mexer com música mesmo tem uns 5 anos, já próximo de conhecer o maderito. já trabalhava com produção. coloquei umas rádios no ar aqui no interior do pará e fazia produção de comerciais, de vinhetas, essas coisas assim, mas não fazia música. é que fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor, entendeu? então fui aplicando isso em alguns remixes a minha idéia, a minha interpretação das músicas. é o que faço hoje em dia.
três anos atrás conheci o maderito. já tinha uns remixes, mas não eram tão bons assim. de três anos pra cá fui estudando mais, fui conhecendo mais, e hoje a produção tá um pouco melhor. mas pode ficar bem melhor ainda. por causa disso continuo estudando. o estudo nunca para. pra sempre melhorar a qualidade do som no estilo que a gente trabalha. sempre procurando adicionar uma coisinha a mais.
e o eletromelody?
não é tão diferente porque a levada é a mesma da época do brega. o brega que se transformou em pop brega, tecnobrega, tecnomelody, e assim sucessivamente. só que a gente procura fazer o seguinte, fazer uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem, com percussão e tudo mais, um pouco da música pop internacional mesmo. a gente procura colocar um pouco de cada. a gente fez essa mistura e continua fazendo pra ver no que dá. eu não acho tão diferente assim o som. é um pouco mais cheio com outros tipos de instrumentos, mas a levada é a mesma. só é mais eletrônico.
"sinhá pureza", remix de um clássico de pinduca, o rei do carimbó
o trabalho com maderito
geralmente a gente troca idéias pra fazer uma música. a maioria das nossas músicas são músicas de equipes... então, o que é que a gente pede quando uma equipe ou aparelhagem entra em contato com a gente, pedimos uma idéia do que eles querem e aí a gente faz o trabalho em cima disso. eu faço a base e o maderito escreve a letra, entendeu? mas nem sempre a base que faço é a que fica, porque às vezes ele escreve uma letra que fica melhor com outra base, e aí eu já faço a modificação. a gente trabalha dessa forma.
a música do pará
com o avanço da tecnologia e dos programas, os produtores daqui, os belenenses, os paraenses em geral, tiveram mais facilidade de colocar as suas idéias em prática. e a música paraense se transformou em mais vendável, pela qualidade. não só dentro do país, como fora também. acho que a nossa levada, a levada do pará, é contagiante, tem várias formas de dançar, pode ser agarrado, pode ser solto. mas falo isso e não sei se é o costume, porque a gente é acostumado a ouvir o que é daqui.
misturas
tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do pará. já incluí samba no “tributo a carmen miranda” e tô pensando em fazer umas coisas com pagode. umas coisas da américa do sul como cumbia. são experiências que a gente está fazendo pra quando sair daqui poder mostrar um pouco da amazônia.
acho interessante fazer uma mistura com a música do pará porque é o que a gente mais gosta de fazer aqui. tem que ter os traços daqui se não a gente vai fugindo da raiz. o que a gente saber fazer melhor é que fazemos aqui.
waldo squash escuta...
gosto muito de ouvir eletrodance, tecnodance, da levada de drum’n’bass, é o tipo de músico que ouço, entendeu? muita coisa de fora no estilo mais pop. na verdade passo o dia todo ouvindo música, toda hora. quando não é no estúdio é no celular. não tem jeito não. eu escuto mais música que assisto televisão, que leio... não, leio muito por causa da internet... mas eu ouço muita música. tudo que estou fazendo é com música.
planos para o futuro
tenho planos pra frente sim, em relação ao trabalho. meu desejo é colocar minha idéias em prática, entendeu? algumas precisam de recursos financeiros pra funcionar, e isso a gente vai fazendo do jeito que dá. são idéias principalmente pras nossas apresentações. durmo pensando nisso. a gente quer rodar pra fora do país.
tem vários artistas que gostaria de trabalhar. alguns daqui do pará, que ainda não trabalhei, mas que são próximos e só não aconteceu a oportunidade. mas de fora... tenho vontade de trabalhar com alguns djs e produtores como o [paulista] alex hunt. ia ser legal trocar idéia com ele.
a estréia em disco da gang do eletro
minha expectativa sobre o disco é a mesma de qualquer artista. quero que ele faça sucesso. por isso a gente vai trabalhar com carinho, pensando no todo, pra que esse disco saia especial e que as pessoas gostem. porque a gente nunca faz música pra nós mesmos. a gente faz pra massa, pro povão que vai pra festa mesmo. e é através da experiência de ver essa galera curtindo que a gente vai trabalhar nesse disco, com o que a gente tem de melhor.
"arrasadora [sanfona mix]", remix de um sucesso dos chilenos do comando reggaeton
o apelido
waldo vem de josivaldo. o apelido waldo squash surgiu quando eu trabalhava no rádio, uns 6 anos atrás. na verdade foi uma brincadeira com um amigo, estávamos conversando sobre esportes e eu disse que gostava de jogar squash. e aí no outro no horário do programa dele, eu estava operando o áudio e ele me apresentou como dj waldo squash... e daí todos naquela rádio começaram a me chamar pelo mesmo nome.
o começo
beleza, vamos lá então pra ficha criminal. eu nasci em muaná, no rio atuá, mas não conheço a cidade não, nunca mais voltei. fica nas proximidades da ilha do marajó. tenho 31 anos. nasci em 1979. fui criado em ananindeua. passei uns 20 anos, aproximadamente, por lá. hoje em dia moro em barcarena, que é uma cidade próxima de belém. é uma cidade muito industrial, tem muita empresa metalúrgica. inclusive, minha outra profissão é mecânico industrial. mas meu último trabalho como mecânico já tem um ano. foi lá em porto velho, fiquei uns seis meses lá, mas senti falta do meu estúdio, dos meus equipamentos. aí vim me embora, larguei.
a música
música começou desde que nasci. meu pai já era apaixonado por música, tinha um sonzinho, uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. a cada passo que você dá aqui você encontra uma aparelhagem. ele montou uma aparelhagem pra ele. quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos e tudo mais. ouvindo música, ouvindo, ouvindo, ouvindo, e gostando de tocar, né? acho que já nasci dj. a parte de compasso musical aprendi já maior, mas já tinha isso comigo, mesmo sem saber o que era, porque já nasci ouvindo os compassos.
mas só fui mexer com música mesmo tem uns 5 anos, já próximo de conhecer o maderito. já trabalhava com produção. coloquei umas rádios no ar aqui no interior do pará e fazia produção de comerciais, de vinhetas, essas coisas assim, mas não fazia música. é que fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor, entendeu? então fui aplicando isso em alguns remixes a minha idéia, a minha interpretação das músicas. é o que faço hoje em dia.
três anos atrás conheci o maderito. já tinha uns remixes, mas não eram tão bons assim. de três anos pra cá fui estudando mais, fui conhecendo mais, e hoje a produção tá um pouco melhor. mas pode ficar bem melhor ainda. por causa disso continuo estudando. o estudo nunca para. pra sempre melhorar a qualidade do som no estilo que a gente trabalha. sempre procurando adicionar uma coisinha a mais.
e o eletromelody?
não é tão diferente porque a levada é a mesma da época do brega. o brega que se transformou em pop brega, tecnobrega, tecnomelody, e assim sucessivamente. só que a gente procura fazer o seguinte, fazer uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem, com percussão e tudo mais, um pouco da música pop internacional mesmo. a gente procura colocar um pouco de cada. a gente fez essa mistura e continua fazendo pra ver no que dá. eu não acho tão diferente assim o som. é um pouco mais cheio com outros tipos de instrumentos, mas a levada é a mesma. só é mais eletrônico.
"sinhá pureza", remix de um clássico de pinduca, o rei do carimbó
o trabalho com maderito
geralmente a gente troca idéias pra fazer uma música. a maioria das nossas músicas são músicas de equipes... então, o que é que a gente pede quando uma equipe ou aparelhagem entra em contato com a gente, pedimos uma idéia do que eles querem e aí a gente faz o trabalho em cima disso. eu faço a base e o maderito escreve a letra, entendeu? mas nem sempre a base que faço é a que fica, porque às vezes ele escreve uma letra que fica melhor com outra base, e aí eu já faço a modificação. a gente trabalha dessa forma.
a música do pará
com o avanço da tecnologia e dos programas, os produtores daqui, os belenenses, os paraenses em geral, tiveram mais facilidade de colocar as suas idéias em prática. e a música paraense se transformou em mais vendável, pela qualidade. não só dentro do país, como fora também. acho que a nossa levada, a levada do pará, é contagiante, tem várias formas de dançar, pode ser agarrado, pode ser solto. mas falo isso e não sei se é o costume, porque a gente é acostumado a ouvir o que é daqui.
misturas
tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do pará. já incluí samba no “tributo a carmen miranda” e tô pensando em fazer umas coisas com pagode. umas coisas da américa do sul como cumbia. são experiências que a gente está fazendo pra quando sair daqui poder mostrar um pouco da amazônia.
acho interessante fazer uma mistura com a música do pará porque é o que a gente mais gosta de fazer aqui. tem que ter os traços daqui se não a gente vai fugindo da raiz. o que a gente saber fazer melhor é que fazemos aqui.
waldo squash escuta...
gosto muito de ouvir eletrodance, tecnodance, da levada de drum’n’bass, é o tipo de músico que ouço, entendeu? muita coisa de fora no estilo mais pop. na verdade passo o dia todo ouvindo música, toda hora. quando não é no estúdio é no celular. não tem jeito não. eu escuto mais música que assisto televisão, que leio... não, leio muito por causa da internet... mas eu ouço muita música. tudo que estou fazendo é com música.
planos para o futuro
tenho planos pra frente sim, em relação ao trabalho. meu desejo é colocar minha idéias em prática, entendeu? algumas precisam de recursos financeiros pra funcionar, e isso a gente vai fazendo do jeito que dá. são idéias principalmente pras nossas apresentações. durmo pensando nisso. a gente quer rodar pra fora do país.
tem vários artistas que gostaria de trabalhar. alguns daqui do pará, que ainda não trabalhei, mas que são próximos e só não aconteceu a oportunidade. mas de fora... tenho vontade de trabalhar com alguns djs e produtores como o [paulista] alex hunt. ia ser legal trocar idéia com ele.
a estréia em disco da gang do eletro
minha expectativa sobre o disco é a mesma de qualquer artista. quero que ele faça sucesso. por isso a gente vai trabalhar com carinho, pensando no todo, pra que esse disco saia especial e que as pessoas gostem. porque a gente nunca faz música pra nós mesmos. a gente faz pra massa, pro povão que vai pra festa mesmo. e é através da experiência de ver essa galera curtindo que a gente vai trabalhar nesse disco, com o que a gente tem de melhor.
"arrasadora [sanfona mix]", remix de um sucesso dos chilenos do comando reggaeton
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